Publicado 11 de Outubro de 2015 - 5h30

Faz cinco anos que sua busca por ruínas é incansável. Já tem gravados 30 vídeos e catalogados e visitados cerca de 70 locais abandonados em Campinas e região. Grande parte está na zona rural, e quase sempre o acesso é difícil e perigoso. O campineiro Daniel Pátaro, de 37 anos, é o verdadeiro caçador de ruínas, e no Brasil o principal nome do movimento denominado mundialmente de Urbex (Exploração Urbana), que se propõe justamente à procura de espaços urbanos desabitados. Suas produções estão em um canal na internet, e já contabilizam mais de 200 mil visualizações. É autor de curta e longa metragens sobre o tema e neste ano lança um novo filme, que mostrará o gradativo desaparecimento do cinturão verde em Campinas.

A caça parece ser viciante para Daniel. De bicicleta, percorre centenas de quilômetros até chegar ao destino a ser explorado. Com a ajuda de um software utilizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o fotógrafo pesquisa e localiza exatamente o alvo a ser alcançado. Calcula a dificuldade e entra. Ou invade. “Muitas ruínas ficam em propriedade particular. E em muitos casos é preciso invadir o espaço para chegar à ruína”, revela. A infiltração sem ser convidado é a adrenalina do Urbex. Mas Pátaro, de antemão, divulga em seus vídeos como mensagem de alerta para que as pessoas não se arrisquem da maneira como ele faz.

“Invadi uma propriedade em Paulínia e a polícia foi chamada. Como estava com os equipamentos logo viram que não teria outra intenção a não ser filmar. Conversamos e fui liberado”, relembra. O urbex campineiro corre as trilhas sozinho, e recebe semanalmente pedidos de admiradores do seu trabalho para que revele a localização das ruínas. Mas não passa. “É muita responsabilidade colocar uma pessoa que não conheço em risco.”

Na região dos distritos de Joaquim Egídio e Barão Geraldo muito já foi desvendado por ele. A seis quilômetros do Centro de Barão, por exemplo, encontrou há três anos uma igreja datada de 1890, com os vitrais amarelo e azul intactos, e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida na fachada da construção. A vegetação encobrindo as antigas estruturas é o detalhe que mais chama a atenção do explorador.

“Os exploradores têm diversos olhares para as ruínas. O que me fascina é observar a natureza se reintegrando. As plantas crescendo dentro das casas, o desaparecimento das ruas e pavimentações, a vegetação se alastrando por todas as partes. Dá pra perceber que ali, o pensamento humano está desaparecendo”, acredita. Um dos locais desvendados em uma fazenda de Holambra chamou a atenção de Pátaro. Uma fonte desativada ainda estava com as moedas centenárias dentro, da época da vinda dos imigrantes holandeses naquela região.

A partir deste ano Pátaro pretende ampliar suas explorações para um raio de 25 km de Campinas. Ainda assim, disse que tem na sua lista 120 potenciais ruínas para serem visitadas somente na cidade. Ele trabalha em um projeto maior, pautado em estudos e mapas que deverão revelar muita coisa escondida nos rincões do município. “Antes devo lançar o Terra Insólita, um documentário que avança na questão da obtenção de energia para nossas ações cotidianas. Também mostra o desaparecimento do cinturão verde de Campinas, e traz entrevistas com moradores da zona rural”, adiantou. O trailer já pode ser conferido em seu site (etcvi deoestudio.wordpress.com)

Licença

Para entrar em uma ruína, Pátaro conta que antes permanece uns 30 minutos em silêncio, tentando decifrar sons que possam acusar a presença de alguém. “Peço permissão e então entro. Esses locais têm muita energia, e às vezes a impressão é que mesmo em ruínas e vazio o local parece estar habitado”, relata. Recentemente, em uma de suas investidas, ele entrou em uma construção, e ao apontar na porta para atravessar um túnel relata que foi lançado para trás, por algo que passou por ele. “Escutei um barulho e de repente fui jogado no chão, mas não vi nada”, contou, mostrando o cotovelo ainda ralado pela queda. Em uma sede onde funcionou um laboratório de uma conhecida fazenda da região de Jaguariúna, o explorador teve também a sensação que havia gente habitando o local.

Também teve ocasião em que Pátaro ficou perdido, e não conseguia sair das ruínas. “Faltava mais uma hora de luz do dia e não encontrava como sair do lugar. Me ajoelhei, pedi perdão, desculpas por estar ali e na sequência encontrei a saída”, revela. Apesar dos locais serem carregados de histórias, o fotógrafo disse que não se preocupa muito em saber detalhes mais aprofundados sobre o ambiente, tanto que publica junto com seus vídeos pequenas explicações sobre onde é o local (município) e o que foi ou o que parece ser sobre o que visualizou e gravou. Munido de câmeras GoPro, tripés e outros acessórios, Pátaro vai desvendando lugares que muitas vezes estão dentro de propriedades particulares de grandes empresários e que não preservam a história que possuem em seus quintais.

Curta já participou de dez festivais

Pedagogo formado, Pátaro é dono de uma produtora de vídeo e trabalha no Polo Cinematográfico de Paulínia. Tem no currículo um curta metragem que participou de dez festivais e foi indicado para melhor roteiro. Chama-se Zona Perdida, uma expedição a uma mata no norte de Campinas que revelou mais de sete ruínas, inclusive a igreja abandonada em Barão Geraldo, como já relatado. No ano passado lançou o longa Neblina, junto com Fernanda Machado, em que visita as ruínas da estação de trem de Paranapiacaba, na serra do litoral paulista, para construir uma tese sobre o elo perdido da história da concentração de poder no mundo. Paranapiacaba é um distrito do município de Santo André. Surgiu como centro de controle operacional e residência para os funcionários da companhia inglesa de trens São Paulo Railway. (GA/AAN)