Publicado 10 de Novembro de 2015 - 20h06

Por Inaê Miranda

íÍíFOTOS: Carlinhos

Inaê Miranda

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Fundado há 18 anos a partir de uma demanda da comunidade, o cursinho Herbert de Souza já atendeu mais de 8 mil alunos. Muitos deles conseguiram ingressar nas universidades e colégios mais disputados do País. Hoje, alunos e professores convivem com a ameaça do cursinho ser fechado a qualquer momento. Isso porque o terreno onde funciona foi vendido sem debate, consulta pública ou qualquer comunicação aos principais interessados. A transação foi feita em 2013, mas a coordenação do cursinho só tomou conhecimento este ano, após surgirem boatos da venda. A instituição busca esclarecimentos da situação para não ser surpreendida com uma ordem de despejo.

A área onde hoje funciona o cursinho pertencia à Prefeitura de Campinas e foi doada à Cooperativa de Araras com a condição de abrigar um equipamento público comunitário. Em 1998, o terreno foi então cedido ao projeto Herbert de Souza em assembleia da Associação de Moradores da Vila União para cumprir objetivo da área, segundo comentou a advogada Érica Zucatti da Silva. Após o surgimento dos boatos de venda da área, a direção do cursinho foi orientada pela advogada a buscar informações em cartório, onde confirmaram que o cursinho foi vendido pela Cooperativa de Araras à empresa Soto Empreendimentos e Participações Ltda, com sede em Mairiporã (PR) e com escritório em São Paulo.

Na última semana, o cursinho publicou uma carta aberta, assinada por várias entidades de Campinas, em que expõe a preocupação: “Essa venda foi realizada sem nenhum debate ou consulta pública e pode gerar a extinção desse equipamento, que cumpre a função social de garantia de acesso das classes populares à rede pública de ensino técnico e superior”, diz um trecho da carta. “Diante da iminência de extinção do cursinho com a venda do terreno, conclamamos os movimentos sociais e políticos comprometidos com a luta popular pela educação, e com a juventude negra periférica, a debater e somar-se à resistência, porque haverá luta”, diz outro trecho.

Ex-aluno e atualmente coordenador administrativo do cursinho Agnaldo Faustino dos Santos, diz que apesar de o cursinho não ter recebido nenhuma notificação, está preocupado com a situação. “Eles venderam sem falar com a gente. Não foi dada nenhuma notificação para a gente sair do terreno ainda, mas isso pode acontecer a qualquer momento”, diz. Ele ressalta a função social do cursinho, que atende três turmas de aproximadamente 30 alunos. Os estudantes pagam uma contribuição de R$ 100. Nem todos conseguem arcar com esse valor e entram com pedido de bolsa.

“O risco de sair de lá significa uma perda enorme. A gente não simplesmente pega aluno carente e põe numa universidade. A gente dá uma consciência política e uma noção de mundo que a escola pública não dá. É o que a gente chama de conhecimento crítico”.

Rayssa Heitmann, 18 anos, é bolsista do cursinho e estuda com o foco de ser aprovada em biologia. É um espaço usado por toda a comunidade e que coloca pessoas carentes na universidade pública e supre as deficiências da escola pública. A gente não tem como fazer isso em outro lugar porque outros cursinhos são muito caros”, comentou. Gabriel Silva Santos, de 19 anos, batalha por uma vaga em biomedicina ou na área de biologia. “É um cursinho popular, autosustentável. Cobra um valor simbólico e ajuda muito. Ouvir que ele pode fechar, para mim significa tirar a oportunidade de muitas pessoas ingressarem no ensino superior. É uma perda imensa para a cidade”.

Segundo Érica, professores e alunos trabalham com a incerteza. “A empresa não ajuizou reintegração de posse, mas isso pode acontecer”, diz. A advogada estuda questionar a legalidade da transação. “Se foi feita doação lá atrás com a condição da Prefeitura de uso social, isso não está sendo respeitado. É também uma área que saiu do município e está sendo usada para interesses particulares”, afirmou. Na próxima sexta-feira, o cursinho vai realizar uma reunião para discutir a situação. Além de movimentos que apoiam o cursinho, a Cooperativa de Araras e a empresa que comprou o terreno foram convidadas, segundo a advogada. A cooperativa foi procurada pela reportagem em diversos números de telefones, mas não foi localizada. Já a empresa que adquiriu o terreno não atendeu às ligações.

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Inaê Miranda