Publicado 11 de Novembro de 2015 - 17h02

Cena da peça 'Meu Lado Homem, um Cabaré D?Escárnio', com texto de Hilda Hilst

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Cena da peça 'Meu Lado Homem, um Cabaré D?Escárnio', com texto de Hilda Hilst

Em uma de suas últimas entrevistas, Hilda Hilst (1930-2004), ao comentar sobre a possibilidade de reencarnar, disse: "Eu voltaria homem. É o meu desejo". Durante sua carreira, a escritora demonstrou sua capacidade de construir um complexo perfil masculino em 'Cartas de Um Sedutor' (1991), livro que completa a trilogia erótico-pornográfica ao lado de 'A Obscena Senhora D' e 'O Caderno Rosa de Lori Lamby'.

O romance revela correspondências trocadas entre o aristocrata afetado Karl com sua inocente irmã Cordélia. "A intenção dele era convencer a garota a desistir de um estilo de vida puritano e viver o mundo carnal", explica o ator Luís Mármora que estreou nesta terça-feira, 10, 'Meu Lado Homem, um Cabaré D’Escárnio', no Instituto Cultural Capobianco. "Karl fala de sexo de maneira vulgar, mas sem deixar de ser refinado", explica. O espetáculo compõe o projeto de repertório 'Terceira Margem III' e divide a programação com 'Gotas D’Água sobre Pedras Escaldantes'.

A obra de Hilda se eleva quando defende uma livre expressão da sexualidade e cria uma relação existencial com o sobrenatural. "O texto fala muito de Deus e também morte", aponta. Em um trecho, Karl tenta negociar com a morte sua permanência na terra dos vivos, em troca de conceder prazer à entidade. Esse espírito conferiu vida à Sápata Magáli, uma "teatróloga", em clara referência ao crítico de teatro Sábato Magaldi. "É uma grande brincadeira de inverter os gêneros", conta o ator, usando salto alto e cílios postiços, que segue em temporada com o 'Galileu Galilei' dirigido por Cibele Forjaz.

Com direção de Marcelo Romagnoli, 'Meu Lado Homem' recria o ambiente de um cabaré com abajur à meia-luz, um divã, cortinas de veludo e um pequeno palco com microfone. A música, executada ao vivo, é conduzida pelo músico e compositor Luiz Gayotto. "As canções escolhidas trazem uma essência do universo feminino", conta Romagnoli. Entre elas, músicas interpretadas por nomes como Elis Regina, em 'Me Deixas Louca', e Aretha Franklin em '(You Make Me Fell) Like a Natural Woman', além de 'Cabide', presente de Ana Carolina para Mart’nália e composições de Gayotto.

Para Mármora, viver uma personagem controversa e ambígua se faz urgente nesses tempos. Dias nos quais a poesia da escritora pode conferir forças. "A violência vem crescendo, principalmente na esfera pública. A obra de Hilda avança ao falar sobre sexo abertamente e sem medo. Aqui, a pornografia é pensada como um lugar de resistência da imaginação, da sobrevivência do ser humano diante da marginalidade."

Serviço

O quê: 'Meu Lado Homem, um Cabaré D’Escárnio'

Quando: terças e quartas-feiras, às 21h. Até 16/12

Onde: Instituto Cultural Capobianco (Rua Álvaro de Carvalho, 97, Centro, São Paulo, fone (11) 3255-8065)

Quanto: de graça