Publicado 13 de Outubro de 2015 - 5h30

A minirreforma política sancionada pela presidente Dilma Rousseff (PT) no final de setembro deve mudar o panorama eleitoral de Campinas no pleito de 2016. Com a proibição do financiamento privado das campanhas, julgado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), candidatos a prefeitos e vereadores, na teoria, ficam com recursos mais escassos para propaganda e contratação de cabos eleitorais.

A reforma prevê ainda redução do período de campanha e do tempo dos candidatos na televisão. Superproduções cinematográficas, com efeitos digitais e de edição, também estão proibidos. A ideia é que o pacote deixe as campanhas mais baratas e igualitárias. Especialistas em ciências políticas e marketing político consultados pelo Correio afirmaram que as mudanças, ainda que pequenas, devem deixar o processo eleitoral mais democrático. No novo cenário, ganham força as estratégias nas mídias sociais, onde ideias bem trabalhadas podem ter mais chances de sucesso, independentemente dos recursos financeiros do candidato.

O juiz eleitoral de Campinas e diretor da Cidade Judiciária, Luiz Antonio Alves Torrano, acredita que o fim do repasse de empresas para candidatos é o principal avanço da reforma até agora. Dilma vetou o artigo que liberava o financiamento, contra a vontade de grande parte de deputados e senadores. Agora, o grupo liderado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), tenta votar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que libera de novo a doação, mas Torrano acredita que o documento tem poucas chances. “O financiamento apenas público é importante porque, de certa forma, torna iguais as chances de todos os candidatos. É uma reforma que vai ao encontro da democracia.”

Se a PEC não passar, o fim do financiamento empresarial terá impactos na forma de se fazer campanha e os partidos precisarão se reinventar em 2016. O professor de comunicação e marketing político da Universidade Mackenzie Adolpho Quieroz disse que as agências vão se voltar principalmente para internet, que deve assumir de vez o protagonismo no marketing político. “A internet é o único espaço que ainda é gratuito. Devem ser intensificadas as visitas corpo a corpo também. E a sujeira de papel e cavaletes que se via antes, tende a acabar.”

Queiroz acredita, no entanto, que o fim dos recursos privados pode prejudicar os candidatos novos. “Isso porque os nomes mais lembrados são aqueles que já estão no poder. Os pequenos não terão armas e devem perder de goleada.”

Para o publicitário e especialista em marketing político de Campinas Matheus Zica, as agências de propaganda mais tradicionais, habituadas a fazer grandes campanhas para a televisão, sentirão mais a falta das verbas polpudas para publicidade. A internet e as redes sociais surgem, então, como um trunfo e as empresas que trabalham com mídia on-line há mais tempo devem sair na frente. Zica disse que sua agência, a PalnoE, especializada em marketing político digital, já está sendo procurada por candidatos, um ano antes do pleito.

“Com a possibilidade menor de descarregar material na tevê ou na rua, com um volume enorme de imagem dele, como era feito antes, o candidato terá que se antecipar. E as agências terão que trabalhar de verdade o conteúdo”, disse. Para compensar a redução no tempo de televisão, a agência do publicitário criou algumas alternativas, como minivídeos, de poucos segundos, para expor ideias dos candidatos.

As direções dos maiores partidos de Campinas concordam que a forma de se fazer campanha deve mudar. O presidente do PSB, Wanderley de Almeida, aposta na internet como principal ferramente de marketing em 2016. “Mobilizações na internet ganharão mais espaço, por serem eficientes e não gerarem custos. O candidato que tiver mais facilidade para ir para a campanha de rua, ao encontro do eleitor, também vai sair na vantagem”, afirmou. (Colaborou Eric Rocha/AAN)

Ação voluntária de militantes tem importância reforçada

O cientista político da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Valeriano Costa acredita que a militância também ganha importância em 2016, com o fim de financiamento de campanha. Se a fiscalização nas novas normas for efetiva, a verba para cabos eleitorais pagos deve minguar consideravelmente. Assim, partidos com filiados ativos e atuantes terão vantagem durante a campanha. “E os militantes não cobram como cabos eleitorais. Mas, se começar a valer mesmo em 2016, as eleições serão um grande teste para ver se a reforma deu certo ou não.” O presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) em Campinas, Casemiro dos Reis, aposta na tradicional militância petista com o fim de financiamento privado, já que, ao contrário de outros partidos, segundo ele, o gasto com cabos eleitorais petistas é muito menor.

“O PT tem uma militância voluntária muito grande, enquanto em outros partidos isso é pago.

A tendência é a mudança favorecer o partido nessas eleições”, declarou. O coordenador regional do PSDB em Campinas, Carlos Alberto Cavallaro, diz que a reforma muda pouca coisa para o partido. “Entre os vereadores, a maioria tem financiamento próprio, da família mesmo.” (CP/AAN)