Publicado 12 de Novembro de 2015 - 20h05

Por Eric Rocha

A atriz Bruna Linzmeyer no vídeo Meu Corpo, Minhas Regras, estrelado por atores e atrizes globais

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A atriz Bruna Linzmeyer no vídeo Meu Corpo, Minhas Regras, estrelado por atores e atrizes globais

A discussão de mais uma moção promete causar polêmica na Câmara Municipal de Campinas. O vereador Vinícius Gratti (PSD) protocolou um documento no qual apela ao Ministério da Cultura para que a pasta interrompa a veiculação do vídeo Meu Corpo, Minhas Regras, estrelado por atores e atrizes globais, e parte da divulgação do filme Olmo e a Gaivota. Segundo o parlamentar, o clipe faz apologia aos crimes de aborto e vilipêndio religioso.

O longa estreou nos cinemas do País no último dia 5 de novembro e conta a história de Olívia (Olivia Corsini), uma atriz que se prepara para encenar a peça A Gaivota, de Anton Tchekov.

No entanto, durante os ensaios ela descobre que está grávida e sofre um acidente enquanto a produção se desenrola. Em casa, durante um período de descanso forçado, o personagem precisa lidar com mudanças radicais na rotina, corpo e vida — o filme é dirigido por Petra Costa e Lea Glob.

O vídeo Meu Corpo, Minhas Regras, elaborado para ser divulgado nas redes sociais, foi produzido após diversos atores assistirem ao filme e aceitarem participar da gravação. Na produção, eles falam sobre o direito de escolha da mulher em relação ao próprio corpo, a possibilidade de gravidez indesejada e destacam a posição feminina nesse contexto.

“Toda mulher é dona do seu corpo, faço com ele o que quiser. Meu Corpo, minhas regras. Parece óbvio, né? Nada é fácil aqui”, afirmam vários artistas no vídeo. Os atores da Rede Globo Alexandre Borges, Bárbara Paz, Bruna Linzmeyer e Júlia Lemmertz são alguns que aparecem no vídeo. A divulgação gerou reação de grupos religiosos nas redes sociais.

Para Gratti, a mensagem transmitida pelo vídeo faz apologia aos crimes de aborto e vilipêndio religioso, ambos previstos no Código Penal.

“Se revela necessária e oportuna a apresentação da presente moção de apelo, a fim de proteger o direito à vida e os respeitos aos cultos e imagens religiosas, evitando a prática de reprovável conduta”, escreveu na moção.

O parlamentar quer que o Ministério da Cultura determine que os produtores do clipe interrompam a sua veiculação. O vereador foi procurado ontem pela reportagem por meio de ligações a seu gabinete e telefone celular, mas não retornou para comentar o assunto.

A moção quase foi votada na sessão da última quarta-feira. O autor da proposta discursava sobre ela quando o relógio chegou às 22h. Como ninguém havia pedido a prorrogação do encontro por mais duas horas, ele foi encerrado.

O vereador Gustavo Petta (PCdoB), contrário à moção, afirmou que o apelo causa “constrangimento”, promove a censura e contraria a liberdade de expressão. Presente durante a discussão na última quarta-feira, ele estava a postos para apresentar um pedido de verificação de quórum (havia poucos vereadores no plenário) para encerrar a sessão antes da votação, mas isso não foi preciso. “O problema maior não é você condenar o vídeo porque não concorda com o seu conteúdo. O grave é querer impedir a circulação dele.”

Diretora classifica atitude como machista

A diretora do longa Olmo e a Gaivota, Petra Costa, não poupou críticas e classificou a moção apresentada pela Câmara de Campinas como “machista”.

De acordo com ela, o vídeo questionado não é publicitário, e sim de arte. “O vídeo não faz apologia ao aborto, fala das questões silenciadas da mulher. A gente apenas toca na questão porque enquanto não falarmos sobre isso as mulheres vão continuar morrendo em abortos clandestinos”, defendeu.

A cineasta também pregou um debate construtivo sobre o tema. “O longa surgiu para mostrar o que se passa na cabeça da mulher durante os nove meses de gravidez. Esse é um tema pouco retratado no cinema."

Petra disse também que soube da polêmica ocorridana Câmara de Campinas com uma moção de protesto ao Enem, que incluiu texto feminista da escritora Simone de Beauvoir em uma questão. “Agora, a vítima sou eu”, afirmou a diretora. 

Polêmica Anterior

A Câmara de Campinas já havia causado polêmica em todo o País ao aprovar no final do mês passado uma moção de protesto, de autoria de Campos Filho (DEM), à questão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que citou um texto da filósofa francesa e escritora Simone de Beauvoir.

O apelo foi aprovado, mas gerou discussão entre os parlamentares. Foram 25 votos favoráveis e cinco contrários: de Carlão do PT, Pedro Tourinho (PT), Paulo Bufalo (PSOL), Gustavo Petta (PcdoB) e Ângelo Barreto (PT).

Campos Filho chegou a chamar de “demoníaca” a iniciativa do governo federal e exigiu a anulação da questão por ela, na sua opinião, afrontar um conjunto “de fundamentos jurídicos e o próprio Estado Democrático de Direito."

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Eric Rocha