Publicado 10 de Outubro de 2015 - 19h05

No livro Amazônia Indígena (Editora Record), o escritor, cientista social e dramaturgo amazonense Márcio Souza compartilha seu conhecimento sobre a população indígena da região, abordando desde o processo colonial às atuais polêmicas ambientais, passando pelos sucessivos genocídios que vitimaram as tribos.

Como militante da causa há 40 anos, o escritor reuniu artigos e textos escritos ao longo desse tempo, alguns inéditos no Brasil, reescritos para uma linguagem mais simples, como se fosse uma história de aventura. “Não é uma pesquisa científica, embora tenha embasamento, documentos históricos e pesquisas”, afirma.

Apesar do formato mais acessível, a obra transita entre ciências — história, antropologia, filosofia, arqueologia, demografia, economia e política — para informar e propor reflexões a respeito dos índios, que chegaram a compor uma população de cinco milhões de indivíduos, segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, e hoje são aproximadamente 800 mil, sendo que entre 1960 e 70 chegavam a 300 mil. Souza conversou sobre a obra em entrevista por telefone ao Caderno C.

Caderno C — Você gosta de dizer que são 40 anos de militância e não de pesquisa sobre os indígenas exatamente. O que te motivou a militar por eles?

Márcio Souza — A Amazônia é o maior estado de população indígena e nos anos 60, período de ditadura militar. A região foi muito sofrida pelos projetos econômicos do regime. Entre os principais personagens desse sofrimento estavam os indígenas. Populações tradicionais começaram a ser assassinadas e expulsas de suas terras pela invasão ao sul da região, por sulistas que vieram para cá achando que iam desenvolver a área. Grupos de intelectuais, professores, antropólogos, missionários luteranos, católicos, judeus, se reuniram aqui para dar apoio a essa população. Veio daí o meu contato e interesse com o tema.

A ditadura foi uns grandes períodos de extermínio?

Eu falo da ditadura porque foi o que eu vi, o que eu vivi, mas esse é um conflito de mais de 500 anos. O último ano tranquilo para os índios da América foi 1491. Em 1492, Colombo desembarcou lá. No Brasil, em 1500, Pedro Álvares Cabral, que era um homem muito mal-humorado, desembarcou na Bahia. Começaram os problemas, mas os índios nunca desistiram. Não serviram para ser escravos e Gilberto Freire escreve que eram todos preguiçosos. Até mesmo essa forma de aldeia foi criada para resistir ao colonialismo.

Como militante, de que forma você vê a questão indígena?

Na época que eu comecei a militar, muito jovem, a impressão que nós tínhamos, também compartilhada com Darcy Ribeiro, era a de que estávamos assistindo à extinção dos povos indígenas. Eles estavam sendo muito agredidos por qualquer tipo de coisa, pelos grileiros, latifundiários, missionários. Mas, a capacidade de resistência dos indígenas é muito maior do que imaginávamos naquele momento e hoje eles superaram. A taxa de natalidade é alta, aumentou a população nos últimos 40 anos, e muitos deles entenderam a sociedade brasileira e aprenderam a negociar sem perder sua cultura. Esse é um processo muito interessante.

Darcy Ribeiro foi um dos grandes pensadores que te influenciou?

Sim, éramos amigos e discutíamos muito sobre essas questões. Ele era antropólogo, como Eduardo Galvão, outra figura que nos inspirou muito, o Charles Wagley, meu professor na USP Egon Schaden, a professora Gioconda Mussolini. Eu sou amazonense, nasci aqui e moro até hoje em Manaus, e você pode nascer e morrer aqui sem conhecer nada sobre a Amazônia, porque fica protegido pela grande cidade. Então, foi São Paulo que eu abri os olhos para minha região com essas figuras, professores e amigos.

Qual é a situação atual?

Nós temos, digamos, duas províncias indígenas no Brasil. Uma no Xingu, que é protegida pelo Governo Federal, e outra no Alto do Rio Negro, na fronteira com a Colômbia, conhecida como Cabeça de Cachorro, onde está o maior município brasileiro, São Gabriel da Cachoeira, e ele é governado por índios. O exército tem um destacamento muito grande lá, tanto que os oficiais tem que falar pelo menos três idiomas da região. Isso foi uma mudança radical que aconteceu no final dos anos 1970, quando a secretaria de educação criou um setor para editar livros e cartilhas. O resultado é que hoje a maioria dos idiomas originários, falados há milênios, estão todos escritos. A região tem 32 línguas. Lá, o índio fala no mínimo a língua materna, a paterna, a do vizinho da aldeia, além do português, espanhol e muitas vezes o inglês se vai muito à Guiana Francesa. São poliglotas e tem a capacidade de entrar nos vestibulares das universidades federais e estaduais sem cota.

Você teve acesso facilmente a essas comunidades?

Atualmente não, porque já estou velho para caminhar mato adentro, mas eu viajei muito para todos os cantos. Agora, eu não sou antropólogo e nem me atreveria a ir em áreas onde não tinham sido contatados, mesmo porque é muito perigoso para os índios. Uma gripe pode ser um desastre para aquela tribo isolada. Eu trabalhei muito com liderança desses grupos, inclusive dei aulas sobre a história indígena da região e o triste é saber que muitos dos meus alunos foram assassinados ao longo dos anos 60, 70 e 80.

Você pensa em adaptar essa obra para a dramaturgia?

Não, não. Eu tenho uma coletânea de peças sobre a temática indígena, mas esse livro ainda não tem nada. Acabou de sair, nem foi lançado em todos os Estados. Aliás, ainda nem chegou a Manaus.