Publicado 15 de Novembro de 2015 - 5h30

É um paradoxo: de um lado, a Região Metropolitana de Campinas, um dos polos do turismo de negócios que, de acordo com levantamento do Campinas Convention & Visitors Bureau (CRCVB), recebeu aproximadamente 8,5 mil eventos em 2014, 80% deles em Campinas.

A cidade conta ainda com o Aeroporto de Viracopos, que, apesar da crise econômica enfrentada pelo Brasil, registrou de janeiro a agosto deste ano, um crescimento de 8,05% em relação a 2014, com a expectativa de fechar 2015 com 10 milhões de passageiros transportados. Para atender a uma crescente demanda por eventos corporativos, Campinas ganhará, no início de 2018 o Royal Palm Hall, o maior centro de convenções do País.

Mas, do outro lado, Campinas patina na capacitação e qualificação de profissionais de turismo. Atualmente, a cidade conta com dois cursos de Turismo, ofertados pela Pontifica Universidade de Campinas (PUC-Campinas) e pela Unip. Na região, o curso faz parte da grade da Faculdade Jaguariúna (FAJ). Somando os estudantes que atualmente cursam Turismo, o número não atinge os 250.

E a vontade de atuar no mercado, cada dia mais promissor, ainda por cima parece desinteressante para a maioria dos próprios alunos do curso. Um termômetro desta apatia foi a pequena adesão ao Painel de Turismo, promovido na última terça-feira pelo Campinas e Região Convention & Visitors Bureau, que reuniu o meio acadêmico e empresas de Turismo (agências de viagens, hotéis, transportadoras, empresas de eventos, alimentos e bebidas e recreação) que buscam, na região, profissionais qualificados para atuar em seus respectivos mercados e também estudantes, para uma aproximação e possível interação conjunta. Na plateia, menos de 50 alunos atenderam ao evento - e no momento em que as perguntas foram abertas aos alunos para tirarem suas dúvidas, nenhum se manifestou.

“Campinas tem um alto padrão de hospedagem, mas não tem profissionais capacitados que atendam o que a hotelaria busca. O mercado tem um trabalho dobrado ao assumir o papel de capacitar pessoas”, disse Douglas Marcondes, diretor de hotelaria do CRCVB e gerente geral do Vitória Hotel Residence New Port.

José Antonio Maranho, presidente do Conselho Deliberativo do CRCVB e diretor da JPN Eventos, foi mais incisivo. “É ridículo o nível do profissional de turismo que tenta ingressar no mercado. A universidade deveria ser como Medicina, oferecendo conceitos básicos nos dois primeiros anos e depois deixar que o aluno siga a sua especialidade”, disse.

Carlos Américo, diretor de gastronomia do CRCVB e proprietário do Joe & Leo’s, aproveitou para cobrar o engajamento dos alunos com o mercado. “Vejo apenas cinquenta pessoas aqui. Onde estão os alunos? Falta interesse”, lamentou.

Para Fábio Pozati, coordenador da Faculdade de Turismo da UNIP Campinas, o número cada vez menor de profissionais de turismo formados pelas universidades fará com que o mercado passe a buscar mão-de-obra em outros setores. “Mas que mão-de-obra será essa?”, questiona

Defesa acadêmica

Se para o setor o abismo entre a universidade e o mercado, além da apatia dos estudantes, ameaçam o futuro da mão-de-obra turística na região, os professores do curso afirmam que estimulam principalmente o empreendedorismo e o uso de novas tecnologias como forma de aproximar o estudante da realidade profissional que irão encontrar.

“O estudante precisa ver as novas tecnologias como oportunidade de emprego. As novas formas de trabalhar o turismo fecham algumas portas, mas abrem outras. Digo aos meus alunos que, se não há mais muitas agências convencionais para trabalhar, que procurem vagas em agências virtuais. A internet disponibiliza muita informação a quem quer viajar. Por isso, o novo tem que investir em serviços e produtos, se destacar do que já existe no mercado”, explica Pozati.

Para Francis Pedroso, diretora da Faculdade de Turismo da PUC Campinas, além da sala de aula, o aluno precisa empreender antes mesmo de chegar ao mercado do trabalho. “Criar blogs de viagens, trabalhar em eventos ou se diferenciar do que já existe, trabalhando com a individualidade de cada passageiro e oferecerendo além do básico. Desta forma o aluno vai chegar mais capacitado ao mercado de trabalho” , defende.

Representantes do mercado defendem ‘observatório’

Além de almejar uma melhor qualificação profissional, os representantes do mercado de turismo da região defenderam a criação de um “observatório de turismo” que seja responsável por nortear o setor.

“A evolução do turismo é muito rápida e a percepção dessa evolução ás vezes é difícil para o mercado. Por isso, é necessário a criação de um observatório, que, através de dados concretos, possam apontar a melhor direção”, defende Marcondes.

Para Fernando Vernier, Coordenador Executivo do CRCVB, há também uma carência na região de profissionais que trabalhem com pesquisa, que conheça bem a área na qual atua. “Não temos uma retaguarda baseada em pesquisas”, aponta. Outra falha, de acordo com o executivo, é a falta de profissionais que saibam vender um destino. “Conhecer bem um lugar é importante para que o turismo cresça e o destino cresçam” , explica. (EG/AAN)