Publicado 15 de Novembro de 2015 - 8h10

Por Rogério Verzignasse

09/11/2015 - METRÓPOLE - Baú de Histórias, antigo posto Raffi abandonado. 

Foto: Diogo Zacarias/Especial para AAN

Diogo Zacarias

09/11/2015 - METRÓPOLE - Baú de Histórias, antigo posto Raffi abandonado. Foto: Diogo Zacarias/Especial para AAN

A foto aérea, do finalzinho dos anos 50, mostra o Posto Raffi na beira da Rodovia Anhanguera, que na época tinha pista simples no trecho entre Campinas e Limeira. No entorno do prédio só havia pasto. Hoje em dia, quem passa pelo Km 113 da estrada fica desapontado ao ver as ruínas de um posto de combustíveis gigantesco. Ninguém imagina que, no passado, o Raffi foi um estabelecimento pioneiro. Além de abastecer veículos, oferecia serviços ao viajante. No mesmo terreno, havia restaurante, lanchonete, oficina mecânica, loja de acessórios e dormitórios para hospedagem.

O estabelecimento inaugurava nas rodovias brasileiras o conceito norte-americano dos motéis de beira de estrada. É, motéis, para os gringos, são hotéis para caminhoneiros. Tanto é que, na fachada, o nome original do posto era Motel Raffi. Ah, é claro que deu confusão. Já brotavam por todo o Brasil opções de hospedagem de curta permanência, onde os casais iam se divertir. Por conta disso, a gerência do Raffi tinha de expulsar do pedaço os namoradinhos que chegavam entusiasmados.

Foto: Diogo Zacarias

José Raffi Sobrinho mostra projeto do posto para o governador Ademar de Barros

José Raffi Sobrinho mostra projeto do posto para o governador Ademar de Barros

Mas a natureza é sábia. Durante uma tempestade de verão daquelas, o letreiro despencou lá de cima. E a direção não perdeu a chance de mudar a fachada. O motel virou Posto Raffi e ponto final. Quem conta a história divertida é Hayrton Raffi, um senhor de 77 anos que esteve à frente do negócio por três décadas e hoje aproveita a aposentadoria ao lado da patroa, Maria Luíza, em uma casa pelas bandas do Parque Ecológico, em Campinas. As paredes são forradas por dezenas e dezenas de quadros com fotos do casal, dos quatro filhos, dos nove netos. No cantinho do escritório, há pôsteres belíssimos do inesquecível Posto Raffi em diferentes fases.

Hayrton fala, todo orgulhoso, que o empreendimento foi um projeto ousado do pai dele, José Raffi Sobrinho, cidadão que até os anos 40 ganhava a vida comprando, vendendo e transportando algodão. Ele ficou sabendo que o governo paulista ia prolongar a velha estrada São Paulo-Campinas por fora da cidade. Ele comprou um terreno nas margens do futuro traçado e encarou um financiamento milionário para construir o primeiro posto de Aparecidinha, bem de frente com a igreja, lá em 1951. E gostou do novo ramo. Sonhou alto, vendeu o posto campineiro depois de cinco anos e comprou outro terreno, de 20 mil metros quadrados, desmembrado da antiga Fazenda Dall’Orto, em Sumaré. “Ele viu, na época, que o transporte rodoviário crescia sem parar e que o conceito norte-americano de hospedagem de caminhoneiros seria um grande negócio”, fala Ayrton.

Foto: Diogo Zacarias

Hayrton Raffi nos dias atuais: orgulho

Hayrton Raffi nos dias atuais: orgulho

Não deu outra. Em 1958, o “motel” foi inaugurado. E o paizão empreendedor deixou a administração para os quatro filhos: Luís Carlos, Hayrton, Nelson e Maria Terezinha. Bom, a moça não levava jeito para trabalhar em posto de caminhoneiro e cedeu sua cadeira no escritório para o maridão, Antônio Carlos Proença Kaysel. Então o trio Raffi, com a ajuda do cunhado, fez do posto um estabelecimento comercial moderno, de ponta, maior responsável pelo progresso do bairro que se transformaria no distrito de Nova Veneza. Nos anos 60 e 70, a população sumareense explodiu. Nova Veneza virou quase uma cidade à parte e o Posto Raffi chegou a ter 130 funcionários. No restaurante, acomodavam-se políticos, cantores, empresários e, lógico, muitos caminhoneiros. No auge, nos anos 80, o Raffi vendia 950 mil litros de combustível por mês; mais da metade era diesel.

Só que toda história um dia acaba. Os diretores tiveram filhos, a família cresceu, os interesses mudaram, as rusgas apareceram. Hayrton conta que o Posto Raffi foi vendido em 1993 a um grupo que já possuía uma rede de estabelecimentos do gênero por todo o Interior. O prédio original foi demolido, novas dependências foram construídas, o nome mudou. Mas a história do novo proprietário em Nova Veneza foi breve. A Anhanguera ganhou marginais, o acesso direto da rodovia deixou de existir, a clientela caiu e aquela estrutura imensa ficou cara demais. O posto fechou as portas e as paredes hoje vão ruindo.

Foto: Diogo Zacarias

Nos dia de hoje: abandono e ruínas

Nos dia de hoje: abandono e ruínas

Hayrton confessa que fica tocado quando passa por aquele trecho da Anhanguera, mas diz que não sente falta. “O negócio deu certo, garantiu vida digna para minha família. Mas eu levantava da cama com o sol e só voltava para casa à 1h. Trabalhava sem parar. Não tive o prazer de brincar com meus filhos, de vê-los crescendo. E eu carregava essa tristeza. Hoje, só sinto saudade dos meus funcionários. Me emociono de lembrar do meu pai idealista, mas aprendi que nada é mais importante do que estar com os filhos”, fala. n

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Rogério Verzignasse