Publicado 12 de Novembro de 2015 - 5h00

Por Jorge Massarolo

Essa conversa aconteceu durante um café no aeroporto e retrata como nossa cidade está sendo vista.

- Você mora em Campinas?

- Moro sim.

- Que coisa, hein? Uma cidade rica, com universidade de renome internacional, polo tecnológico e industrial, aeroporto moderno, muito dinheiro circulando, mas é assustadora a quantidade de besteira que tem saído de lá ultimamente. É uma m… atrás da outra.

Já imaginei o que sujeito comentaria, mas disfarcei e perguntei. Como assim?

- Ora, não se faça de tonto. Você é jornalista e sabe muito bem do que estou falando. Primeiro foram aqueles vereadores inventando projetos absurdos e agora esta universitária que fez a grande besteira de ironizar uma mãe amamentando a filha. E olha, é uma universitária. Quanta ignorância, quanto preconceito, disse.

Ele referia-se à estudante que ganhou repercussão nacional ao chamar de “pobrice”, entre outros adjetivos pejorativos, no Facebook, uma mãe que amamentava enquanto andava de bicicleta. A moça foi bombardeada de críticas e acabou retirando seu perfil da rede social.

Concordei com ele e tentei argumentar, mas não tive espaço.

- E aquele bando de vereadores, o que fazem de bom pra cidade além de projetos ridículos? Primeiro foi aquela homenagem à Alemanha por ter metido 7 a 1 no Brasil na Copa do Mundo. Depois foi o Dia da Glória Campineira, para comemorar o título do Guarani no Brasileiro de 1978. Agora essa turma transformou Campinas em deboche nacional novamente ao querer que o Ministério da Educação anule a prova do Enem por trazer um trecho do livro da filósofa francesa Simone de Beauvoir, que diz: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”.

Como é que pode um vereador dizer que a iniciativa do governo federal foi “demoníaca” ao incluir essa questão na prova? E aquele outro que disse que Deus fez a mulher da costela e não da sola do sapato. Que é isso meu amigo? Como pode isso acontecer em Campinas? Sem contar aquela polêmica toda envolvendo a ideologia de gênero.

- Pois é..., tento interferir, sem sucesso. O homem estava realmente extasiado. E continuou.

- Sabe, fico espantado que uma cidade como Campinas, tão evoluída científica e industrialmente, acabe sendo exposta dessa forma, retrógrada e conservadora. Já estive em Campinas algumas vezes a trabalho, e a primeira coisa que me perguntaram era o sobrenome da minha família. E eram pessoas falidas, que viviam de pose, de um status conquistado no passado por familiares. Senti também uma barreira para quem vem de outro Estado.

- Infelizmente, tenho que concordar, mas claro que a maioria da população não é assim. São grupos que acabam criando uma imagem negativa sobre o todo, falei num momento em que ele parou para tomar um gole de café, quase frio.

- Sim, eu sei, disse ele. - Mas para nós, que somos de fora, são essas barbaridades que se destacam e me desculpe falar assim, mas estava com isso entalado na garganta e você foi o primeiro campineiro que encontrei. Ah, e leva uma sugestão pros vereadores. Mudem o nome da cidade para Sucupira, disse ele, já correndo para o embarque.

Engoli o último gole de café, já frio, e fiquei quieto.

Escrito por:

Jorge Massarolo