Publicado 10 de Novembro de 2015 - 17h34

Há pouco tempo, li uma frase do autor Eckhart Tolle que me tocou profundamente. Posso, com minhas próprias palavras, traduzi-la assim: Toda vez que nós definimos alguém, limitamos nosso contato com esta pessoa, pois negamos a sua essência e perdemos de vista a sua totalidade.

Ao me deparar com este pensamento, recordei todas as definições, estigmas, rótulos, diagnósticos e prognósticos que infelizmente recaem sobre as pessoas com deficiência.

Retomando esta lembrança, a primeira definição que me vem em mente é aquela que sempre me chama atenção, por ser a mais paradoxal e a menos evoluída. Jovens com deficiência são frequentemente definidos como os alunos da inclusão. Aliás, muitos professores costumam até enumerar quantos alunos da inclusão eles possuem em suas salas-de-aula a cada ano!

No seu verdadeiro sentido, a inclusão tem como pressuposto básico a eliminação de qualquer discriminação ou estigma capaz de segregar alguém. A inclusão implica educação para todos, sem distinções nem exceções. Mas a falta de uma concepção consistente sobre ela e a falta de uma compreensão aprofundada sobre a educação inclusiva fizeram com que a própria palavra inclusão fosse utilizada de um modo distorcido. Claramente, estes alunos, por serem pré-definidos como alunos da inclusão, estão a priori separados, discriminados, considerados à parte.

Imagino a maneira como esta expressão tenha se espalhado rapidamente em meio aos professores. Um belo dia, algum professor, pioneiro no uso do termo, comentou com seu colega que em sua classe havia cinco alunos da inclusão. O outro, analisando sua turma e embarcando na ideia, respondeu que ele também tinha este tipo de aluno em sua sala. Dali para diante, a expressão foi passando de boca em boca até se tornar consolidada e inquestionável.

A segunda definição que me ocorre é ligada à primeira. Trata-se da menção diferentes. Diz-se com frequência que é preciso respeitar os diferentes, dar atenção aos diferentes e até mesmo conviver com os diferentes. Ao se dizer isto, tem-se clareza de quais pessoas pertencem a este grupo, ou seja, sabe-se quais pessoas são postas à margem em virtude desta definição. Ora, os diferentes são afinal diferentes de quem? Quem seriam os iguais?

A terceira definição é relativa ao que e ao quanto uma pessoa pode aprender, definição que acontece por meio do estabelecimento de limites impostos. A partir dela surgem os conteúdos adaptados, as profissões adaptadas, as soluções adaptadas e quaisquer adaptações que visam mais limitar do que promover.

A terceira definição recordada por mim é manifesta por uma pluralidade de adjetivos que usualmente são dirigidos a pessoas com deficiência. Elas são genericamente tidas como pessoas “especiais”, “independentes”, “bem-humoradas”, “guerreiras”, “inabaláveis”.

Voltando ao pensamento que motivou esta reflexão, observamos que todas as definições acabam restringindo nosso relacionamento com o outro, porque nos põe em contato apenas com uma parte dele. Que possamos então superar a atribuição destes adjetivos, no intuito de vermos o outro como uma presença consciente e ativa diante de nós, com quem podemos interagir e aprender para além de nossos pressupostos e de nossos julgamentos.