Publicado 12 de Novembro de 2015 - 19h05

Não posso nem devo mentir. Vai daí, confesso e admito: acordei, pela manhã, acho que com o diabo no corpo. Tudo, ao abrir da janela, estava encantador como outros dos meus amanheceres: primaveras explodindo de cores e belezas sobre o telhado; a passarinhada cantando e voando, brincando de esconde-esconde; borboletas preguiçosas, num balé harmonioso; os saguis, aguardando-me para comer bananinhas do desdejum. Enfim, a natureza em sua permanente sinfonia.

De repente, porém, o diabo apareceu, atrapalhando a epifania. Podem ser impressões ou delírios meus, mas juro que ter ouvido um sussurro demoníaco: “Parece lindo, não é? Mas olhe lá fora, leia os jornais, veja os noticiosos de televisão, caminhe com e entre as multidões de alucinados. O inferno, meu caro, é a realidade. Seus céus, seu paraíso particular não passam de ilusões.”

Despertei, pois, acho que com o diabo no corpo. E frases, pensamentos, ditos populares brotavam em cascata, vindos em auxílio do demônio. O primeiro que ouvi: “Nem tudo o que reluz é ouro.” Desviei os olhos das árvores e flores beatíficas. E mais sussurros de maus-agouros: “a felicidade não existe, a não ser por instantes”; “tudo o que é bom acaba logo”; “degregados, filhos de Eva”; “a Vós, suplicamos, gemendo e chorando, neste Vale de Lágrimas”. Fechei as janelas, como quem fecha as cortinas após um espetáculo apenas teatral medíocre.

Teimoso, não desisti. E mandei o diabo para os diabos, para o inferno onde deveria ter ficado. No entanto, a manhã serena, luminosa, tornou-se um concerto de instrumentos discordantes. Ou um quadro de beatitudes de Monet com diabruras de Picasso. Veio-me a tentação de sair de meu mosteiro e retornar ao mundo, com espada na mão, querendo novamente lutar, promover mudanças. Um diabinho francês, no entanto, falou-me baixinho: “Plus ça change, plus c’est la même chose” — quanto mais muda, mais é a mesma coisa.

Quis discordar, mas eis que — vindo sei lá de onde — outro diabinho, acho que italiano, convidou-me a lembrar-me de O Leopardo, de Lampeduza: “Algo deve mudar para ficar tudo como está.” Com tantas tentações, tive vontade de render-me. E quase o fiz, não fosse a comovedora ternura de um anjinho encantador, virginal, de inocência plena. E o lindinho sugeriu: “Ouça Jeremias: ‘Pode o etíope mudar sua pele e o leopardo mudar suas manchas?’”

Tentei acalmar-me, sabendo que diabinhos e o anjinho nada me haviam falado de novo. Ora, sei haver coisas que mudam, outras que não mudam. Mas a sensação foi a de que a longa vida que ainda estou vivendo me ensinou muito menos do que pensei houvera, eu, aprendido. Pois, como irônica provocação, ouvi: “Senhor, dai-me forças para mudar o que pode ser mudado. Resignação para aceitar o que não pode ser mudado. E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.” São Francisco?

Os diabinhos provocaram-me mas perderam tempo. Ora, após tantas e tantas indignações, ao longo da vida, aprendi, felizmente, a conhecer a resignação. Há coisas que poderiam mudar mas não mudam. Outras há, imutáveis. Para quase todas, quanto mais mudam mais iguais ficam. Acreditar no “laissez faire, laissez passer”, deixar fazer, deixar passar? Até poderia ser, mas, então, tornar-me-ia escravo do liberalismo econômico que, dizendo-se novo, é tão cruel quanto o seu início.

Na verdade, há coisas que são como são e outras que não precisam ser como têm sido. Vejam, como exemplo simplório, aquelas plaquinhas nos jardins: “Não pise na grama”. Desde a minha primeira infância, vejo-as nos jardins. E, 70 anos depois, continuo vendo-as. Ou seja: o povo quer pisar na grama e não há como tentar civilizá-lo. E aquele inacreditável “É proibido jogar lixo”? Ora, se, ainda, é preciso avisar e proibir jogar-se lixo no chão há que se concluir: somos um povo que gosta de lixo. E, portanto, muito distante de princípios civilizatórios básicos. E no trânsito? Além de placas indicando o limite de velocidade, há, também, que se colocar radar, construir lombadas, destacar guardas para fiscalizar infratores. Que, aliás, dirigem com altíssimo volume de som e jogam lixinhos pela janela. Nós, civilizados?

Devo parar por aqui, antes que os diabinhos retornem. Continuarei com minha filosofia simplória: deixar estar para ver como fica. Não é essa baderna que povo quer? Então, que vá reclamar para o bispo. Se povo escolhe bandidos, não tem o direito de se queixar de bandidagens. A minha convicção pessoal é a de o Brasil ser como o etíope e o leopardo de Jeremias: é o que é, e não pode mudar.

No entanto, eu posso continuar mudando-me a mim mesmo. Que diabinhos – reais, imaginários, humanos — vão todos às favas. Não tenho mais tempo: estou construindo meu jardim. O da casa e o de dentro de mim.