Publicado 13 de Novembro de 2015 - 22h40

Por Bruno Bacchetti

violência contra as mulheres

Marcelo Luiz Caldas Cavalcante

violência contra as mulheres

A violência contra a mulher tem sido recorrente no Brasil e afetado um número cada vez maior de mulheres. A situação não é diferente na Região Metropolitana de Campinas (RMC). Segundo o estudo Mapa da Violência — Homicídio de Mulheres no Brasil, que analisou as mortes violentas sofridas pelas mulheres entre 2009 a 2013, foram 234 vítimas fatais na região neste período.

Somente em 2013 a RMC registrou a morte violenta de 51 mulheres, equivalente a mais de quatro por mês. Em comparação com o primeiro ano do estudo, quando o feminicídio fez 43 vítimas na região, o aumento é de 18,6%. O Mapa da Violência foi realizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e leva em consideração dados do Ministério da Saúde e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além de índices internacionais como os fornecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

 

O assunto é tão alarmante que foi tema da redação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano. Para Maria de Fátima Franco dos Santos, psicóloga forense e professora da PUC-Campinas, o crescimento da violência contra a mulher é reflexo do machismo enraizado na sociedade brasileira, e a impunidade motiva os criminosos. “Um dos fatores para esse aumento certamente é a falta de punição. Existe uma gama complexa de causas, mas a impunidade é um dos fatores mais importantes. Vivemos numa sociedade machista e para muitos homens a mulher é um ser de segunda categoria. Há uma cultura sexista”, analisa Maria de Fátima.

Em números absolutos, Campinas lidera o número de homicídio de mulheres. Em 2013, foram 22 mulheres assassinadas no município, aumento de 83,3% em cinco anos — em 2009 foram 12 vítimas. Em seguida aparecem Sumaré, com 10 vítimas, Santa Bárbara d’Oeste, com cinco, e Hortolândia, com três. No entanto, na taxa de morte por 100 mil habitantes, Monte Mor registrou o índice mais elevado no período do estudo, com 8,8 a cada 100 mil mulheres. O número coloca a cidade na 173ª colocação no ranking de homicídio de mulheres das cidades brasileiras com mais de 10 mil habitantes. Depois estão Holambra (7,0), Santo Antonio de Posse (5,8), Hortolândia (5,4) e Sumaré (4,9). Todas essas cidades apresentam taxa superior à média nacional, que é de 4,8 mulheres assassinadas a cada 100 mil.

violência contra as mulheres

Para Maria de Fátima, o fato de cidades como Monte Mor e Hortolândia terem complexos penitenciários próximos de seus territórios é um dos motivos para terem as maiores taxas da região. “Uma questão que deve ser levantada é a influência do complexo penitenciário. Muitas vezes o indivíduo não tem bens e a esposa acaba mudando para a região. Quando sai da privação fica residindo ali. E estamos falando de uma população mais agressiva e violenta, onde o consumo de droga é elevado e isso libera uma conduta violenta”, explica.

A última vítima de homicídio do sexo feminino na região foi na última segunda-feira. A cozinheira Simone Nogueira de Araújo, de 39 anos, foi morta com ao menos 16 facadas espalhadas pelo corpo, na Vila Formosa, em Campinas. A Polícia Civil vai investigar a motivação do crime e até o dia seguinte do crime ainda não tinha suspeitos. A mulher foi assassinada a cerca de 100 metros de um bar onde estava. Amigos da cozinheira disseram que não sabem o que ocorreu e que ela não tinha desavenças. Já moradores do bairro alegaram que era costume ver a vítima em bares do bairro.

Para que haja diminuição de crimes violentos contra a mulher, a psicóloga forense defende ações como atuação mais efetiva da Polícia e a obrigatoriedade dos boletins de ocorrência de agressões à mulher terminarem em processo judicial. A longo prazo, ela diz ser necessária mudança na educação familiar. “A curto prazo a polícia precisa desempenhar o papel dela, para não deixar a própria vítima se defender. A Lei Maria da Penha deveria exigir que a mulher agredida fizesse a representação do crime. A facilidade em obter armas também contribui. E o mais importante é a educação familiar, não sexista, e que as famílias combatam qualquer tipo de violência e agressão”, finaliza a especialista.

SP tem menor média entre os estados

O Estado de São Paulo é o que tem menos mortes de mulheres no País, com média de 2,9 por 100 mil mulheres, a mais baixa média nacional, ao lado do Piauí. Em primeiro lugar aparece Roraima, com 15,3 mortas para 100 mil. Em segundo está Espírito Santo (9,3) e em terceiro Goiás (8,6). A cidade de Barcelos, no Amazonas, é a recordista nacional de assassinatos. No pequeno município de 27 mil habitantes e situado às margens do Rio Negro, 54 mulheres foram assassinadas em 2013, uma taxa de 45,2 para cada 100 mil mulheres.

Em Alexânia (GO), o índice é de 25,1 homicídios para cada 100 mil, e em Sooretama, 21,8. A taxa média do País, de 4,8, coloca o Brasil como o quinto mais onde mais se mata mulheres no mundo, atrás somente de El Salvador (8,9), Colômbia (6,3), Guatemala (6,2) e Rússia (5,3). O levantamento mostrou, ainda, que a maioria dos homicídios de mulheres no País foi com arma de fogo, meio responsável por 48,8% das mortes.

Em seguida está a utilização de objetos cortantes (25,3%), objetos contundentes (8%), estrangulamento e sufocação (6,1%). As mulheres negras foram a maioria das vítimas de homicídio no ano passado. Das 4.672 mulheres mortas de forma violante no País, 2.875 eram negras e 1.576 brancas. 

Escrito por:

Bruno Bacchetti