Publicado 12 de Novembro de 2015 - 18h31

Por Adagoberto F. Baptista

Foto: Mandei fazer reprodução // Busch diz que pode ter foto em agência estado

((VÍDEO NO SITE))

Eric Rocha

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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A discussão de mais uma moção promete causar polêmica na Câmara Municipal de Campinas. O vereador Vinícius Gratti (PSD) protocolou um documento no qual apela ao Ministério da Cultura para que a pasta determine a interrupção da veiculação do vídeo “Meu Corpo, Minhas Regras”, estrelado por atores e atrizes globais e parte da divulgação do filme “Olmo e a Gaivota”. Segundo o parlamentar, o clipe faz apologia aos crimes de aborto e vilipêndio religioso.

O longa estreou nos cinemas do País no último dia 5 de novembro e conta a história de Olívia (Olivia Corsini), uma atriz que se prepara para encenar a peça “A Gaivota”, de Anton Tchekov. No entanto, durante os ensaios ela descobre que está grávida e sofre um acidente enquanto a produção se desenrola. Em casa, durante um período de descanso forçado, o personagem precisa lidar com mudanças radicais na rotina, corpo e vida –

o filme é dirigido por Petra Costa e Lea Glob.

O vídeo “Meu Corpo, Minhas Regras”, elaborado para ser divulgado nas redes sociais, foi produzido após diversos atores assistirem ao filme e aceitarem participar da gravação. Na produção, eles falam sobre o direito de escolha da mulher em relação ao próprio corpo, a possibilidade de gravidez indesejadas e destacam a posição feminina nesse contexto. “Toda mulher é dona do seu corpo, faço com ele o que quiser. Meu Corpo, minhas regras. Parece óbvio, né? Nada é fácil aqui”, afirmam vários artistas no vídeo. Os atores da Rede Globo Alexandre Borges, Bárbara Paz, Bruna Linzmeyer e Júlia Lemmertz são alguns que aparecem no vídeo.

Para Gratti, no entanto, a mensagem transmitida pelo vídeo faz apologia aos crimes de aborto e vilipêndio religioso, ambos previstos no Código Penal. “Se revela necessária e oportuna a apresentação da presente moção de apelo, a fim de proteger o direito à vida e os respeitos aos cultos e imagens religiosas, evitando a prática de reprovável conduta”, escreveu na moção. O parlamentar quer que o Ministério da Cultura determine que os produtores do clipe interrompam a sua veiculação.

A moção quase foi votada na sessão da última quarta-feira. O autor da proposta discursava sobre ela quando o relógio chegou às 22h. Como ninguém havia pedido a prorrogação do encontro por mais duas horas, ele foi encerrado.

Repercussão

O vereador Gustavo Petta (PCdoB) afirmou que o apelo causa “constrangimento”, promove a censura e contraria a liberdade de expressão. Presente durante a discussão na última quarta, ele estava a postos para apresentar um pedido de verificação de quórum (havia poucos vereadores no Plenário) para encerrar a sessão antes da votação, mas isso não foi preciso. “O problema maior não é você condenar o vídeo porque não concorda com o seu conteúdo. O grave é querer impedir a circulação dele”, criticou.

A diretora do longa Petra Costa também não poupou críticas e classificou a moção como “machista”. De acordo com ela, o vídeo não é publicitário, e sim de arte. “O vídeo não faz apologia ao aborto, fala das questões silenciadas da mulher. A gente apenas toca na questão porque enquanto não falarmos sobre isso as mulheres vão continuar morrendo em abortos clandestinos”, defendeu. A cineasta também pregou um debate construtivo sobre o tema. “O longa surgiu para mostrar o que se passa na cabeça da mulher durante os nove meses de gravidez. Esse é um tema pouco retratado no cinema.”

Moções polêmicas

A Câmara de Campinas já havia causado polêmica em todo o País ao aprovar no final do mês passado uma moção de protesto, de autoria de Campos Filho (DEM), à questão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que citou a filósofa francesa e escritora Simone de Beauvoir. O apelo foi aprovado, mas gerou muita discussão entre os parlamentares. Foram 25 votos favoráveis e cinco contrários. Votaram contra Carlão do PT, Pedro Tourinho (PT), Paulo Bufalo (PSOL), Gustavo Petta (PcdoB) e Ângelo Barreto (PT). Campos Filho chegou a chamar de “demoníaca” a iniciativa do governo federal e exigiu a anulação da questão por ela, supostamente, afrontar um conjunto “de fundamentos jurídicos e o próprio Estado Democrático de Direito.”

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Adagoberto F. Baptista