Publicado 11 de Novembro de 2015 - 23h11

Por João Nunes/Especial para o Correio Popular

Lola Kirke e Greta Gerwig em cena de 'Mistress America': tiradas irônicas, sacadas sagazes e diálogos bem construídos, mas pouco a dizer

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Lola Kirke e Greta Gerwig em cena de 'Mistress America': tiradas irônicas, sacadas sagazes e diálogos bem construídos, mas pouco a dizer

Se pedissem para definir 'Mistress America' (idem, EUA, 2015), de Noah Baumbach, numa frase, seria esta: filme gracinha do ano. Contudo, a frase não é o que parece, pois embute elogio e crítica numa mistura cujo resumo seria algo como “fofinho”. Convenhamos, ninguém gosta desse tipo de elogio, mas, neste caso, fica impossível fugir dele.

Lembram-se de 'Frances Ha' (2012), do mesmo diretor e escrito por ele em parceria com a atriz do filme Greta Gerwig? Pois a dupla está de volta mais ou menos na mesma vibe, ou seja, esperta e contemporânea e recém-avaliada no Sundance, o festival americano indie que flerta sem pudores com o mainstream.

Com esse DNA e por se tratar de comédia com humor direcionado a um público adulto e bem-informado (até culto) seria improvável não estabelecer comparação com Woody Allen — e também pela verborragia, pelas tiradas irônicas, o cuidado com os diálogos e as sacadinhas sagazes.

Comparações são sempre precárias. O alvo delas, em geral, não gosta (pois se supõe que esteja copiando), mas quem desprezaria paralelos com Woody Allen? Mas aqui o problema começa justamente onde o veterano cineasta se dá bem, ou seja, no excesso de palavras, texto que não acaba mais, muito discurso por quase nada.

Está bem, há, sim, momentos engraçados com as tais sacadas perspicazes. E Greta Gerwig tem uma pegada humorística que funciona — ainda mais dizendo um texto que ela própria escreveu. E, sim, o público a que se destina irá se divertir — além de tudo é curtinho —, mas fica difícil encher a bola do filme para além destas qualidades citadas, como se ouviu da crítica em geral, com quase todo mundo incensando sobre generalidades, do tipo, “bacana”, “divertido” etc.

A história é bem banal — o que não chega a ser um problema; há grandes filmes baseadas em episódios banais. Mas o cinema indie costuma apresentar enredos bem mais criativos por causa da possibilidade de exercitar o chamado cinema autoral sem grandes interferências dos estúdios.

Tracy (Lola Kirke), de 18 anos, caloura de faculdade, tem uma vida solitária em Nova York, decepcionante mesmo, pois ela tinha enorme expectativa sobre o mundo universitário e sobre a vida numa grande metrópole. Então, conhece Brooke (Greta Gerwig), a filha do futuro padrasto dela, jovem aventureira e meio maluca que irá lhe mostrar um lado desconhecido da cidade.

Antes ela depara com Tony (Matthew Shear) que, assim como Tracy, sonha em entrar na sociedade literária da universidade. Com a irmã postiça, ela irá aprender uma série de frases de efeito que serão devidamente anotadas e colocadas no livro que está escrevendo. Isso é tudo, ou seja, nada extraordinário; são pequenos episódios da vida do trio que, somados, se transformam no plot.

A assumida procedência independente (cujas produções têm baixíssimo orçamento para os padrões americano) associada a um desejo explícito de ser aceito pelo mercado estão na raiz do incômodo que 'Mistress America' provoca. Ele se pretende diferente do que vemos por aí e se estabelecer como um produto fora do modelo vigente, mas sem deixar de ser hype. Sim, o espectador irá se divertir, mas o filme poderia ser um pouquinho menos, como direi?, descolado.

Escrito por:

João Nunes/Especial para o Correio Popular