Publicado 14 de Outubro de 2015 - 5h30

Projeções feitas pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do governo federal, mostram que o Sistema Cantareira pode recuperar o volume morto ainda neste ano. Caso chova dentro da média histórica nos próximos meses, aponta a simulação, o principal manancial paulista voltará a operar no azul (acima do nível zero) a partir de 22 de dezembro.Neste cenário, segundo cálculos do Cemaden, o Cantareira chegaria ao final da estação chuvosa, em 31 de março de 2016, com 42,2% de sua capacidade normal, excluindo as reservas profundas. Uma situação bem mais confortável que a registrada no mesmo período durante a crise hídrica: -10,3% em março deste ano, e 13,4% em 2014. No ano pré-crise (2013), o índice estava em 62,1% naquela data.O volume morto começou a ser usado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) em maio de 2014 como uma saída do governo Geraldo Alckmin (PSDB) para não decretar rodízio no abastecimento de água para a Grande SP, onde 8,8 milhões de pessoas dependiam do Cantareira antes da crise. Em um ano, a operação que bombeia a reserva estocada abaixo do nível das comportas já havia consumido R$ 120 milhões, incluindo as obras físicas. As projeções do Cemaden constam do relatório do dia 8. O órgão, que faz esse monitoramento desde maio de 2014, considerou em seus cálculos que o volume de água retirado do Cantareira para atender a Grande São Paulo e a região de Campinas seja de 17 mil litros por segundo neste mês (a média atual é de 14,8 mil l/s), 13,5 mil l/s em novembro, conforme determinação dos órgãos reguladores, e 17 mil l/s entre dezembro e março. Segundo as simulações, feitas com base em dados diários de precipitação e evapotranspiração potencial da água no manancial, o Cantareira pode recuperar o volume morto ainda mais rápido, em 63 dias, caso chova 25% acima da média nos próximos meses, e em 53 dias, se a chuva superar o esperado em 50%. Neste último caso, o sistema chegaria ao final de março com 100% da capacidade, segundo o Cemaden.Dados da Sabesp mostram que na última estação chuvosa, de outubro de 2014 a março deste ano, choveu no Cantareira 1.020 milímetros, 16,3% abaixo da média histórica (1.161 mm). Já na estação seca, de abril a setembro, o cenário melhorou e a precipitação acumulada na região foi apenas 2,1% abaixo do esperado, 389,3 mm, ante 397,5 mm de média. Neste mês, até a última sexta-feira, havia chovido 32,4% do esperado.Mesmo se chover 25% abaixo do esperado nos próximos meses, mantida a exploração do sistema, com o racionamento de água feito na Grande São Paulo, o Cantareira pode recuperar o volume morto em 108 dias, ou seja, no dia 24 de janeiro, situação melhor do que a registrada na mesma data este ano. Caso as chuvas fiquem 50% abaixo da média, a primeira cota do volume morto deve durar 176 dias. Ou seja, no início de abril de 2016, o sistema voltaria a usar a segunda reserva, que foi recuperada em fevereiro deste ano.Contraponto

Projeções do especialista em recursos hídricos Samuel Barrêto, gerente da ONG internacional The Nature Conservancy (TNC), mostram um cenário futuro para o Cantareira menos otimista do que os apresentados pelo Cemaden. Segundo ele, se chover dentro do esperado nos próximos meses, o sistema só deve atingir 40% da capacidade, considerado o nível de segurança do manancial, entre 2018 e 2020. “Essa projeção considera o padrão histórico de precipitação e o padrão atual de consumo de água. Por isso, é importante o alerta de que a crise não passou e as pessoas devem continuar mobilizadas”, disse. (Da Agência Estado)

Rios do PCJ têm vazão abaixo da esperada mesmo com chuvas

Embora as chuvas de setembro e outubro estejam acima da média, os rios das bacias do Piracicaba, Capivari e Jundiaí estão com vazões abaixo da esperada nesta época do ano. A vazão do Rio Piracicaba, um dos principais do Estado, está mais baixa que a de 2014, quando a região viveu a pior crise hídrica dos últimos 90 anos. Ontem à tarde, a vazão era de 19,4 metros cúbicos por segundo, em Piracicaba, conforme o sistema de medição usado pelo Consórcio das Bacias do Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ). No mesmo dia do ano passado, o rio tinha vazão de 40,8m3/s.

Rio Atibaia

A perda de volume de água, após as chuvas dos últimos dias, foi rápida. A vazão caiu 15% em 24 horas e está 70% abaixo da média esperada para este mês. No trecho que corta a região central da cidade, as pedras voltaram a aparecer.

O Rio Atibaia, que abastece Campinas, também tem nível baixo. A vazão, à tarde, estava em 5,83m3/s, na passagem por Valinhos, e se aproximava do nível crítico. O Rio Jaguari, também usado para abastecimento público, estava com 7,4m3/s — 4m3/s abaixo do esperado.

De acordo com o Consórcio PCJ, a queda nas vazões tem relação com a menor liberação de água do Sistema Cantareira para os rios da bacia, que diminui o volume dos rios, e com a inexistência de sistemas de reservação abaixo do Cantareira.

Os reservatórios de Pedreira, no Rio Jaguari, e Duas Pontes, no Camanducaia, projetados para garantir uma grande reserva de água para abastecimento da região, tiveram o início da construção adiado para 2016. (AE)

Relatório sobre a crise hídrica é entregue à ONU

Um relatório de entidades ligadas ao meio ambiente, à preservação e uso consciente da água e de direitos do consumidor foi apresentado para a Organização das Nações Unidas (ONU) ontem apontando uma série de violações aos direitos humanos na administração pública da maior crise da história do Estado por falta do recurso.

O documento foi elaborado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Greenpeace, e os coletivos Luta Pela Água e Aliança Pela Água e entregue a Leo Heller, relator da ONU para os Direitos Humanos.

Agora, o representante da organização no Brasil vai produzir uma carta de alegação para cobrar respostas dos governantes nos âmbitos estadual e federal. Segundo o relatório, houve falta de planejamento, superexploração do recurso, falta de medidas de contingência, ausência de participação e de transparência, interrupção “arbitrária” de abastecimento e aumento indevido de tarifa.

“O objetivo principal é subsidiar a ONU. Nesses dois anos em que a crise vem se tornando mais aguda, promovemos debates sobre as possibilidades (de enfrentamento). Mas não temos um ponto de contato transparente com o governo do Estado. Para resolver, precisa ter participação social e abertura do governo para ouvir especialistas e a população”, disse Rafael Poço, membro do coletivo Aliança Pela Água. “Acessar a ONU é mais uma tentativa da gente conseguir ter mais transparência sobre o que está acontecendo e dar visibilidade internacional”, afirmou.

O material leva em conta reportagens e artigos publicados pela imprensa e por acadêmicos. Também foi levado em consideração o relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE) afirmando que a crise hídrica “é resultado da falta de planejamento das ações da Secretaria de Recursos Hídricos” do governo paulista.

Heller, representante da ONU no País, disse que “o caminho a partir de agora é avaliar o relatório e elaborar uma consulta aos governos”, explicou. Ele acredita haver desrespeito aos direitos humanos na crise hídrica. Para Carlos Thadeu de Oliveira, gerente técnico do Idec, o Estado “viola os direitos à informação, o que é fundamental no Código de Defesa do Consumidor”. “Em diversas ocasiões as autoridades usaram de ironia e culparam a população”, disse.

Prêmio

Os representantes também criticaram o prêmio a que o governador Geraldo Alckmin foi indicado pelo deputado federal tucano João Paulo Papa na Câmara dos Deputados em Brasília. “Esse prêmio foi questionado logo após o anúncio. O governo está muito longe de receber esse prêmio por gestão de crise”, disse Pedro Telles, coordenador da Campanha de Clima e Energia do Greenpeace. (AE)