Publicado 15 de Novembro de 2015 - 5h00

Por Antônio Contente

Ele me perguntou se eu sabia da morte do seu Fernando e, com aperto no coração, respondi que não, mesmo tendo passado mais de mês da triste ocorrência. Daí, pousando a mão direita no meu braço, acrescentou: “Foi lá, no bar dele, que vivi alguns momentos muito lindos da minha vida”.

No breve silêncio que se fez entre nós, lembrei que o buteco, na rua Piedade (para quem sobe, continuação da Mogi Guaçu), se tornou lendário. Não só pela excelência do que servem (o pernil é divino), como, agora, também pela lembrança do falecido dono, um senhor de aparência austera.

Caso fosse visto a caminhar pela Glicério, por exemplo, se diria ser ele um asceta íntimo de recatos e compêndios, talvez dirigente d’algum convento de monges trapistas. Pelo seu estabelecimento, desde começo dos anos 70, passaram pessoas que, para mim, foram e são de importância transcendental.

Lá tomei boas cervejas com o famoso e premiadíssimo publicitário Wagner Nogueira, além dos sábios Claudião Otero, Edney Moraes Bueno, Fernandinho Mendonça de Barros, Jacy Rios (ex-prefeito de Joaquim Egidio), mais o filósofo alemão Günhter, aposentado da Lufthansa; ah, sim, não podemos esquecer Geraldo Garcia, o eterno mago. Basta que olhe uma pessoa para sacar seu signo e o que o futuro a ela reserva. Nas mesas do barzinho papeei, muitas vezes, fascinado pelo encanto de mulheres lindas como Heloisa Bertasolli, Adriana Godinho, Ana Maria Orr, Stella Borghi, Cláudia Petreca, Carla Lazarinni, Maria Teresa Costa, Ciça Toledo, Vivi Pavarini e muitas, muitas outras. Um lugar mágico, como se vê.

Bom, mas agora volto ao meu amigo que, lendo a esplêndida página Doses, de Marita Siqueira, na revista Metrópole, ficou sabendo da morte do seu Fernando. Após comentar comigo, acentuou:

— Curti, no entorno daquele bar, o grande amor da minha vida.

Daí contou que morou perto, num charmosíssimo solar com telhado de várias águas com jardim no qual, à esquerda, vicejava verdíssimo tufo de palmeiras. Nos dois canteiros balançavam maravilhosas roseiras a exibir, eternamente, flores escandalosamente vermelhas.

— Meu percorrer do lar ao bar — ele lembrou — era o Caminho de Santiago de Compostela no qual mostrava aos céus os encantos da minha paixão.

Lembrou que, em companhia da moça amada, sentava sempre na sacadinha do buteco. Em cujo espaço não entravam os galhos, mas, a balançar perto, as folhagens dos oitis jogavam bênçãos que os deuses não cansavam de enviar àquele recanto; templo dos sonhos, muitos d’amor, de selecionado grupo de boêmios.

— Um dia — o amigo recordou — minha mulher me apresentou a uma planta que vicejava ao lado da mesa que sempre ocupávamos. Uma planta especial.

— E por que especial? — Eu quis saber.

— É que nela brotava, só uma vez por ano, solitária flor branca; tão alva quanto as neves do Kilimanjaro. Essa flor durava somente 24 horas. E morria.

Daí em diante, anualmente, ao perceber que a florescência emergia para a duração efêmera, o amigo a colhia logo. E fazia isso para, no amanhecer, à primeira luz da aurora, colocar as ainda viçosas pétalas sobre o corpo da mulher amada, que ressonava.

— Por causa disso — narrou — é que foram sempre tão bonitos os nossos dias, e já estamos nas Bodas de Prata. Hoje, a cada dia, nosso amor só aumenta. Passaremos das Bodas de Ouro...

Como é inevitável nessas situações, quis detalhes sobre as pétalas que, durando apenas algumas horas, eternizaram a paixão do casal.

Ele então me explicou que após exaustivas pesquisas sobre a planta, chegou ao que buscava. Tratava-se de uma Catharanthus roseus, trazida para Campinas diretamente de um monastério das selvas de Madagascar, próximo à cidade de Antsohimbondrona, não longe de Maromokotro.

Quem a plantou no pé da sibipiruna que vivia ao lado de uma das mesas do bar do seu Fernando, meu amigo nunca descobriu.

O que descobriu, porém, após começar a fazer o que fazia com as pétalas por pura intuição, é que elas, segundo antiga lenda das ilhas do Oceano Índico, se colocadas, ao amanhecer, pelo amante sobre o corpo da mulher amada ainda a dormir, levavam ao amor eterno.

Impressionado com a história, indaguei se até hoje tal flor segue a brotar à sombra do toldo do buteco.

— Não — meu interlocutor respondeu – certa tarde, faz bom tempo, forte tempestade derrubou a sibipiruna. Na remoção, foi-se a planta mágica. Só que o milagre das pétalas estava feito; afinal, por mais de 10 anos, assim que nasciam eu as levava para os meus litúrgicos atos d’amor.

Finalmente, com a morte de seu Fernando, este sortilégio que vicejou longamente na calçada do seu bar, é revelado. E o meu camarada, personagem da história, acabou por garantir ter sido o exclusivo beneficiário dos poderes da flor branca.

— Agora — continuou — o que sei é o seguinte: se um dia, por acaso, eu perder minha mulher, será no velho buteco que irei orar, todas as tardes.

— Orar? No bar?

— Exatamente; para agradecer aos deuses, junto ao lugar onde brotavam as pétalas, a glória de ter sido casado com quem casei.

Grande Bar do Seu Fernando, oremos por ele. E pelo feliz casal, é claro.

Escrito por:

Antônio Contente