Publicado 13 de Novembro de 2015 - 21h34

Estudantes da escola Carlos Gomes durante mobilização contra reorganização que irá acabar com o Ciclo I e o EJA à noite na unidade

Alenita Ramirez

Estudantes da escola Carlos Gomes durante mobilização contra reorganização que irá acabar com o Ciclo I e o EJA à noite na unidade

A Promotoria de Justiça da Infância e da Juventude de Campinas questionou esta semana a direção de ensino sobre como a reorganização prevista nas escolas estaduais afetará a vida dos alunos.

O promotor Rodrigo Augusto de Oliveira deu um prazo de dez dias para que os dirigentes de ensino Leste e Oeste expliquem uma série de pontos. Um deles é se a medida poderá resultar em superlotação de salas de aula e as ações que se pretendem adotar para evitar esse problema.

Em Campinas, 16 unidades terão ciclo único a partir de 2016 e a Escola Estadual Sebastião Ramos Nogueira, no bairro São Bernardo, será fechada.

Hoje, 158 escolas estaduais de Campinas abrem os portões para uma megarreunião, chamada pela Secretaria de Estado da Educação como o “Dia E”, que pretende tirar as dúvidas de estudantes, pais, funcionários e professores sobre a reorganização. A mobilização acontecerá de forma simultânea em todas as 5 mil unidades do Estado.

A reunião é também uma medida de acalmar os protestos de alunos afetados com as mudanças, que levaram para as ruas de Campinas, São Paulo e outras cidades centenas de alunos contrários à medida nos últimos dias.

A repercussão das mudanças propostas nos ensinos Médio e Fundamental fez a Promotoria de Campinas questionar os dirigentes.

Em outro apontamento, o promotor questiona se o remanejamento “importará no deslocamento dos alunos em distância superior a 2 km de suas residências”. Caso isso ocorra, questiona se o Estado providenciará transporte para os alunos (o governo anuncia que a escola não ficará mais de 1,5 km do aluno transferido).

Outro apontamento é como será feita a comunicação aos estudantes e seus pais ou responsáveis e a efetivação da matrícula nas escolas para onde forem remanejados.

“A preocupação do Ministério Público é garantir que a reorganização não gere superlotação nas salas de aula, e que também seja garantido ao estudante a escola próxima à sua casa”, apontou Oliveira. “Estamos acompanhando de perto para assegurar o direito à educação de maneira menos traumática possível”, completou.

Dia E

Segundo a secretaria, o objetivo do "Dia E" é informar onde os estudantes estarão matriculados no próximo ano letivo e explicar os motivos que levaram a pasta a adotar a medida. Mesmo as escolas que não estão na lista de remanejamentos também estarão de portas abertas para fornecer quaisquer esclarecimentos sobre o projeto.

“Vamos responder aos questionamentos da Promotoria. Mas podemos adiantar que não haverá superlotação, senão não teria por que fazer a reorganização. Nenhuma sala terá mais do que 45 alunos”, rebateu o dirigente de ensino da região Oeste de Campinas, Antonio Admir Schiavo. “Os estudantes serão deslocados dentro do mesmo bairro em que já estudam, num raio de 1,5 km”, garantiu o dirigente.

Em relação à possibilidade de novos protestos hoje, o dirigente pediu que ocorram “de maneira sensata”. A estimativa é que 340 mil crianças e adolescentes estejam envolvidos diretamente. Em Campinas, a secretaria estadual informou que na escola Francisco Glicério os pais e alunos terão acesso a programas modelo de ensino. Durante toda a semana, as equipes gestoras enviaram convites e informaram os horários da recepção, que começa a partir das 8h.

Mesmo as escolas que não estão na lista de remanejamentos também estarão de portas abertas para fornecer quaisquer esclarecimentos sobre o projeto. Dentre os benefícios pregados pelo Estado com a reorganização estão a abertura de 2.956 classes hoje ociosas e diminuição de 18% de escolas de dois segmentos, passando de 3.209 para 2.635.

Protesto

Cerca de 400 alunos da Escola Estadual Carlos Gomes, no Centro de Campinas, protestaram ontem de manhã contra a reorganização escolar. Eles contestam o fim do Ciclo I, que vai do 1° ano ao 5° ano, do Ensino Médio e do EJA (Educação de Jovens e Adultos) no período noturno, na escola.

O Ciclo I será transferido para a Escola Francisco Glicério e o Ensino Médio para o colégio Adalberto Nascimento, no Taquaral. Além da concentração na escola das 7h até às 11h, os alunos fizeram passeata até a escola Francisco Glicério.

Os estudantes usaram cartazes, buzinas, panelas e faixas. Segundo os organizadores, apenas alunos do período matutino participaram do protesto, que teve o apoio de alguns professores.

Agentes de mobilidade urbana da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) acompanharam a manifestação. Os alunos percorreram as vias Benjamin Constant, Francisco Glicério e parte externa da Moraes Salles. Houve lentidão no trânsito em quatro pontos da região central.

A Polícia Militar considerou a manifestação pacífica. “Essa mudança não é transparente. Não se pensou até agora nas superlotações. Falta debate”, disse o professor de filosofia Murilo Maquim. “Vai fechar o período noturno desta escola e aqui estudam muitos alunos que moram em bairros distantes, mas optaram pelo Carlos Gomes porque fica mais próximo do trabalho”, frisou.

O diregente da Campinas Leste, Nivaldo Vicente, disse que o fechamento no período noturno ocorre porque a demanda local não era da região central, mas de bairros das regiões do Ouro Verde e Campo Belo. “Os alunos têm três opções perto de suas casas. Vai ficar mais fácil para eles. Estamos abertos à discussão.”

Estado revê fechamento em Piracicaba

A Secretaria de Estado da Educação recuou pela primeira vez e revogou o fechamento de uma das 94 escolas no processo de reorganização do ensino paulista. A Escola Estadual Augusto Melega, em Piracicaba, continuará funcionando como unidade da rede.

A escola entrou na mira da reorganização da gestão Alckmin que prevê um aumento das unidades de ciclo único e fechamento dos colégios com excesso de classes ociosas (sem alunos).

O recuo aconteceu após pressão da comunidade rural, de mães de alunos e estudantes da escola no Ministério Público e na Diretoria de Educação de Piracicaba.

“Fomos atrás dos nossos direitos. Em uma escola que está a pelo menos oito quilômetros de outras unidades, não podemos admitir a possibilidade de fechá-la. É a única escola nesta região”, afirmou uma das líderes do grupo de mães, Alexsandra da Silva Soveges.

“Ao aprofundarmos o estudo e conversarmos com a comunidade, percebemos que se tratava de uma escola rural com características muito peculiares. Atende basicamente filhos de trabalhadores de um pequeno bairro rural e de pessoas que moram em fazendas. Isso nos levou a rever a nossa posição”, disse o diretor regional de ensino de Piracicaba, Fábio Augusto Negreiros.

Segundo o Censo Escolar de 2014, a escola possuía 165 alunos no Ensino Fundamental e 77 no Ensino Médio.

A outra unidade que estava prevista para ser fechada, Antonio do Mello Cotrim, continuará fazendo parte da reorganização. Segundo o dirigente de ensino, o colégio foi pedido pela Prefeitura e deverá ser transformado em creche. (Agência Estado)

Oito unidades são ocupadas por alunos na Grande SP

A Polícia Militar confirmou a ocupação de oito escolas por estudantes contra a reorganização da rede estadual de ensino ontem na Grande São Paulo. As diretorias de ensino iniciaram negociações para a liberação das unidades.

A Escola Estadual Professor Pio Tellex Peixoto, em Jaguará, zona oeste de São Paulo, foi a última trancada pelos alunos, à tarde, mas o movimento era pacífico. Mais cedo, a Escola Estadual Dona Ana Rosa de Araújo, no Butantã, também zona oeste, foi ocupada. Os alunos entraram e trancaram o colégio.

No ABC paulista, a Escola Estadual Valdomiro Silveira, em Santo André, foi ocupada na noite de anteontem. Segundo a PM, integrantes da União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes) de Santo André invadiram o pátio e o estacionamento da escola por volta das 18h30. Está previsto o fechamento da unidade após a implantação das mudanças na rede pela gestão Geraldo Alckmin (PSDB).

Na manhã de ontem, os estudantes trancaram a escola com correntes e cadeados e impediram a entrada de funcionários e professores.

O governo do Estado conseguiu uma liminar para a reintegração de posse do prédio da Escola Fernão Dias Paes, em Pinheiros, na zona oeste, que chamou a atenção pela forte presença da PM no entorno.

A medida liminar obtida pelo governo vale para todas as escolas da Capital — também houve ocupações na Escola Estadual Castro Alves, na Vila Mazzei, zona norte, e na Presidente Salvador Allende Gossens, em José Bonifácio, zona leste.

A Procuradoria-Geral do Estado não informou como vai atuar sobre as ocupações em outras cidades — uma unidade foi tomada em Osasco, a Escola Estadual Professora Heloisa de Assumpção, e outra em Diadema, a Escola Estadual Diadema.

Três alunos deixaram, por volta das 15h, a escola Fernão Dias Paes para ir à audiência de conciliação com a Secretaria de Educação no Tribunal de Justiça. Houve confusão na saída porque apenas uma conselheira tutelar pôde acompanhar os alunos. As advogadas dos jovens não puderam entrar no veículo.

Os manifestantes cercaram o veículo e houve confusão com a polícia. O carro precisou avançar sobre os manifestantes.

Segundo a capitão da PM Cibele Marsolla, as advogadas não foram impedidas de acompanhar os alunos, mas haviam acordado antes com as conselheiras que iriam em carros separados.

“Como estava com muita gente por perto, muitos jornalistas, elas começaram a gritar que queriam ir junto e estavam sendo impedidas.” (Agência Estado)