Publicado 15 de Novembro de 2015 - 8h00

Por Sammya Araújo

giz

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Foto: Diogo Zacarias/Especial para a Metrópole

Camila Galdi, designer, e Cadu Fernandes, publicitário

Camila Galdi, designer, e Cadu Fernandes, publicitário

Não mais só de sala de aula vivem o giz e a lousa. Gente muito habilidosa tem usado o que era apenas um meio de ensinar (a alunos nem sempre atentos) para fazer arte, a chamada chalkboard art, em inglês. Efêmera, e por isso mesmo também muito bela, a técnica se espalhou pelas paredes de restaurantes e outros estabelecimentos comerciais pelas mãos de designers, publicitários e artistas plásticos que profissionalizaram a coisa. Do lettering (tipografia) a desenhos superelaborados, as possibilidades do suporte são infinitas.

Cadu Fernandes, publicitário, e Camila Galdi, designer gráfica e estudante de artes visuais, de Campinas, começaram a usar o giz para fazer um “exercício de criatividade” fundamental às suas profissões. O casal pintou de preto uma parede da sala do apartamento e ali passou a rabiscar sem compromisso. Até que há três anos ele exibiu um dos desenhos para o proprietário de um café da cidade, que prontamente abraçou a ideia e o contratou. Desde então, Fernandes, diretor de artes de uma agência de propaganda, já fez diversos trabalhos, inclusive um comercial para a Mercedes-Benz, rótulos de produtos e peças publicitárias.

“Os trabalhos em tipografia já estão bem difundidos e agora o interesse pelas ilustrações também está aumentando”, observa Fernandes, que é mestre no traço figurativo e abstrato. “O giz é muito versátil, abre várias portas”, emenda Camila. Para garantir maior gama de tons e cores mais nítidas, eles usam pastel seco no lugar do giz escolar. O material, tão antigo que foi relatado por Leonardo Da Vinci, também tem mais durabilidade. “É possível prolongar mais ou tornar permanente uma pintura dessas com verniz à base de água”, ensina Fernandes.

Foto: Diogo Zacarias/Especial para a Metrópole

Cadu Fernandes dando os últimos retoques à criação feita especialmente para a capa desta edição da Metrópole

Cadu Fernandes dando os últimos retoques à criação feita especialmente para a capa desta edição da Metrópole

A “vida útil” das obras é uma das primeiras questões levantadas por clientes do ateliê Fiz com Giz, da designer Marina Rosso e da designer e publicitária Juliana Zarattini, de Campinas. “Para isso, indicamos o spray fixador e a escolha de um local alto e fora de áreas de passagem”, afirma Marina. A dupla, que abriu a empresa há dois anos, tem como especialidade a escrita. E não é só chegar lá e fazer uma caligrafia bonitinha pra dar o recado.

Foto: Diogo Zacarias/Especial para a Metrópole

Juliana Zaratini e Marina Rosso, do ateliê  Fiz com Giz: “Não basta ter caligrafia bonitinha.”

Juliana Zaratini e Marina Rosso, do ateliê Fiz com Giz: “Não basta ter caligrafia bonitinha.”

“No primeiro atendimento, buscamos entender o que o cliente deseja e na maioria das vezes pesquisamos ou desenvolvemos as frases pra ele. Depois, fazemos o projeto, digitalmente ou à mão, enviamos para aprovação e só então vamos para a execução”, comenta Marina. Uma parede de dois metros quadrados, por exemplo, leva em média quatro horas para ficar pronta.

De cardápios completos para dar um charme à escolha dos comensais a frases motivacionais caprichosamente escritas nas salas de estar de moradores descolados, as designers estão ampliando a gama do lettering. “O uso na decoração residencial está crescendo. Nos últimos meses, fechamos três projetos desses”, conta a sócia do Fiz com Giz.

Eterna enquanto dure

Dá pena de apagar e ver sumir, mas, apesar de ser possível eternizá-la, a efemeridade é uma qualidade da arte com giz, na opinião de quem faz e de quem contrata. “É uma arte bonita porque não é egoísta. Hoje está num lugar, amanhã não. Tem o momento dela. Exige um desprendimento do artista e sua constante renovação”, opina Cadu Fernandes. “A gente do Fiz com Giz acha que isso é muito interessante, essa possibilidade de mudar o ambiente continuamente”, emenda Marina Rosso.

“Trocamos a imagem a cada seis meses, o que cativa bastante a todos, clientes e colaboradores. O arquiteto Otto Felix, que fez o projeto de arquitetura e interiores, identificou que seria um elemento importante dentro do conceito da empresa. Não utilizamos para venda de produtos, é um espaço voltado para a arte em giz mesmo”, comenta Mateus Matana, chef executivo e proprietário da Maria Antonieta Bistrô-Boulangerie-Pâtisserie, em Campinas.

Foto: Diogo Zacarias/Especial para a Metrópole

Detalhe da decoração do Maria Antonieta Bistrô-Boulangerie-Pâtisserie, feita por Gabriel Alves

Detalhe da decoração do Maria Antonieta Bistrô-Boulangerie-Pâtisserie, feita por Gabriel Alves

O que está nas paredes por lá agora leva a assinatura de Gabriel Alves, do estúdio Free Hands, de São Paulo. Ele diz que começou a trabalhar com letreiros aos 13 anos de idade, numa época em que tudo era realmente feito à mão. “Eu crio sem computador. Faço um layout a lápis antes para ser aprovado”, informa.

O giz também já está há tempos no seu cotidiano, mas como instrumental para esboços. Justamente pelo desejo de permanência, é comum o pedido para que ele cubra com tinta o traçado. “Começou a surgir a procura por essa arte com giz como resultado final, mas os clientes no geral preferem que, depois de riscado, eu pinte por cima, a não ser quando se trata de algo promocional, de duração limitada”, conta.

Parece mágica mas é giz

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O artista inglês Julian Beever transforma calçadas em verdadeiros portais tridimensionais usando giz colorido. Ele desenha obras inacreditáveis empregando uma técnica conhecida como anamorfose, que nas artes visuais produz uma ilusão de ótica sob determinados ângulos e confere perspectiva realista às imagens.

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Animais, cenas de construção, prédios, abismos vertiginosos, fontes, poças d’água: não há limite para a inventividade desse artista de rua, que leva cerca de três dias para terminar cada obra. Muitas vezes é possível ficar “dentro” da imagem e ter a impressão de interagir com ela.

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Beever já fez trabalhos (passageiros, mas marcantes) em vários países europeus, nos Estados Unidos e no Brasil, em 2007. Naquele ano, ele realizou intervenções em parques públicos de Porto Alegre e Curitiba e promoveu workshops para artistas brasileiros. No site dele há várias galerias de fotos. Vale conferir: http://www.julianbeever.net.

 

 

Nossas fontes:

Cadu Fernandes

www.behance.net/cadufernandes

Free Hands Aerografia (Gabriel Alves)

https://www.facebook.com/Free-Hands-Aerografia-471521266202290/

Fiz com Giz (Marina Rosso)

https://www.facebook.com/fizcomgiz/

Escrito por:

Sammya Araújo