Publicado 10 de Novembro de 2015 - 5h30

Uma série de mortes de filhotes de capivaras às margens do Ribeirão Anhumas assusta moradores do bairro Jardim Baroneza, na região Sul de Campinas, próxima ao Guarani. Nos últimos dois meses teriam sido cinco roedores mortos pela população, segundo testemunhas. O último foi agredido até a morte, a pauladas, por um grupo de jovens, no domingo. Até ontem o animal estava jogado na calçada, sobre a ponte do ribeirão. O Conselho Municipal de Proteção e Defesa Animal de Campinas informou que vai oficiar o Ministério Público Estadual (MPE) para que investigue a morte dos animais silvestres naquela região.

Moradores que não quiseram se identificar disseram à reportagem que há dois meses um casal e seis filhotes eram vistos com frequência na região próxima à Rua Serra D’Água. “Eu presenciei dois rapazes chutando um filhote faz duas semanas. A capivara era filhote e era agredida na Rua Serra Dourada. No dia seguinte estava morta, com um afundamento na cabeça e um corte em uma das pernas. Depois sumiu”, disse um aposentado.

O bairro fica próximo ao Guarani e a menos de dois quilômetros do Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim. No caso do animal morto no domingo, um grupo de pelo menos três jovens, homens, sendo um deles com um pedaço de pau na mão, o agrediram com chutes e pauladas. "Era por volta das 20h quando o filhote estava atravessando a rua e os três chegaram batendo no animal. É complicado apontar quem são os rapazes, mas sei que são do bairro”, disse outro morador.

O animal estava com a boca muito machucada e com um dos olhos afundados. “É uma crueldade. Depois que falaram da matança das capivaras no condomínio (Alphaville) acho que a tendência é piorar”, disse uma moradora, que também não se identificou. Essa é a mesma opinião do vice-presidente do Conselho Municipal de Proteção e Defesa Animal de Campinas, Flávio Lamas. “O problema é estigmatizar os roedores como culpados da febre maculosa. É muita injustiça. O problema é a falta de informação que leva a ações extremadas como essa da morte de domingo”, afirmou Lamas.

Ele desconhece que outras capivaras filhotes do mesmo bando tenham sido cruelmente mortas, mas que vai oficiar o MP para que assim demais autoridades se mobilizem e investiguem os possíveis autores das mortes. “Existem maneiras de evitar essas mortes, como conscientizar as pessoas e defender as outras que estão em perigo”, propõe o representante do conselho.

Segundo Lamas, a maior defesa das capivaras é o fato de que, uma vez infectadas, se tornam imunes e não transmitem mais a febre maculosa aos próximos carrapatos que se alimentarem de seu sangue. Ou seja, se um carrapato estiver contaminado com a febre maculosa e picar a capivara transmitirá a doença. Ela passa, então, a ser reservatório por dez ou 15 dias, podendo infectar outros carrapatos.

Após a introdução da bactéria Rickettsia rickettsii pelo carrapato-estrela, começa a produção de anticorpos no organismo do mamífero e em no máximo 15 dias as capivaras se tornam imunes. O que quer dizer que durante toda sua vida uma capivara é potencialmente transmissora para outros carrapatos por apenas 15 dias, nada mais que isso. Basta, portanto, que os roedores já estejam imunizados para ficarem fora da lista de “perigosos”.

Instituto move ação judicial contra abate no Alphaville

Instituto de Valorização da Vida Animal (IVVA) entrou no sábado com uma ação cautelar na Vara da Fazenda Pública de Campinas para barrar de forma definitiva o abate de capivaras no condomínio Alphaville, em Campinas. Na sexta-feira a Secretaria Estadual de Meio Ambiente informou que suspendeu temporariamente o abate dos mamíferos no condomínio para “um melhor planejamento da ação ou alterações dos procedimentos se forem necessárias”.

Até ontem, 16 capivaras foram mortas com a autorização da pasta, depois de exames feitos pela Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) indicarem que os roedores tinham anticorpos para febre maculosa. A medida provocou a reação de ativistas da causa animal e de entidades protetoras. No domingo, um grupo de ativistas protestou na entrada do condomínio contra as mortes das capivaras. A Polícia Militar (PM) esteve no local, mas não houve confusão. Alguns deles deitaram em frente ao portão de entrada impedindo a passagem dos moradores.

De acordo com a advogada do instituto, Alessandra Eloísa Battaglia, além de barrar a eutanásia dos roedores, a ação pede a transferência dos que forem sendo capturados para o projeto Abayomi, do Instituto Chico Mendes, para recolocação desses animais na natureza e de maneira controlada. De acordo com a advogada, um estudo feito pelo condomínio mostrou que existe um acesso livre para o trânsito de capivaras dentro do Alphaville, apontado como acesso “3”, que dá para o lago “4”.

Advogado e presidente do IVVA, João Paulo Sangion, afirmou que matar a capivara não é a solução. “Não é a capivara que é nociva, mas o carrapato. É uma política burra matar o animal, mas é mais fácil tirar o problema de perto do que pensar em uma política efetiva”, disse.

O instituto, assim como o Conselho Municipal de Proteção e Defesa Animal de Campinas, defendem outras medidas, como a transferência das capivaras para espaços como o corredor das onças, ou o controle da reprodução dos animais por castração.

O abate das capivaras no Alphaville foi feito, segundo o Meio Ambiente, por meio de procedimento de eutanásia — indução da cessação da vida animal, por meio de método tecnicamente aceitável e cientificamente comprovado, observando os princípios éticos definidos em resolução do Conselho de Medicina Veterinária. Após capturados, os animais são sedados com a utilização de dardos e, após a sedação, submetidos à eutanásia seguindo-se técnicas recomendadas.