Publicado 10 de Novembro de 2015 - 5h30

A Operação Lava Jato apura se uma propina paga em meio à contratação das obras de construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) pode ter abastecido campanhas a prefeito pelo PT, entre elas a de Marcio Pochmann, em Campinas, no ano de 2012. A informação foi dada a procuradores pelo ex-diretor financeiro da construtora UTC, Walmir Pinheiro, que assinou um acordo de colaboração judicial.

De acordo com reportagens publicadas pela revista Veja e pelo jornal O Estado de S. Paulo, o depoimento indica que teriam sido repassados R$ 1,8 milhão a seis candidatos do PT naquele ano. Comandada por Ricardo Pessoa — que também se tornou delator na Lava-Jato —, a UTC é uma das empreiteiras envolvidas no escândalo da Petrobras. A operação é considerada a maior investigação brasileira sobre corrupção até o momento. Promovida pelo Ministério Público Federal (MPF) do Paraná e, com apoio da PF, a força-tarefa começou com a investigação de uma rede de doleiros e descobriu um complexo esquema criminoso na estatal, com envolvimento de políticos e construtoras.

Pinheiro seria responsável pela “contabilidade clandestina" da UTC. Além de Pochmann, teriam recebido dinheiro do petrolão, valendo-se de “doações oficiais”, as campanhas dos então candidatos Patrus Ananias (Belo Horizonte), Humberto Costa (Recife), Luiz Marinho (São Bernardo do Campo), Durval Ângelo (Contagem) e Paulo José Guedes (Montes Claros). Desses políticos, apenas Marinho conseguiu se reeleger nas eleições de 2012.

Na delação à Procuradoria-Geral da República, Pinheiro disse que a assinatura do contrato de obras do Complexo Petroquímico entre a Petrobras e o Consórcio TUC — UTC, Odebrecht e Toyo do Brasil — gerou “alguns compromissos” para o PT no valor de R$ 15,51 milhões. O delator relatou que o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto o autorizou a abater desse valor R$ 400 mil para José de Filippi Júnior, aliado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ex-tesoureiro da campanha dele em 2006.

Por indicação de Lula, Filippi também foi responsável pelas contas da campanha presidencial de Dilma Rousseff, em 2010. O delator não informou quando ou como o dinheiro foi pago. “Vaccari autorizou abater destes valores de R$ 15,51 milhões, R$ 400 mil para entregar para José Filippi, R$ 1,69 milhão para José Dirceu (ministro da Casa Civil na gestão Lula) e R$ 1,8 milhão foram para algumas campanhas eleitorais (provavelmente para campanhas ao cargo de prefeito): municípios de Contagem, Belo Horizonte, Recife, Montes Claros, Campinas, São Bernardo do Campo”, disse o delator em 6 de agosto.

Legalidade

Atual presidente da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, Pochmann negou ao Correio que qualquer verba ilegal tenha sido injetada por meio de doações na sua campanha. “Não tivemos e nem aceitaríamos porque foi uma campanha pautada pela legislação. Da nossa parte, qualquer recurso que recebemos está na declaração de prestação de contas”, rebateu.

Segundo a Justiça Eleitoral, a campanha petista para o Palácio dos Jequitibás naquele ano arrecadou R$ 6,2 milhões. Pochmann somou 147 mil votos (28,5%), ficou em segundo lugar no primeiro turno do pleito e superou o então prefeito Pedro Serafim (PRB, na época no PDT). No confronto direto com o atual chefe do Executivo, Jonas Donizette (PSB), em novembro daquele ano, no entanto, fez 231 mil votos (42,3%) contra 315 mil (57,6%) do peessebista.

Em nota, o partido diz que “todas as doações que o PT recebeu foram realizadas estritamente dentro dos parâmetros legais e declaradas à Justiça Eleitoral”. A defesa de José de Filippi Júnior não retornou os contatos da reportagem. O criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso, que representa o ex-tesoureiro do PT, diz não haver “nenhum elemento de prova que possa corroborar essas informações”. (Com Agência Estado)

Ex-assessor da Casa Civil é alvo de apuração

O pagamento de R$ 2 milhões feito pelo doleiro Alberto Youssef, em 2010, a pedido do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa é o caminho que a Operação Lava Jato trilha para chegar ao suposto uso de dinheiro de propina na campanha da primeira eleição da presidente Dilma Rousseff. O pagamento envolveria um pedido do ex-ministro Antonio Palocci, que foi coordenador da campanha presidencial do PT naquele ano, e o ex-assessor especial da Casa Civil Charles Capella de Abreu seria o intermediário. Youssef detalhou em novo depoimento prestado à PF no dia 29 de outubro o pagamento que fez em dinheiro vivo a um emissário que ele não sabe dizer quem era. A suspeita dos investigadores recai sobre Capella de Abreu. O suspeito recebeu Youssef em um quarto do hotel, conta o doleiro, que disse não se lembrar exatamente o mês, nem o dia, possivelmente “no período de junho a outubro de 2010”. O criminalista José Roberto Batochio, que defende Palocci, foi taxativo. “Estão querendo fazer uma delação de conciliação para tentar eliminar as insuperáveis e intransponíveis divergências. Mentiras ditas pelos três envolvidos (Fernando Baiano, operador de propinas ligado ao PMDB, Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef).” (Agência Estado)