Publicado 10 de Novembro de 2015 - 10h54

Como as releituras passam por diferentes etapas de sua discografia, fãs poderão ouvir composições que não estiveram nos últimos shows no País

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Como as releituras passam por diferentes etapas de sua discografia, fãs poderão ouvir composições que não estiveram nos últimos shows no País

Jorge Drexler faz música para os ouvidos, porém, diz que sua arte mexe com outro sentido. Por isso, batizou de Perfume sua turnê eletrônica, que passa pelo Brasil, começando por São Paulo nesta terça, dia 10, no Audio Club, na Barra Funda.

"O olfato é um dos sentidos mais antigos na evolução dos seres vivos. Ele nos conecta a sentimentos e vivências dos primórdios. Gosto de ver o ato de compor como se estivesse buscando um perfume em um jardim às escuras. Você o perde, volta a encontrar vai se aproximando e o incorpora", filosofa em entrevista.

A nova leva de shows, que inclui ainda Rio, na quarta, 11, e Porto Alegre, no dia 15, difere da turnê anterior, Bailar en la Cueva, na qual se apresentou aqui em março. Em vez de uma banda performática - com quem fazia coreografia e descia para dançar com a plateia, a maior parte das canções é executada pelo uruguaio e por seu parceiro musical Luciano Supervielle, do grupo de tango eletrônico Bajofondo.

"Perfume é uma turnê mais íntima", explica o cantor, que volta a misturar sentidos. "Vamos trabalhando a paisagem sonora do show com bases eletrônicas e com efeitos que se movem no cenário. Mas toda a eletrônica que aparece é para causar intimidade. Só no final, a apresentação volta a ficar expansiva", diz também.

Como as releituras passam por diferentes etapas de sua discografia, fãs poderão ouvir composições que não estiveram nos últimos shows no País. "Procuramos canções aproveitáveis nesse formato sonoro. Luciano controla, ao mesmo tempo, a linguagem tradicional do piano e as sonoridades do hip-hop. Há bastante músicas de Eco (2004) e Sea (2001), época em que mais trabalhamos juntos ao vivo", conta ainda ele.

Do último disco, Bailar en la Cueva (2014), ele tem incluído Bolívia, gravada com Caetano Veloso. A letra fala de seus avós paternos, judeu-alemães que fugiram da guerra e foram acolhidos pelo país andino antes de se mudar para o Uruguai. Em tempos de imigrantes sírios que rumam para a Europa, o artista vê semelhanças.

"Temos tendência a esquecer que a história é pendular: os que um dia dão asilo, em outro, o pedem. Todos nós, latino-americanos, sabemos que parte de nossos antepassados veio escapando de uma tragédia, tentando uma vida melhor", analisa ele, que vê razão para que as nações europeias recebam os imigrantes. "Acredito que a Europa, que gerou refugiados e espalhou pelo mundo milhões de pessoas fugindo de mazelas e conflitos, tem de receber refugiados e colaborar com a resolução desse horror da guerra civil na Síria", defende Drexler, que mora na Espanha.

Ligado à questão do Oriente Médio, o uruguaio apoiou a ida de Caetano Veloso e Gilberto Gil a Israel, por onde a turnê recente dos dois passou. Além do Movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), o cantor e compositor britânico Roger Waters pressionou os brasileiros a não se apresentar naquele país, em protesto contra a ocupação de territórios palestinos.

"Estou feliz por ter feito contato entre Caetano e Gil e organizações de direitos humanos israelenses e palestinas com que trabalho para que pudessem conhecer os territórios palestinos ocupados. A atitude dos dois foi inteligente e generosa, importantíssima para a visão do conflito", analisa Drexler. "Os brasileiros deveriam estar orgulhosos. A visita desses mestres provavelmente ajudou a evitar a demolição do aldeia de Susya, perto de Hebron."

Apesar da amizade com os dois e com outros brasileiros com quem já compôs e gravou, como Maria Rita, não há planos de convidá-los para os show por aqui. "Gosto de deixar convidados para o último momento. Que isso se dê de maneira espontânea, pois cada um vive numa cidade. Posso adiantar que, no Rio, teremos Domenico Lancellotti", entrega.

As últimas apresentações tiveram situações inusitadas. Uma fã brasileira causou comoção ao pedir sua namorada porto-riquenha em casamento em um show em Los Angeles. "Ela me pediu que dedicasse uma música à sua amada porque queria fazer o pedido lá. Eu disse: 'Por que não faz isso no palco?'. Foi espontâneo e emocionante porque foi de verdade."