Publicado 10 de Outubro de 2015 - 19h05

Há certos fascínios que, guardados em algum lugar das nossas memórias, de vez em quando emergem para iluminar, com benfazejos toques, instantes do presente. Assim foi que, trocando pernas pela rua dos Alecrins, proximidades da Querubim Uriel, lembrei de certa ocasião em que fazia a mesma coisa, nos já distantes anos 60. Naquele dia do século passado, de repente, fui tomado, em fresca manhã de Outono, por agradável aroma de bombons impregnando o ar.

Na verdade estava por ali fazendo hora, pois, jovem ainda, na casa dos vinte e poucos, ia à residência da namorada que morava na Chácara da Barra, no outro lado da avenida Norte-Sul. Foi quando, percebendo um moço sair de prédio que ficava onde é hoje a Unip, comentei com ele: “Não pode haver nada melhor, numa bela manhã, do que este cheiro de bombons. De onde será que vem”?

— É daqui — ele apontou — neste local funciona uma fábrica de doces.

Conversamos rapidamente, expliquei que morava em São Paulo, mas vinha, frequentemente, ver a moça por quem estava apaixonado; e, só por causa do agradável cheiro que sentia no instante, garanti: “Sempre que precisar fazer hora, é por aqui que ficarei”.

De repente, o simpático interlocutor, com bem menos de 40 anos, me pediu para esperar; entrou no prédio e, logo depois, voltou trazendo um pacote.

— Isso — me entregou — é para você dar de presente à sua namorada. O perfume de bombons que se espalha vem dos ingredientes que manipulamos. Esta fábrica chama-se “A Campineira”; já ouviu falar?

— Sim, sim, claro — menti.

— Ótimo — ele esticou a mão, se despedindo — espero que você e sua amada gostem do que produzimos.

Na verdade, envolvido pelo gesto de gentileza fiquei tão agradavelmente surpreso, confuso, que esqueci de agradecer. E o tempo correu.

Agora, como se esta crônica fosse um filme, façamos um corte. Muito tempo depois, quando vim morar em Campinas e a indústria das esplêndidas guloseimas não funcionava mais no mesmo local daquela manhã dos anos 60, magicamente o efeito do aroma várias vezes voltou a me encantar. Descobri isso ao visitar um amigo que mora na rua Ana Jarvis. Papeando, lembrei do passado; e, imediatamente, senti o perfume de bombons no ar. Desde então, quando vou aos cafezinhos na padaria do Cláudio, em frente à Unip, o sortilégio se repete; e recordo do ótimo camarada que me deu de presente o pacote de doces e balas, que cometi a grosseria de não agradecer. Imperdoável.

Novo corte para a porta do Café Regina, faz alguns dias. Lá encontro o lendário odontólogo Ricardo Ferrari, que me diz:

— Meu caro, acaba de sair um livro imperdível, você não pode deixar de ler.

Satisfeito com a indicação, pedi o nome da obra, para compra-la; porém, o amigo foi mais objetivo:

— Fica frio. Amanhã trago e te empresto.

Efetivamente, 24 horas depois recebo o prometido. Ao mirar a capa, vendo a foto de um homem que a toma quase por inteiro, dei um berro:

— Santo Deus, Ferrari, estou procurando essa pessoa faz cerca de 50 anos e você, agora, a coloca ante meus olhos! Tenho singela dívida com este senhor. Um dia ele me deu um lindo, maravilhoso presente; e eu não agradeci...

Daí, apontando para a imagem, contei o caso ocorrido na longínqua manhã dos anos 60, que fez o encanto meu e da minha então namorada. Salientei que, apesar das modificações que o tempo esculpe nas fisionomias dos seres humanos, dava para reconhecer quem estava retratado na capa: simplesmente a simpática figura que, há meio século, me ofereceu os doces e bombons que perfumavam as manhãs naquele pedaço do Cambuí d’outrora. Comecei imediatamente a folhear o livro que é resumo, em 400 páginas, da vida do presenteador que me cativou num certo dia das nossas juventudes.

Bom, e a obra? Pois é, a obra, que em casa li avidamente, conta a saga do empresário Armindo Dias, hoje um dos homens mais importantes de Campinas e de São Paulo, dono de grupo empresarial imenso, que começou na pequena fábrica “A Campineira”. O belo volume foi escrito pelo jornalista Elias Awad, que reconstruiu, com precisa emoção, a história do cidadão português (compatriota de minha mãe, ela nascida em Santa Comba Dão, distrito de Viseu; ele em Lagarteira, distrito de Leiria) que chegou ao Brasil duro e construiu um império. A meu ver, para contar isso tudo apenas num livro, é pouco. Se os produtores cinematográficos do Brasil tiverem imaginação, tal impressionante trajetória poderá chegar às telas. E quero, desde já, sugerir um título para a película: Manhãs com Aroma de Bombons. Bom dia, empresário Armindo Dias. Com atraso de 50 anos, gratíssimo pelo presente que me ofertou, naquela linda manhã. Foram os melhores doces que já comi em toda minha vida.