Publicado 13 de Outubro de 2015 - 5h30

O professor Guilherme Melo de Freitas associou conteúdos de sociologia com o uso das novas tecnologias e as características dos textos publicitários no projeto desenvolvido com os alunos das turmas de 2 ano do Ensino Médio da Escola Estadual João Lourenço, localizada no Cambuí, em Campinas. O conteúdo programático previa a discussão sobre o conceito de cultura de massa, mas, com o projeto desenvolvido durante o segundo bimestre deste ano, o professor conseguiu fazer também uma leitura crítica da publicidade e ainda criar um canal de vídeos para a expressão dos alunos na internet.

“Minha ideia principal era promover uma experiência mais concreta, próxima à realidade dos alunos na disciplina de sociologia, possibilitando um posicionamento autônomo e responsável”, explica o professor. Ao mesmo tempo em que o conteúdo era trabalhado, os conceitos também eram atualizados e discutidos numa visão mais contemporânea. Isso porque teorias como da indústria cultural e da cultura de massa (veja quadro nesta página), atualmente, têm sido rediscutidas, principalmente em função da atuação nas redes sociais digitais e na internet.

Após o conteúdo ser explorado de forma teórica e, de acordo com a proposta da disciplina, o professor buscou discuti-los a partir da relação com a juventude. “O questionamento que fiz foi de como, ao conhecer e dominar as técnicas utilizadas pela propaganda e pela indústria cultural de um modo geral, é possível gerar discursos diferentes e que façam refletir”, conta.

A partir daí, os estudantes foram estimulados a criar anúncios publicitários que, usando estratégias como persuasão e linguagem imperativa, fossem capaz de denunciar o consumismo e as contradições do mundo capitalista, pontos que os filósofos alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer, ao criarem o conceito de indústria cultural, já abordavam nos anos 1940. “Solicitei aos alunos, após a nossa discussão, que eles empreendessem, em grupos, algo que fizesse referência a algum produto, visando questionar os apelos feitos pela propaganda, expondo contradições.”

Tecnologias

Nesse ponto, foram introduzidos ao projeto os apetrechos tecnológicos. Usando os celulares e ferramentas gratuitas de edição de vídeo disponíveis na internet, os alunos criaram a Central de Propaganda ao Inverso, uma espécie de agência formada somente pelos estudantes em que os valores expostos pelas marcas e que estimulam o consumo fácil e imediato, são questionados. Ao mesmo tempo, a proposta do professor era promover reflexões sobre o conceito de indústria cultural, mostrando que, embora as condições nunca sejam as mesmas, é possível que os consumidores também tenham discursos críticos e mostrem que não são totalmente passivos em relação ao mercado e ao poder das mídias.

Críticas

Assim, os trabalhos foram concretizados em vídeos e imagens que, ao fazerem alusão direta ou indireta a algum produto, geram reflexões sobre suas propagandas. Um dos grupos, por exemplo, decidiu estabelecer referência a uma marca de roupas que enfrenta denúncias por utilizar trabalho escravo em suas confecções. Um dos alunos, então, estampou a camiseta feminina da marca com imagens de escravos. E, na etiqueta, no lugar em que apareceria a palavra “woman” (mulher, em inglês), ele substituiu por “inhuman” (desumano).

Outra equipe buscou criticar o anúncio de uma operadora de telefonia celular que, em seu slogan, enfatiza a facilidade de acesso e a cobertura do sinal. No entanto, a experiência dos alunos mostra o contrário: mesmo num grande centro como Campinas e num bairro de localização privilegiada, como o da escola, nem sempre o sinal funciona. As alunas do grupo fizeram um vídeo satirizando o fato de que, para conseguirem usar os serviços contratados, precisavam não ter “fronteira” (palavra usada na publicidade da empresa) para encontrar os pontos com sinal da operadora.

Os grupos puderam escolher livremente as publicidades que pretendiam satirizar, desde que conseguissem relacioná-las aos conceitos trabalhados em sociologia. Assim, outro grupo mostrou como os cosméticos, em geral, favorecem um padrão de beleza: os componentes criticaram a preocupação das marcas em vender produtos para cabelos lisos e para mulheres brancas, ajudando a favorecer preconceitos em relação às negras e às que têm cabelos crespos.

Como na idade dos estudantes, em geral com 16 anos, os fast-foods fazem parte da alimentação com frequência, uma inquietação dos próprios alunos fez surgir outra crítica: o fato de que as imagens dos lanches nos cardápios e nos comerciais são sempre maiores e mais chamativas do que os lanches comercializados. Para isso, um grupo de estudantes comparou as imagens publicitárias com os sanduíches que eles mesmos compraram naquela semana em uma grande rede. “Eles não só puderam pensar no apelo e na criação de desejos, próprios da publicidade, como também divulgaram suas críticas, o que mostra a capacidade que temos hoje de elaborar vídeos e fazer uso da própria mídia para apresentar outras versões. Com isso, estudamos o conceito de indústria cultural ao mesmo tempo em que mostramos a possibilidade de questioná-lo pela tomada de consciência”, avalia o docente.

Difusão

O trabalho com os cerca de 80 alunos – das três turmas de 2 ano – deu tão certo que foi expandido. Todos os vídeos foram postados num canal especialmente criado para isso no YouTube, site de compartilhamento na internet. Só que a turma se empolgou e continua produzindo não só críticas à publicidade, mas também vídeos sobre outros conteúdos da disciplina, como divisão social do trabalho e as contribuições de autores clássicos da área, como Max Weber (1864-1920).