Publicado 15 de Novembro de 2015 - 5h30

Já faz pelo menos dois anos que muitos moradores de um condomínio na Rua Jasmim, no bairro Chácara Primavera, em Campinas, economizam com a compra de hortaliças, ervas finas e algumas frutas. É que a iniciativa de um simpático casal criou raízes, e todos podem colher os resultados. Mesmo aqueles que no começo acreditavam que a ideia era um tremendo de um “abacaxi” hoje também descem de seus apartamentos com a sacolinha na mão para fazer a feira.

Dizem entre os moradores que os aposentados Armindo Bulla, de 77 anos, e sua esposa, Alice Ceolla Bulla, de 73, são os responsáveis por levar interação social aos condôminos, alimento saudável às mesas e educação ambiental aos mais jovens, que constantemente recebem aulas de agricultura sustentável. Aqueles que criticaram no começo, hoje são vistos com complacência pelo casal, pois sabem que a esmagadora maioria aprova a iniciativa e, inclusive, acreditam que poderia ser compartilhada em muitos outros condomínios. O que importa para eles é ocupar-se de um hobby que não faz mal a ninguém, pelo contrário.

“Fomos silenciosos, plantando um palmo aqui, outro ali. E quando vimos estávamos com tudo isso”, disseram. Até mesmo ligações anônimas intimidatórias eles receberam. Hoje, no entanto, a horta tem mais de dez canteiros com inúmeras qualidades de folhas. Tem até um “berçário” de alface, que depois é transplantado para a ala principal das hortaliças. A grade da quadra de tênis, por exemplo, está inteiramente tomada pela parreira de maracujá. Pés de mamão já deram centenas de frutos, e até pêssegos — após um ano e meio plantado — já estão amadurecendo.

Metade da faixa de gramado que circula a pista de caminhada é comestível. A criançada vive por lá colhendo, com a supervisão do casal. “Começamos plantando uma pitangueira. Depois avançamos para dois ou três pés de alface. Aí não paramos mais”, lembra Alice. Há 15 anos morando no condomínio, a iniciativa surgiu justamente para ser uma distração do casal, e hoje se transformou em expediente fixo. “Passamos pelo menos metade de um dia aqui. Regamos diariamente, replantamos as mudas, fazemos a limpeza e a conservação dos canteiros”, mostrou Armindo.

Alface lisa, crespa e americana. Rúcula, almeirão, escarola, catalonia. Também tem pé de tomate, araçá, limão taiti. Um canteiro cheiroso abriga mais de 15 qualidades de ervas finas — moradores que usufruem da horta doaram parte das mudas ali plantadas. Tem manjericão, pimenta, hortelã, orégano, alecrim, manjerona. O casal garante que por semana são quase 400 pés de alface — o carro-chefe do condomínio.

No entanto, recentemente chegou a disciplina na horta. Junto da filha da vice-síndica, o casal elaborou diversas plaquinhas para colocar nos canteiros. “Ainda não estamos prontas para sermos colhidas”, ou “os maracujás deverão ser colhidos quando estiverem amarelos”. “Essas placas ajudaram muito a educar os moradores”, diz o casal. Ao todo, são 89 apartamentos, divididos em três torres. “Se não cuidar, vira bagunça”, foi categórico o aposentado.

Alguns moradores que fazem a colheita com mais frequência colaboram com sementes. O casal planta, aduba, rega e também fiscaliza para saber quem são aqueles que pegam seis pés de alface de uma vez só, por exemplo. “Pedimos para colher até quatro, mas tem gente que finge não escutar. Mas viver em condomínio é isso. O bom é que a maioria tem bom senso e sabe levar a quantidade certa”, diz Alice.

Armindo já plantou muito nessa vida. Desde a época de sitiante em Flores da Cunha, no Rio Grande do Sul, como professor de ginásio, “semeando” ensinamento em diversas disciplinas. Economista formado, atuou como processador de dados na rede bancária. O gaúcho cruzou na “horta” da catarinense Alice quando foi visitar o irmão em um hospital em que ela trabalhava como enfermeira, no Paraná. A semente do amor vingou e já são mais de 40 anos de união. Raiz profunda que germinou um filho e cultivou duas filhas adotivas. Os três se orgulham do movimento que os pais encamparam no condomínio.

“Temos projeto de expandir nossa horta, mas na hora certa falamos o que vai ser”, dizem. Um detalhe importante: tem abacaxi plantado por lá também — mas é aquele para descascar de verdade, não no sentido figurado.