Publicado 15 de Novembro de 2015 - 8h07

Por Daniela Nucci


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"Pessoas com blefaroespasmo relatam que há um agravamento dos sintomas em períodos de estresse, sobrecarga emocional e preocupações. De fato, na prática clínica, a associação entre fatores emocionais e os espasmos é bem nítida"

Piscar é algo tão natural quanto respirar. Mas, quando o simples ato de abrir e fechar os olhos ocorre de maneira excessiva, acende-se o sinal de alerta para o blefaroespasmo. A doença, em geral, começa de forma discreta e vai se intensificando até que a pessoa passa a piscar sem parar e deixa de enxergar. “Quando não tratado, o piscamento torna-se mais frequente e prolongado, podendo durar minutos e levando à cegueira. Nesse estágio, o paciente pode ser incapaz de dirigir, trabalhar, ler e andar. Essa piora da doença dura de seis meses a três anos. Depois, ela se estabiliza no patamar desagradável e raramente regride espontaneamente”, explica o oftalmologista Heryberto Alvim.

O blefaroespasmo atinge homens e mulheres a partir dos 50 anos e acredita-se que esteja associado a uma função anormal do gânglio basal, de causa ainda desconhecida. “O gânglio basal é uma estrutura do cérebro responsável pelo controle dos músculos. Essa é, portanto, uma doença orgânica, neurológica, e não psiquiátrica como se pensava no passado. Pode ser isolada, acometendo apenas as pálpebras, mas algumas vezes é parte de um quadro neurológico mais complexo conhecido como discinesias craniofaciais. É comum o relato de outros casos na família, mas a transmissão genética ainda não é muito clara”, informa Alvim.

O agravamento dos sintomas pode ser influenciado por fatores como estresse, sobrecarga emocional e preocupação. “De fato, na prática clínica, a associação entre fatores emocionais e os espasmos é bem nítida. É comum o paciente contemporizar o início dos sintomas com algum trauma como morte na família, doenças graves, assalto, demissão, enfim, aborrecimentos de naturezas diversas”, comenta. O diagnóstico é feito por meio de um minucioso exame oftalmológico.

A doença ainda não tem cura, mas é possível controlá-la temporariamente com aplicação de toxina botulínica em pontos específicos nas pálpebras. “Ela é a primeira escolha para o tratamento do blefaroespasmo e traz muita qualidade de vida aos pacientes. O índice de sucesso é altíssimo, igual ou superior a 90%. A toxina atua causando um relaxamento do grupo muscular tratado”, afirma o especialista, que cita ainda outros casos nos quais ela pode ser usada. “Hoje, a toxina botulínica é empregada em diversas situações, algumas até desconhecidas do público em geral, como suor excessivo, enxaqueca, bexiga hiperativa, estrabismo e sequela de paralisia cerebral com espasmo”, exemplifica Alvim, que conversou sobre o problema com a Metrópole.

Metrópole – O que é o blefaroespasmo?

Heryberto Alvim – É um piscar involuntário e anormal das pálpebras.

O que causa o problema?

Ele está associado a uma função anormal do gânglio basal, de causa ainda desconhecida. O gânglio basal é uma estrutura do cérebro responsável pelo controle dos músculos. Essa é, portanto, uma doença orgânica, neurológica, e não psiquiátrica como se pensava no passado. Pode ser isolada, acometendo apenas as pálpebras, mas algumas vezes é parte de um quadro neurológico mais complexo conhecido como discinesias craniofaciais. É comum o relato de outros casos na família, mas a transmissão genética ainda não é muito clara.

O que leva ao agravamento da doença?

Pessoas com blefaroespasmo relatam que há um agravamento dos sintomas em períodos de estresse, sobrecarga emocional e preocupações. De fato, na prática clínica, a associação entre fatores emocionais e os espasmos é bem nítida. É comum o paciente contemporizar o início dos sintomas com algum trauma como morte na família, doenças graves, assalto, demissão, enfim, aborrecimentos de naturezas diversas. Doenças que irritam os olhos, como conjuntivite, cílios virados para dentro e olho seco, também podem agravar os sintomas.

Como diagnosticar o blefaroespasmo?

Não há um exame de sangue ou de radiologia para encontrar a doença. O diagnóstico é essencialmente clínico, feito em consultório. A história do paciente, seus sintomas e o quadro involuntário de espasmo são suficientes para identificar a doença. O problema pode começar com um piscar mais frequente, uma irritação ocular persistente que leva a pessoa a fechar os olhos. O relato de sensibilidade a luz aumentada é comum, também levando o paciente ao hábito de se defender da claridade apertando os olhos. O interessante é que o espasmo cessa durante o sono.

Como é a ocorrência da doença?

Ela é mais comum após os 50 anos, sendo três vezes mais frequente em mulheres do que nos homens. Estima-se que exista um caso a cada 10 mil habitantes, número que vem crescendo nos últimos tempos em razão do estresse.

Quais são as consequências?

É uma doença perturbadora, que progride com o tempo. O espasmo que, inicialmente, se concentrava nas pálpebras pode espalhar para todo o rosto e pescoço. Quando não tratado, o piscamento torna-se mais frequente e prolongado, podendo durar minutos e levando à cegueira. Nesse estágio, o paciente pode ser incapaz de dirigir, trabalhar, ler e andar. Essa piora da doença dura de seis meses a três anos. Depois, ela se estabiliza no patamar desagradável e raramente regride espontaneamente.

Quais os tratamentos disponíveis?

Ainda não há cura para o blefaroespasmo. O tratamento com comprimidos inclui uma lista enorme de medicamentos, ineficazes e com efeitos colaterais pouco tolerados na grande maioria dos casos. Na busca desesperada por aliviar o sofrimento, os pacientes buscam tratamentos alternativos como psicoterapia, hipnose, relaxamento e acupuntura. Há cirurgia para o espasmo, mas, para ser eficaz, ela deve ser extensa e agressiva, podendo trazer sérias consequências. Hoje, o único tratamento realmente eficaz para a doença é a aplicação de toxina botulínica.

E como a toxina botulínica atua?

Ela é a primeira escolha para o tratamento do blefaroespasmo e traz muita qualidade de vida aos pacientes. O índice de sucesso é altíssimo, igual ou superior a 90%. A toxina atua causando um relaxamento do grupo muscular tratado. Seu efeito começa cerca de três a cinco dias após a aplicação e pode durar até seis meses. Porém, há casos mais graves em que o efeito da droga é mais curto e há a necessidade de reduzir o intervalo entre as aplicações. O tratamento é muito bem tolerado, com poucos efeitos colaterais. É feito em consultório, dura poucos minutos e utiliza-se pomada anestésica para uma injeção mais confortável. O paciente retoma suas atividades logo em seguida. Deve apenas evitar esfregar os pontos tratados e abaixar a cabeça por cerca de quatro horas. A toxina botulínica é empregada em diversas situações, algumas até desconhecidas do público em geral, como suor excessivo, enxaqueca, bexiga hiperativa, estrabismo e sequela de paralisia cerebral com espasmo. Não deve ser utilizada em menores de dois anos de idade, gestantes e lactantes.

Escrito por:

Daniela Nucci