Publicado 15 de Outubro de 2015 - 14h49

Por Carlos Augusto Rodrigues da Silva

Carlo Carcani Filho

Carlos Rodrigues

Da Agência Anhanguera

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Duas vezes medalhista de prata na história das Olimpíadas – em Atenas 2004 e Pequim 2008 -, o futebol feminino do Brasil sonha com a inédita conquista do ouro em casa, no ano que vem, no Rio de Janeiro. Objetivo possível ou utopia? A menos de dez meses para o início dos Jogos, o diagnóstico do técnico Oswaldo Alvarez é de que ainda é preciso muito trabalho. Em entrevista exclusiva ao Correio Popular, Vadão comentou sobre a preparação das meninas, admitiu que a Seleção não está entre as favoritas e falou sobre os métodos feitos para tentar driblar a falta de estrutura no país buscando ser mais competitivo contra as potências do esporte.

Há muito tempo se fala das dificuldades do futebol feminino no Brasil. Como você avalia hoje, depois de 18 meses no comando da Seleção?

O problema não está na Seleção, está nos clubes. Não temos futebol feminino no Brasil. Quando servem a Seleção, as meninas têm de tudo. Não na mesma proporção do masculino, mas nunca faltou nada a elas. O problema é quando voltam para os clubes daqui. Não tem preparo físico, parte tática, não tem nada. De 20 times do Campeonato Brasileiro, quatro ou cinco treinam como deve ser treinado.

Poderia dar um exemplo dessas dificuldades no futebol jogado aqui no Brasil?

De vez em quando vou pessoalmente nos jogos, mas no final de semana assisti pela TV o jogo entre Rio Preto e América-MG. Ainda eram dois times razoáveis, mas foi de dar dó. É lamentável o que tem de passe errado, mas é que essas meninas não treinam. Vão treinar com 17, 18 anos, dependendo do lugar. Outras entram em escolinhas masculinas. Tem menina que chega para gente e não sabe cabecear. São cinco, seis no meio de 30 que sabem bem o fundamento.

Lá fora é bem diferente, né?

Eu só tenho noção do que é o futebol feminino lá porque agora estou dentro. Fomos para a França, em Le Havre, e haviam sido vendidos 20 mil ingressos antecipadamente para um amistoso E lá, só entre o sub-6 e sub-8, são 100 mil crianças jogando futebol com orientação capacidade. Na Alemanhã, fizemos um jogo num estádio em que cabiam 15 mil pessoas e tinham 15 mil pessoas vendo o jogo. No Canadá, na época do Pan, ficamos em uma universidade e todo dia tinha time feminino treinando lá. Lá é como um compromisso social. No Brasil não encaramos assim, tratamos com preconceito, há essa ideia de que futebol é para homem, lá eles não carregam esse preconceito. O Brasil tem um potencial tão grande, o que tem de menina querendo jogar futebol, mas não tem lugar, orientação. Estamos bem aquém.

No exterior, o trabalho também começa na base. Aqui no Brasil você tem tentado fazer essa integração?

Nós padronizamos as seleções, montamos um conceito de tentar ficar o mais próximo possível. Não posso obrigar o técnico da base a jogar igualzinho a mim, mas precisa ter o mesmo conceito, a mesma ideia. No Mundial, padronizamos as bolas paradas do principal e do sub-20. É o que queremos fazer, mas na Seleção é mais difícil, porque na principal temos a permanente, mas nas outras não.

Para tentar diminuir esse abismo, foi criada a seleção permanente. Funcionou como você esperava?

Nós criamos a seleção permanente porque se não ficássemos treinando, pra colocar a parte tática, física, íamos passar vergonha. Fizemos isso e melhoramos muito. No Mundial, saímos num acidente de percurso, um gol no fim do jogo. Já no Pan ganhamos fácil porque o time estava voando taticamente e fisicamente. Agora, a maioria das meninas foi para o exterior porque com os salários que se paga aqui não dá para segurar aqui.

Para os Jogos Olímpicos, será mantida a programação?

Vai ser parecida, mas o problema é que tem muita menina saindo. Por um lado não me preocupa pois elas vão para campeonatos muito bons e estarão bem trabalhadas em termos táticos e técnicos, mas por outro não sei se vai dar para ficar o grupo todo junto por um período e isso influencia no entrosamento.. A ideia é que o Campeonato Brasileiro termine em 7 de abril e, daí em diante, a gente ficaria direto.

E com as meninas que jogam fora do país?

As que vêm de fora não tem jeito, só em Data-Fifa mesmo. Até falando com a Marta, vimos da possibilidade dela tentar jogar no Brasil, pelo menos em 2016, para poder ficar com a gente. Mas é muito difícil. Ela tem vários patrocínios e, se sai da Suécia e vem para o Brasil, deixa de jogar torneios de ponta e os valores caem pela metade.

Diante de tudo isso, quais as chances do Brasil nos Jogos Olímpicos e o que você espera dessa seleção?

Se a gente estiver junto e treinando, temos condições de brigar. Mas não somos mais favoritos, temos que ter consciência disso. Quando se fala de futebol feminino, você lembra de Zé Duarte, Renê Simões, nessa época o Brasil era um dos melhores. Hoje estamos entre o sexto, sétimo. Suécia, Canadá, Austrália, Estados Unidos, França, Japão, todos esses têm mais favoritismo, porque elas jogam e tem campeonatos competitivos.

Escrito por:

Carlos Augusto Rodrigues da Silva