Publicado 11 de Novembro de 2015 - 16h52

Fotos: Divulgação

Fábio Trindade

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Quando o assunto é humor, pode-se dizer que a Terça Insana representou na década passada o que o Porta dos Fundos significa hoje. A diferença é que sem a primeira trupe, a segunda certamente não existiria, já que ela foi a precursora da comédia afiada e sem papas na língua feita atualmente - não apenas pelo Porta, mas em diversos programas da TV, entre eles o Tá no Ar: a TV na TV. Sem contar que a Terça Insana se consagrou no teatro - o que, convenhamos, está cada vez mais difícil - enquanto o Porta usou muito bem a internet para alcançar o maior número possível de espectadores.

Sim, o espetáculo Terça Insana, quando foi criado pela atriz e diretora Grace Gianoukas lá em 2001, abriu portas para o humor brasileiro - como ela mesma já disse diversas vezes. Só que, infelizmente, não é possível hoje em dia viver de legado. O processo natural, de qualquer coisa, é se renovar, e o humor brasileiro vem fazendo isso. O stand-up chegou, a internet explodiu, novos comediantes apareceram e até o Zorra Total, que insistia em manter o velho humor estereotipado, de texto pobre e repetitivo, aposentou a fórmula para ficar mais contemporâneo.

Foram 13 anos em cartaz até Terça Insana chegar ao fim, no ano passado, deixando de herança, após 600 encenações, cerca de 700 personagens, encenados por 380 atores - entre eles Luis Miranda, Marco Luque, Marcelo Mansfield e Mila Ribeiro. Depois disso, a diretora criou espetáculos menores, entre eles o Terça Insana - Grace Gianoukas Recebe, que estreou na última semana no Teatro Amil do Parque D. Pedro Shopping e ficará em cartaz em Campinas durante todo o mês de novembro.

Usar um nome conhecido do público é natural, ainda mais quando a peça é derivada exclusivamente de tal marca. Mas o que Grace apresenta em seu novo espetáculo passa longe do que a Terça Insana fez no passado - ou mesmo do que muitos de seus colegas de palco têm apresentado por aí. O melhor exemplo é Luis Miranda com a comédia 7 Conto, que já passou por Campinas algumas vezes. Mesmo usando diversos de seus personagens da Terça, o ator montou um espetáculo moderno, crítico e inteligente, sem deixar de ser divertidíssimo.

Grace também resgata personagens - mesmo não querendo fazer isso, como ela brinca em determinado momento da peça. Porém, apenas repete o que já foi feito, como Aline Dorel, a estrela internacional que adora um lexotan. “Já fiz muitos filmes com Fellini, Pasolini, Mussolini...”, começa a esquete, com a mesma piada de anos e anos. Todo o humor é velho, ultrapassado, com piadas que foram engraçadas um dia e hoje são apenas óbvias demais. Brincar com Tutankamon e o calor do deserto do Saara? Não, por favor.

Apesar da repetição de piadas e personagens, a impressão, pelo menos no sábado passado, quando a reportagem assistiu ao espetáculo, era que Grace não sabia o texto. Parecia um ensaio, cheio de erros e mudanças de falas. Em diversos momentos Grace parecia perdida, até nervosa, assim como a colega de elenco Rita Murai. Na primeira esquece de Rita, ela faz uma bêbada e se encontra com Grace no palco. Tudo caminhava bem (apesar da interação com a plateia ter sido longa demais), até a diretora precisar o tempo todo dar deixas para a colega fazer o texto. “Mas você também é corretora de imóveis?”, pergunta Grace, do nada, para Rita responder que sim e fazer uma piada sobre o assunto.

O show conta também com o ator Darwin Demarch, o único que parecia pronto para a peça (até porque seu papel é o menor dos três). Ele servia como apoio, quase um assistente de palco, atuando principalmente em momentos de interação com a plateia. Um deles, uma discussão - nada engraçada e demorada, para não dizer desnecessária - sobre qual bis é o melhor: branco, ao leite ou de morando. Perder dez minutos de espetáculo com essa questão (sim, esse é o mote principal da esquete), também é abusar da inteligência da plateia.

A diretora e atriz precisa se atualizar. Como ela mesma diz no show, tem mais de 30 anos de carreira, inúmeros personagens e centenas de apresentações. Não precisa ficar presa ao passado com números que não funcionam mais. Ela tem muita coisa para contar.

O show começa com Grace vestida de aeromoça dando um recado sobre o vôo de 80 minutos que a plateia fará, avisando que o serviço de entretenimento da aeronave se encarregará de distrair o passageiro. O início é promissor, com um monólogo com dicas de como ser um fundamentalista. Aqui sim Grace é crítica, afiada, faz rir com inteligência. Mas tudo desaba após isso, retornando a mesmice. Sem contar que durante todo o espetáculo não há uma referência sequer ao voo citado - falha grave, seria melhor nem ter usado o gancho do voo.

Mas já que o assunto é esse, ficamos portando com a sensação de ter feito a rota Curitiba/Porto Alegre - quem já fez, sabe que é sempre turbulenta, chata, com todos torcendo apenas para o voo chegar ao fim. Grace, no final, parecia querer o mesmo. Após agradecer patrocinadores (errando o nome do teatro) e o público pela presença, a atriz começa a sair do palco quando é lembrada por Darwin Demarch para fazer uma foto com a plateia. Sua resposta para ele, audível para todos, foi: “não precisa, deixa pra lá”.