Publicado 10 de Outubro de 2015 - 5h30

Ameaçada de ser esvaziada por causa da reorganização escolar proposta pela Secretaria Estadual de Educação, a Escola Estadual José Leme do Prado é considerada referência em Valinhos. A unidade, que fica na Vila Santana, vive dias de tensão por causa da possibilidade de fechamento e transferência de cerca de 650 alunos. Pais, professores e alunos protestam contra a medida e tentam reverter o quadro, apesar de uma decisão oficial ainda não ter sido anunciada pelo governo estadual. O mesmo acontece em outras cidades paulistas, com movimentos sendo organizados para resistir à proposta de redução do número de escolas.

A Leme do Prado existe há 47 anos e abriga classes do 6 ao 9 ano do Ensino Fundamental (à tarde) e dos três anos que compõem o Ensino Médio — nos períodos matutino e noturno. Segundo professores, ontem durante todo o dia, pais e responsáveis foram convocados para participar de reuniões com a diretoria. Os encontros aconteceram para que eles fossem informados sobre a reorganização que o Estado pretende fazer. “Estamos sem chão, com alunos e professores tristes e chorando. Os diretores estão obrigados a ficar em silêncio. Alguns professores sabem, mas ficamos falando só na possibilidade até agora”, disse o professor de história Paulo Alberto de Andrade, um dos líderes do movimento que tenta manter a escola aberta.

A tristeza dos últimos dias, segundo pais, docentes e alunos ouvidos pelo Correio, se justifica pelo projeto pedagógico da escola, considerado referência. A unidade seria uma das poucas com um grêmio estudantil ativo e que organiza anualmente feiras de ciências e culturais. O grande orgulho, no entanto, é a participação há dez anos no projeto MiniOnu, comandado pelo Departamento de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas). Por causa dele, todos os anos alunos de escolas de todo o País se reúnem na capital mineira, Belo Horizonte, para participar de simulações dos comitês que integram a Organização das Nações Unidas (ONU), com o objetivo de discutir temas internacionais.

A polêmica envolvendo o possível fechamento da Leme do Prado casou justamente com a edição deste ano do MiniOnu. Nove alunos embarcam hoje para participar do projeto em Minas. Segundo a professora de geografia Sônia Regina Pinto Soares, parte dos gastos da viagem será financiada por uma verba federal obtida em 2014. A escola de Valinhos tem sido a única unidade pública estadual do Brasil a participar dos trabalhos. “Mesmo que a gente consiga levar o projeto para outra escola, não será mais a Leme do Prado. São dez anos consecutivos, somos referência dentro do MiniOnu por estarmos constantemente lá. O ano inteiro os alunos se encontram para estudar relações internacionais. Que escola pública tem isso?”, questionou a docente.

A advogada Rossana Teixeira Pereira é mãe de um aluno do Ensino Médio e uma das principais vozes que tentam resistir a um eventual fechamento. Para ela, a fama positiva da unidade se justifica por causa do bom trabalho desenvolvido pelos professores do local. “Essa escola sempre estimulou e gerou benefícios para os alunos”, contou.

Para tentar barrar o possível fechamento da Leme do Prado, pelo menos 200 pessoas lotaram na última terça-feira o plenário da Câmara Municipal de Valinhos. Na ocasião, um aluno e um professor usaram a tribuna para alertar os vereadores sobre a situação. Uma moção de apelo ao governo do Estado, com cópia para Assembleia Legislativa, será encaminhada pela Câmara com o objetivo de evitar que alguma escola estadual de Valinhos seja efetivamente fechada.

Além da Leme do Prado, também correriam esse risco outras duas unidades: a Américo Belluomini, na Vila Progresso, e a Maria Neiva Abdelmassih Justo, no Jardim América 2.

Campinas e Hortolândia têm protestos contra alteração

Pelo menos mais duas manifestações contra possíveis mudanças em escolas estaduais foram registradas ontem na região. Alunos, pais e professores da Escola Estadual Milton de Tolosa, no Jardim Leonor, em Campinas, protestaram pela manhã contra o suposto fim das aulas do Ensino Médio na unidade. Segundo a organização, pelo menos 200 pessoas saíram da escola por volta das 7h, na Rua Maestro Salvador Bueno de Oliveira, e chegaram acessar a Marginal do Piçarrão. A manifestação, no entanto, foi curta e, de acordo com a Emdec, não causou grande impacto no trânsito na região.

Em Hortolândia, a passeata foi no final da tarde e percorreu as ruas do bairro Jardim Nova Hortolândia. De acordo com a Polícia Militar, cerca de 60 pessoas saíram pelas ruas do bairro, mas também não houve reflexo no fluxo de veículos. Os manifestantes protestaram contra o suposto fechamento da Escola Estadual Raquel Saes Melhado. O local abriga cerca de mil alunos do Ensino Médio.

Segundo a Secretaria de Estado da Educação, a reorganização da rede estadual de ensino tem por objetivo reduzir já para o ano que vem o número de unidades que abrigam os chamados três ciclos de ensino (1 ao 5 ano do Ensino Fundamental, 6 ao 9 ano também do Fundamental e o Ensino Médio) e aumentar a quantidade de escolas que funcionam com apenas um deles. Caso haja a necessidade de transferência de alunos para outras unidades, o governo estadual diz que respeitará o limite de 1,5km entre as escolas. De acordo com a pasta, os locais que serão esvaziados podem ser entregues para outros fins, como a instalação de creches ou pré-escolas pelos municípios .

Em nota, a Diretoria Regional de Ensino de Campinas afirmou essa semana que ainda não há uma relação destes locais. “As escolas com mais de um ciclo ainda funcionarão, devido às diferenças demográficas e as necessidades por escolas para diversas faixas etárias em algumas regiões”, diz o texto. O estudo que definirá as selecionadas ainda está em andamento e deve ser divulgado até o dia 14 de novembro. Na data, será realizada uma megarreunião entre escolas e comunidade para explicar como se dará a reorganização.(ER/AAN)

Na Capital, manifestação tem um preso

Após quase três horas e meia de protesto e cinco quilômetros percorridos, terminou por volta das 11h30 a manifestação de estudantes realizada ontem em São Paulo contra a decisão do governo estadual, que dividiu os colégios estaduais por ciclos de ensino, obrigando os alunos a mudar de escola a partir do ano que vem. O ato começou às 8h, na Rua Augusta, e 20 minutos depois os alunos interditaram uma faixa da Avenida Paulista. No fim da manifestação, os alunos estavam em frente à Secretaria Estadual de Educação. Segundo a Polícia Militar, uma pessoa foi presa durante o protesto.

De acordo com a diretora executiva da União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes), Natália Duarte Santo Prete, a manifestação foi em defesa dos estudantes e da educação. “A realidade é que há 50 alunos em cada sala de aula e querem colocar mais 20 com o fechamento de várias escolas. Sem contar que muitos estudarão longe de suas casas e outros, antes de chegar à sala de aula, terão de levar o irmão em outra escola. Além disso, muitos professores e funcionários devem ficar desempregados.” (Agência Brasil)