Publicado 11 de Novembro de 2015 - 23h10

Fábio Porchat: 'O teatro é o que me coloca em contato direto com o público, a arte mais completa'

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Fábio Porchat: 'O teatro é o que me coloca em contato direto com o público, a arte mais completa'

Difícil conseguir um tempo na agenda de Fábio Porchat. Afinal, aos 32 anos, o humorista se tornou um dos maiores nomes do humor nacional, ao ponto de praticamente ditar o que se faz por aí atualmente quando o assunto é o riso. Isso, obviamente, graças ao negócio multimídia que ajudou a fundar chamado Porta dos Fundos. Tamanho sucesso, claro, não se resume apenas ao fato do ator ser extremamente engraçado. Porchat é um empreendedor, que escreve, cria, produz, atua e divulga praticamente tudo o que faz.

Como muitos nomes do humor da atualidade, começou a ganhar notoriedade pelo País com o stand-up comedy. Fez parte da trupe Comédia em Pé até lançar, em 2010, o espetáculo solo 'Fora do Normal' — com o qual continua em turnê até hoje. O Porta veio em 2012 e, desde então, Porchat cravou seu nome na história do humor brasileiro, sendo convidado para ser a cara dos mais variados projetos.

No cinema, lançou 'Entre Abelhas' e faz parte das séries de filmes 'Meu Passado me Condena' e 'Vai que Dá Certo' (com o segundo longa deste último, rodado recentemente em Paulínia, previsto para estrear no começo de 2016). Em janeiro, grava ainda o primeiro filme do Porta, canal do YouTube que também lançou na TV, com Porchat no elenco, a série original 'O Grande Gonzalez' — em exibição na Fox, às 22h. Sem esquecer que o humorista continua com os programas 'Porta Afora', sobre viagens, e 'Tudo pela Audiência', ambos no Multishow com novas temporadas previstas para o ano que vem.

Caderno C - Você está na internet, no cinema, na TV e no teatro, tudo praticamente ao mesmo tempo. Como escolher quais projetos abraçar e como dar conta de tudo?

Fábio Porchat - Olha, a resposta vai parecer meio livro de autoajuda, mas a real é que você tem que ser sincero ao seu coração. O que você quer fazer? É isso o que eu me pergunto o tempo todo e escolho, sempre, apenas o que eu quero realmente fazer. Nunca penso naquilo que tem que ser feito porque alguém falou que você deve fazer porque vai ser bom para a carreira, ou financeiramente, enfim. No Porta a gente segue essa linha, fazemos esquetes que a gente quer fazer, assim como as séries e, agora, o filme. E, sinceramente, acho que tudo tem funcionado tão bem por conta disso, porque eu falo o que eu quero falar.

Falando em Porta dos Fundos, em outra entrevista você me disse que tem a meta de escrever dois roteiros por semana. O deadline é a melhor inspiração?

Talvez seja, porque, sabendo que existe aquela obrigação, que há um prazo, você se cobra o tempo todo. Mas não é o prazo que faz a criatividade acontecer, as ideias ficam pulando na nossa cabeça e a gente, eu pelo menos, sempre arrumo um jeito de passá-las para o papel. Graças a Deus, todos os projetos que eu quis fazer deram certo.

Apesar da variedade de seus trabalhos, o público pode ver em 'O Grande Gonzalez' algo que ainda não viu do Fábio Porchat?

Boa pergunta. Não sei te dizer. Bom, essa é a primeira vez que eu faço um palhaço, então é um personagem novo para a minha carreira. Séries eu já fiz, e todo mundo que está em 'Gonzalez' também já trabalhou com televisão, mas o que eu sinto que há de diferente com essa é que é uma série cômica, claro, mas com suspense por ser também policial. Talvez seja essa a novidade.

O que é mais legal em fazer um palhaço?

O mais legal é que você tem uma máscara, então você pode falar os maiores absurdos, as maiores atrocidades, que você sempre estará protegido por aquele personagem. Eu me senti assim.

Como transitar por tantos trabalhos e tantos personagens?

Eu gosto de contar histórias, se for comédia, drama, suspense, tanto faz. Sou ator, formado como ator, então eu me preparo para os personagens ou os trabalhos sempre da mesma forma, estudando muito, lendo. Eu preciso entender qual é a do personagem, para onde ele quer ir, e converso muito com meus colegas para saber esse lado. É preciso ficar atento para não cair na mesmice, ou o pessoal começa a falar que você só faz a mesma coisa. Se falam isso do Robert De Niro, imagine de mim. O ator sempre tem que se atentar a isso, se renovar. Por outro lado, o público quer, muitas vezes, a mesma coisa, quer aquilo que ele conhece, vai ver aquele ator fazer aquele tipo de personagem. Ou seja, o negócio é balancear.

Em 'O Grande Gonzalez', você apenas atua, e não participou do roteiro. Como foi isso?

O legal do Porta é ter várias cabeças criativas pensantes e a gente poder confiar em cada uma delas. Então quando o Ian (SBF, diretor) tem uma ideia, curte e fala que devemos capitanear, a gente sabe que é uma ideia que vai dar certo. Quando o Gregório (Duvivier), o João (Vicente de Castro) e o Luis (Lobianco) decidem fazer uma peça ('Portátil'), mesmo que seja de improviso, a gente aposta porque a gente acredita, de verdade, que vai dar certo. A gente confia muito um no outro, é um processo que, mesmo que um ou outro não participe, todos querem ler e dar pitacos, saber de tudo. Todo mundo se ouve muito, e essa série o Ian escreveu porque sempre esteve dentro da cabeça dele, desde os primórdios. Eu já trabalhei com o Ian fora do Porta, recentemente inclusive com o filme 'Entre Abelhas'. Foi um trabalho que estava há muito tempo na nossa mente, então eu sei como ele trabalha, como funciona essas ideias que rondam a cabeça dele. Se ele diz que vai dar certo assim, então vamos fazer assim, porque de outro jeito não vai dar certo. 'O Grande Gonzalez' foi isso, uma surpresa para todo mundo, até mesmo na hora de gravar, e muita coisa foi construída gravando, só que é assim que a gente trabalha. Foi uma série difícil, ela é bem confusa, porque são várias cenas vistas por vários pontos de vista, então confundia a gente. Porém, curiosamente, não era confuso na cabeça dele e isso que deixou tudo gostoso. O legal é poder trabalhar assim, com pessoas diferentes, com ideias diferentes.

Fala-se muito que o cinema está comendo poeira para a televisão, por conta das séries, e que esse momento também está chegando ao Brasil, já que cada vez mais surgem séries nacionais de muita qualidade. Já é possível competir com o mercado norte-americano?

Honestamente, hoje em dia eu acho que não temos mais que pensar em competição. O pensamento precisa ser outro. Você pode assistir a uma série pelo Now (serviço da Net), pela Netflix, por outros serviços do tipo, a televisão já permite gravar qualquer programa para você ver depois, quando quiser. Então não precisa mais deixar de ver uma coisa para ver outra. Dá para ver tudo. A gente tem que ter pensamento zero em competição e dez em fazer um bom produto. Isso é o que vai trazer o público.

Você consegue assistir a séries?

Bastante, principalmente pelo Netflix. Mas algumas eu acompanho na TV mesmo, como 'The Walking Dead', que passa na Fox mesmo, inclusive. É uma das minhas preferidas.

Este ano você gravou em Paulínia o filme 'Vai que Dá Certo 2'. O que já dá para falar dele?

A previsão de estreia é janeiro agora, se não me engano dia 7. E em cinema você vive um outro mundo. Quando você vai para um set, você fica lá, vivendo e respirando aquele trabalho. Então como fomos para Paulínia, eu ficava lá, vivendo minha vida ali. Nesse sentido, é muito bom para o trabalho, porque faz você respirar aquele personagem. A história vai na mesma linha do primeiro, com o grupo planejando dar um golpe. Só que agora o golpe é em cima de um vídeo pornô que vazou na internet. Claro que tudo vai sair errado porque sempre que você quer ganhar dinheiro fácil, ele se torna mais difícil. Então esse é o pensamento do filme.

As comédias brasileiras continuam sendo muito criticadas, mas o público comparece em peso...

Pois é, muita gente adora meter o pau nos meus filmes. Nunca tem uma crítica boa. 'Meu Passado me Condena' não teve uma crítica boa, nem o 1 nem o 2; 'Vai que Dá Certo' também foi detonado pela Folha (de São Paulo), pelo Estadão (jornal O Estado de SP), pelo Globo (jornal). Todo mundo adora falar mal.

Isso te incomoda?

Nem um pouco. As críticas não interferem no público. Me incomoda quando eu vejo que tem um certo preconceito com as comédias. Isso, aliás, me incomoda muito. Agora se é uma crítica ruim, embasada, a gente pensa nisso, claro. Mas não sinto mesmo que o público seja influenciado pelas críticas.

Pensando nessa linha, 'Meu Passado me Condena 2' foi bem em bilheteria, mas não tanto quanto os 3 milhões de espectadores do primeiro filme.

Sabe o que é engraçado nisso? Que o retorno que eu tive, de amigos, de público, de gente que vem falar comigo, todos acharam o 2 melhor que o 1. É engraçado porque cada um acha uma coisa e a repercussão do 2, para nós, que fizemos o filme, foi ótima. Sem contar que gravamos em Portugal, então o filme ficou com umas imagens lindas. Então é difícil entender ou saber o que se passa com o público.

O seu programa 'Porta Afora' também fez muito sucesso. Como está esse projeto?

Vai ter uma segunda temporada que, inclusive, estou gravando agora. Vou voltar hoje mesmo para o Rio (a entrevista aconteceu em São Paulo, na festa de lançamento de 'O Grande Gonzalez'), de ônibus, para poder gravá-lo. Aliás, gravei a semana toda, continuo gravando e, ano que vem, lançamos a segunda temporada. Vai ser no mesmo esquema da primeira temporada, eu e Rosana Hermann entrevistando uma galera bacana aí sobre viagens. Vamos ter Bruna Lombardi, Maisa, muita gente legal.

E você ainda sai em turnê com o stand-up 'Fora do Normal'. A ideia é justamente diversificar para se renovar, como você disse?

Eu gosto de sair em turnê, estou em cartaz em São Paulo e quanto mais eu puder trabalhar, eu vou. O teatro é o que me coloca em contato direto com o público, a arte mais completa, então não tem como deixar de fazer.