Publicado 09 de Novembro de 2015 - 21h29

Por Eric Rocha

Campos Filho durante reunião da Câmara de Campinas conversa com o vereador Cid Ferreira

Elcio Alves/AAN

Campos Filho durante reunião da Câmara de Campinas conversa com o vereador Cid Ferreira

Um artigo publicado pela jornalista Eliane Brum, na versão eletrônica e brasileira do jornal El País, teceu duras críticas à Câmara de Campinas por causa da aprovação da moção de protesto à questão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que citou um trecho do livro O Segundo Sexo (1949), da filósofa e escritora francesa Simone de Beauvoir.

O texto tem como título “Parabéns, atingimos a burrice máxima” e chama atenção para o discurso do autor da moção, o vereador Campos Filho (DEM), que classificou como “demoníaca” a iniciativa do governo federal.

“O vereador nem sequer sabe em que século Simone de Beauvoir nasceu, viveu e produziu pensamento. Nem sequer tentou compreender o que a frase citada no Enem significa. Não é engraçado. É a ruína causando mais ruína. O que interessa é fazer barulho, porque o barulho encobre o vazio de ideias (…). O título deste artigo é esperançoso, mas não corresponde à realidade: a burrice não tem limites”, criticou a jornalista.

De acordo com Eliane, episódios semelhantes à moção de repúdio campineira, que antes aconteciam em municípios mais afastados e logo eram ridicularizados, passaram a acontecer em outros lugares, entre eles “na Câmara de Vereadores de uma das maiores e mais ricas cidades do Estado de São Paulo, no Sudeste do Brasil, uma cidade que abriga várias universidades, entre elas a Unicamp, uma das mais respeitadas do País”.

A jornalista também criticou a falta de resposta ao ato do Legislativo campineiro e disse que era de se esperar mais ações para buscar o diálogo, explicar quem é Simone de Beauvoir e até mesmo promover a “ocupação da Câmara, para produzir reação e movimento que permitisse o conhecimento”. Ela lembrou ainda a crítica ao caso feita pelo deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) e a polêmica envolvendo o promotor de Justiça de Sorocaba Jorge Alberto de Oliveira, que chamou a filósofa de “baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila”.

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”, é o trecho do livro da filósofa francesa citado no exame.

Sobre os argumentos da jornalista no artigo, Campos Filho afirmou que “faltou conhecimento ao comentário”. O parlamentar disse que não é contrário a Simone de Beauvoir ou às mulheres, e que. “por estar longe de Campinas”, Eliane Brum errou ao falar sobre a moção. “Uma coisa é moção de repúdio, que não existe regimentalmente, e outra é a moção de protesto. É mais suave, tem diferença”, disse. O vereador voltou a sustentar que a questão contraria o Plano Nacional de Educação ao incluir a ideologia de gênero na prova. “É nefasta a ideologia de gênero, que em nível nacional foi afastada.”

Campos Filhos exigiu na moção a anulação da questão por afrontar um “conjunto de fundamentos jurídicos e o próprio Estado democrático de direito”. O parlamentar disse que ainda aguarda a chegada de uma resposta do Ministério da Educação sobre o assunto.

Polêmica nacional

O apelo foi aprovado em 28 de outubro e gerou muita discussão entre os parlamentares. Foram 25 votos favoráveis e cinco contrários. Votaram contra Carlão do PT, Pedro Tourinho (PT), Paulo Bufalo (PSOL), Gustavo Petta (PcdoB) e Ângelo Barreto (PT). O artigo de Eliane Brum por causa da aprovação não foi isolado: a decisão da Câmara logo repercutiu e fez o nome de Campinas ganhar manchetes em todo o País, assim como já havia acontecido neste ano com os projetos “É gol da Alemanha” (que lembrava os 7 a 1 sofridos diante da Alemanha na Copa) e “Dia da Glória Campineira” (em alusão ao título do Guarani no Campeonato Brasileiro de 1978).

A moção também provocou um protesto na Casa na quarta-feira da semana passada. Com faixas e cartazes, cerca de 50 pessoas, entre elas representantes de movimentos sociais e coletivos que atuam em defesa da mulher, fizeram muito barulho durante a sessão ordinária. O apelo aprovado foi classificado de “machista” pelos críticos. A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Campinas também se posicionou contrária ao conteúdo da moção de protesto.

Escrito por:

Eric Rocha