Publicado 13 de Novembro de 2015 - 5h30

Toda forma de protesto deve ser tolerada e, mais do que isso, bem-vinda em um regime democrático, onde as opiniões podem ser expressas de forma a influenciar políticas e direcionar programas de governo, além da defesa de direitos fundamentais. As greves de trabalhadores, instituídas a partir da criação das representações de operários em meio à Revolução Industrial, tiveram papel fundamental para a consolidação dos direitos trabalhistas e para a eliminação das formas de opressão e exploração de mão de obra. A história se encarregou de dar uma nova roupagem ao movimento sindicalista em todo mundo, que se adaptou ao contexto econômico.

No Brasil, o movimento acabou se confundindo com a mobilização política nos anos de 1950, desaguando na crise que levou ao golpe militar. Depois, na escalada para o fim da ditadura, terminou por se imiscuir nas maiores mobilizações populares, revelando expoentes como o próprio Lula e sua liderança no ABC. Indiscutível o teor político do movimento sindical e também o seu distanciamento — ao longo dos anos — do verdadeiro propósito de defender causas trabalhistas e de representação de classes.

Agora, mais uma vez a greve surge com um protagonismo político equivocado, através da paralisação dos caminhoneiros pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Não se pode negar a influência da insatisfação popular em relação ao governo petista, mas o movimento paredista não incorpora reivindicações claras da categoria profissional. Ao estacionar apenas no propósito político, os motoristas derrapam em sua proposta, cometendo o equívoco de convocar — e, em alguns casos, impor – uma paralisação que prejudica a economia nacional, afeta o direito de outras pessoas trafegarem livremente para saldar seus compromissos, incorrendo em crime e dando pretexto para uma ação retaliadora do governo. Há outra formas de manifestar contrariedade e hipotecar apoio ao descontentamento patente da sociedade brasileira, sem ultrapassar o limite da legalidade.

Na contramão, o governo baixou Medida Provisória estabelecendo um novo padrão de multa para quem interferir no fluxo de veículos nas estradas, como forma de intimidação e contenção do movimento. Pecou por escancarar a forma sectária de enfrentar o problema, uma vez que se mostrou altamente tolerante com greves, paralisações, invasões de prédios públicos e destruição de patrimônio protagonizados por movimentos alinhados ao propósito petista, utilizando dois pesos diferentes que apenas atestam a medida da incoerência e incapacidade deste governo.