Publicado 09 de Novembro de 2015 - 18h22

Por Thaís Jorge


Arquivo Pessoal

"Enquanto a produção de um quilo de vegetais emite, em média, de um a dois quilos de CO2 no ambiente, um quilo de carne bovina no Brasil provoca a emissão de 355 quilos do gás."

"Enquanto a produção de um quilo de vegetais emite, em média, de um a dois quilos de CO2 no ambiente, um quilo de carne bovina no Brasil provoca a emissão de 355 quilos do gás."

A busca por um estilo de vida saudável vem direcionando mudanças de hábitos em diversas esferas da sociedade e se estende, inclusive, aos pratos. Mais do que pensar em saúde, é preciso refletir sobre sustentabilidade e consciência ambiental, e é justamente com foco nesse pacote que muitas pessoas vêm adotando o veganismo não só como dieta, mas como filosofia de vida.

De acordo com a nutricionista Ana Ceregatti, a questão ética é o motivo mais comum para a transição à dieta vegana, aquela na qual não se consome qualquer tipo de produto de origem animal, incluindo mel, ovos e própolis. “O motivo vai além da preocupação com alimentação. Os benefícios para a saúde já são conhecidos, mas há também impactos muito positivos no meio ambiente e na sociedade”, pontua a profissional.

Para ela, o terrorismo popularmente praticado quando se fala em restrição ao consumo de carne precisa ser superado com urgência. “As pessoas acreditam realmente que os nutrientes da carne são insubstituíveis e isso é um mito. Todos os aminoácidos presentes nesse tipo de alimento podem ser encontrados facilmente no reino vegetal. A grande questão é que não há interesse em incentivar o vegetarianismo ou o veganismo em um País que tem na pecuária uma de suas maiores fontes de renda”, frisa.

Entre os dados apresentados pela nutricionista, alguns espantam. Para se ter uma ideia, segundo ela a porcentagem de casos de câncer de intestino cai 80% em veganos com relação aos onívoros (pessoa que não tem restrição alimentar, ou seja, come tanto matéria vegetal como animal). “Esses números são chocantes e acabam se tornando uma questão de saúde pública”, diz Ana, que bateu um papo com a Metrópole sobre o assunto.

Metrópole – Para situarmos logo no início da conversa, quais os principais pontos nos quais o veganismo difere do vegetarianismo?

Ana Ceregatti – Se falarmos apenas sobre dieta, o vegano é um vegetariano mais estrito e que vai para uma filosofia de vida diferente também. É aquela pessoa que não vai comer qualquer alimento de origem animal, incluindo mel, geleia real, própolis, tudo que derive de animal. Além disso, ela não vai usar roupas com couro e lã, nem produtos de higiene e beleza que contenham derivados animais. Quando falamos de veganismo estamos falando de estilo de vida. Vegetarianismo é apenas uma alimentação sem carne.

O que ainda precisa ser esclarecido quanto ao veganismo, na sua opinião? Quais crenças populares ainda necessitam ser desfeitas?

Primeiro, existe uma crença de que as carnes têm proteínas que o reino vegetal não tem e isso é um mito. Todos os aminoácidos são facilmente encontrados no reino vegetal. O que equilibra a ingestão deles em uma dieta vegetariana ou vegana é o grupo das leguminosas. Então, no prato de um vegano não há a opção de não ter um tipo de feijão ou uma lentilha, por exemplo. Com relação a uma possível falta de cálcio por conta da não ingestão de leite também há um mito, porque, na verdade, quando você tem proteína animal em excesso é que você vai perder cálcio. Além disso, se eu tiro o leite da dieta, posso comer couve, rúcula, agrião, linhaça, feijão branco, leite vegetal com cálcio, gergelim. Nunca vão faltar nutrientes. É preciso superar essas crenças sem fundamento, já que o vegetarianismo é declarado por organismos internacionais como seguro em todas as fases da vida.

Como deve ser feita a transição para o veganismo? Qual é a importância do acompanhamento de um nutricionista nesse processo?

Na verdade, a maioria das pessoas precisaria do acompanhamento de um nutricionista. Principalmente, os onívoros, que comem arroz, feijão, verdura e carne habitualmente. Cometemos graves erros na dieta, como não ingerir legumes, por exemplo, e consumir mais carne do que o recomendado. O Ministério da Saúde limita o consumo de carne a 100 gramas por dia. Quem come isso? As pessoas comem duas, três vezes essa quantidade por refeição. A gente ultrapassa essa recomendação e não atinge a de frutas, legumes e verduras, além de ingerirmos muitas coisas industrializadas. O brasileiro, no geral, tem que procurar ajuda nutricional, não apenas aquele que deseja se tornar vegano.

Falando especificamente dos benefícios da dieta vegana para a saúde, quais merecem maior destaque?

Acredito que temos alguns dados que exemplificam isso de maneira muito interessante. Um vegetariano, por exemplo, tem um terço a menos de risco de morrer por doenças do coração do que um onívoro, além de estar menos propenso a desenvolver diabetes tipo 2 e obesidade. O dado mais alarmante, no entanto, talvez seja o do câncer de intestino grosso, cuja incidência é 80% menor em veganos. Esse número é gritante e se transforma em uma questão de saúde pública. Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou aquela pesquisa sobre as carnes processadas, dizendo que são causa de morte. Levando isso em conta, espero que futuramente a política pública restrinja esses produtos. O problema é que temos um lobby muito forte da pecuária, o que torna as coisas um pouco mais difíceis.

Quais outras questões estão envolvidas na escolha pelo veganismo, além da busca por uma alimentação saudável?

A grande razão passa por questões éticas. Além disso, o processo de criação do animal e do próprio abate gera um desperdício enorme. Para produzir um quilo de carne, gasta-se uma quantidade absurda de água, maior do que em outras culturas – e aí há que se levar em conta que o Brasil tem o maior rebanho comercial do mundo. A pecuária também contribui em 14,5% para a emissão de gás carbônico no ambiente e o consequente aumento do efeito estufa. Para se ter ideia, enquanto a produção de um quilo de vegetais emite, em média, de um a dois quilos de CO2, um quilo de carne bovina no Brasil provoca a emissão de 335 quilos do gás. Então, não adianta fazer rodízio e pensar em outras soluções mirabolantes se você não reduz seu consumo de carne. Há uma preocupação ambiental aí também.

A senhora acredita que haja desvantagem na opção pelo veganismo?

Sim, e é uma coisa bastante simples, que é a questão social. Eu, como vegana, não consigo comer fora de casa com facilidade e isso é ruim. Mas me adapto e sempre tenho comida na minha bolsa, em todos os lugares para onde vou.

Muito se fala sobre o veganismo como uma alimentação do futuro. A senhora concorda?

Sim. Acredito que temos barreiras mas que vemos pessoas cada vez mais novas se interessando por essa questão. Crianças e adolescentes pedem para os pais os levarem à clínica porque não querem mais comer animais. E são eles a próxima geração. Acredito que caminhamos a passos lentos, mas evoluindo. O veganismo não vai resolver o problema da fome no mundo, mas conseguiria garantir a alimentação de muita gente se unido a políticas públicas eficientes. n

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Thaís Jorge