Publicado 13 de Novembro de 2015 - 5h00

Por Pasquale Cipro Neto

Lamentavelmente, em muitas escolas deste país o assunto “verbo” ainda se limita à ladainha do “eu tal, tu tal” etc. Pouco ou nada se fala da relação entre tempos primitivos e derivados, pouco ou nada se fala dos diversos valores dos tempos e modos verbais, não se traduzem os nomes desses tempos e modos etc.

O presente do indicativo, por exemplo, muitas vezes é definido simploriamente como “tempo verbal que indica fato que ocorre no momento da fala”.

Se isso fosse verdade, só quem tem o dom de falar articuladamente durante o sono poderia conjugar a primeira pessoa do singular do presente do indicativo de “dormir”.

À noite, ninguém poderia conjugar o presente de “almoçar” para informar o horário em que habitualmente almoça, afinal o presente é o tempo que indica... Não é nada disso.

Indicar o fato que ocorre no momento da fala é apenas um dos valores do presente do indicativo. Na verdade, esse é o seu valor específico, ou seja, o valor que justifica o nome desse tempo. O presente do indicativo pode também indicar ação rotineira (“Minha mãe dorme das 20h às 6h”), fato passado (“Em dezembro de 1968, a ditadura impõe o malfadado AI 5”) etc.

O pretérito mais-que-perfeito talvez seja o mais maltratado por esse ensino limitado. Pomposo, o nome (mais-que-perfeito!) faz muita gente pensar que se trata de um tempo verbal reservado a alguns seres humanos especiais.

O mais-que-perfeito tem o nome que tem simplesmente porque indica fato mais velho que o perfeito, isto é, anterior ao perfeito. Este, por sua vez, indica fato acabado, concluído, feito completamente, ou seja, perfeito (do latim perfectu = “feito completamente”, “feito até o fim”).

Em “Quando ele resolveu agir, ela já tomara a dura decisão de...”, a forma “resolveu” indica ação passada totalmente concluída, totalmente feita, isto é, perfeita, enquanto “tomara” indica ação que ocorre antes da expressa por “resolveu”, ou seja, ação anterior à expressa pelo pretérito perfeito. O fato expresso por “tomara”, portanto, é mais-que-perfeito, isto é, mais velho que o expresso pelo perfeito.

O valor específico do mais-que-perfeito é o que acabamos de ver. Os outros valores desse tempo são muitos. Há alguns anos, a Fuvest incluiu em seu vestibular uma questão sobre o pretérito mais-que-perfeito baseada neste trecho da canção “O Estrangeiro”, de Caetano Veloso: “E eu? Menos a conhecera mais a amara?”.

A banca pediu aos candidatos que reescrevessem a frase, “usando as formas que o mais-que-perfeito substituiu”. “Conhecera” equivale a “conhecesse”; “amara”, a “amaria”: “E eu? Menos a conhecesse, mais a amaria?”.

Não nos esqueçamos de Camões (“Se mais mundo houvera, lá chegara”, que equivale a “Se mais mundo houvesse, lá chegaria”) e daquela memorável cantiga portuguesa (“Se houvera quem me ensinara, quem aprendia era eu”, que equivale a “Se houvesse quem me ensinasse, quem aprenderia seria eu”).

O futuro do presente também toma suas palmadas. Definido simploriamente como “o tempo verbal que indica fato que ocorre depois da fala”, esse tempo tem vários outros valores. Um deles é o de indicar ordem, caso em que equivale ao imperativo.

Muitas pessoas, no entanto, dependendo da situação, preferem levar o futuro ao pé da letra. Certamente é esse o caso de alguns administradores públicos, que penduram na cabeceira da cama um dos mandamentos da lei de Deus: “Não furtarás”.

Ao acordarem, olham imediatamente para a tabuleta. Lá está: “Não furtarás”. Como o verbo está no futuro, “só vale para depois”, pensam. Hoje pode. E lá se vai mais uma gorda fatia do suor dos brasileiros. O caro leitor conhece algum país cujos homens públicos (e ‘privados’ também) sejam mais fiéis a esse mandamento do que os nossos?

Escrito por:

Pasquale Cipro Neto