Publicado 14 de Novembro de 2015 - 5h00

A mais lúcida, a mais tranquila e mais sábia voz no coral de desafinados e desnorteados que entorpece o País, Marina Silva, a ex-senadora, ex-ministra e ex-candidata à Presidência reaparece no cenário político com uma irrecusável convocação através da entrevista concedida ao veterano Roberto Dávila, na GloboNews.

Finalmente vitoriosa na dramática maratona para obter o registro da sua Rede Sustentabilidade, Marina Silva deixou de lado a bandeira da terceira via e com a autoridade que esta abdicação lhe confere, assume o papel suprapartidário — ou apartidário — exigido pela gravidade e simultaneidade das crises em que fomos metidos.

A sociedade brasileira cansou da feroz disputa partidária inserida ardilosamente em todos os lances da tomada de decisões, porém recusa conchavos, pactos e consensos cosméticos. O País exige compromissos mínimos, denominadores comuns, básicos, cruciais. O Ajuste Brasil deve preceder aos demais ajustes — fiscal, institucional, eleitoral, previdenciário, sanitário, ambiental e educacional.

Finalmente zerados e igualados na desesperada correria para impor seus projetos de poder, PT e PSDB não têm outro caminho senão fazer política, conversar. Com seriedade, sem segredos nem holofotes, sem procurar vantagens para as eleições de 2016 ou 2018, mas agarrados na patriótica disposição de não repetir 2014 – a mais estúpida, equivocada, perdulária e mais trágica eleição desde a redemocratização de 1945.

A disputa de 1930 tirou a vida do candidato a vice, João Pessoa, e produziu uma revolução sangrenta e inacabada — como todas. O confronto de 2014 tirou a vida de Eduardo Campos – uma das afortunadas promessas de renovação política – e nos levou ao caos atual

Hora de parar, olhar em volta. Hora de reparar nos escombros e contabilizar perdas, sobretudo, enxergar o tamanho do retrocesso. Todos estão igualmente ameaçados: a correnteza, toxicidade e densidade da lama é a mesma. A diferenciação é inútil, até perniciosa.

Quando os jornais noticiam com descaso e desatenção que a Justiça determinou a quebra do sigilo telefônico na sede nacional do PT em São Paulo somos inapelavelmente chutados para o Caso Watergate, que começou com a “inocente” tentativa da quebra de sigilo na sede dos Democratas em Washington, D.C. História de sucesso, o Partido dos Trabalhadores pela segunda vez em seus 35 anos de existência vê-se confrontado com o sinistro dilema — refundação ou ruína.

O PSDB não está em melhor situação sob o ponto de vista moral: aparentemente livre das acusações de propinas e trapaças pecuniárias, porém seriamente maculado pela hipocrisia, pusilanimidade e vileza de servir como sustentáculo da rede de chantagens montadas pelo chantagista-mor ora na presidência da Casa do Povo. Pior é a constatação de que o partido abdicou de seus postulados e da sua história apenas para enfraquecer adversários e mais facilmente empurrar o País para a beira do abismo.

Indiferenciados e equalizados, PSDB e PT não têm outra alternativa senão deixar a cancha e acabar de vez com o cansativo e irresponsável Fla-Flu cujo resultado — fácil de prever — será um catastrófico empate.

Neste aniversário da República convém prestar toda a atenção a Marina Silva: depois do professor e do operário, a figura delgada porém firme, elegante e articulada que soube escapar dos predadores da mata e sobreviveu à selva do poder reúne todas as condições para empolgar a enorme massa dos desiludidos, humilhados e sonhadores.