Publicado 10 de Outubro de 2015 - 5h30

O Dia da Criança terá um sabor especial para dois irmãos, de 9 e de 10 anos, que retornaram anteontem de Monte Santo, na Bahia, para casa da família adotiva, em Campinas. Afastados há três anos dos pequenos, a data também ficará marcada na vida dos pais afetivos, A.P.S. e A.P., que receberam os filhos com muita alegria e emoção. Os garotos fazem parte do grupo de cinco irmãos adotados por famílias de Campinas e de Indaiatuba, envolvidos em um imbróglio judicial, com repercussão nacional. Eles foram arrancados dos lares afetivos, sob a acusação de tráfico de crianças e irregularidades no processo de adoção, e devolvidas para os pais biológicos.

Três anos após a separação, quatro das cinco crianças adotadas já foram devolvidas às famílias afetivas pela própria mãe biológica, Silvania Maria da Mota Silva, que reconheceu não ter estrutura para cuidar das crianças e viu na entrega uma forma de proteger os filhos “da morte ou do crime”.

Após um convívio de quase dois anos com os pais da região de Campinas, em 2012 as crianças voltaram para a Bahia. Dois anos depois, A.P.S. retomou o contato com os filhos por telefone, por uma iniciativa da Promotoria de resgatar os vínculos entre as crianças e os pais afetivos, além de tentar uma aproximação entre pais adotivos e biológicos. Na quinta-feira, a mãe biológica desembarcou no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, com as duas crianças. Segundo A.P.S., a chegada dos filhos sempre foi esperada. Enquanto travava uma batalha na Justiça para ter as crianças “embaixo de suas asas”, ela ficava imaginando quais seriam suas reações no dia em que esse momento chegasse.

“Eu estava em estado de choque, fiquei amortecida. Abracei muito as crianças e a Silvania. Conversei muito com ela. Tê-los aqui de novo é surreal. Agora me sinto mais segura e fortalecida para continuar lutando por eles”, afirmou. A mãe adotiva, que é professora, conta que os meninos se mostraram tímidos no aeroporto, mas bastou chegar em casa para que todas as lembranças e trocas de afeto fossem resgatadas. “D, subiu direto para o quarto. O R. foi mexer nas coisas dele, encontrou um jogo que tinha feito na escola e perguntou: tudo está no mesmo lugar, do jeito que a gente deixou? Esses três anos longe não apagaram a memória deles”, conta a mãe.

Ontem, enquanto os pais conversavam, os garotos exploravam os brinquedos e o imenso quintal da casa, em um bairro de chácaras. A atenção do pai e da mãe de Campinas era requisitada a todo o momento. A.P.S. conta que vai aproveitar o final de semana para “matar a saudade” dos filhos e na terça-feira já dará início a busca por vaga em escola e para integrá-los no convívio e na rotina que tinham antes. “Agora estamos em paz e vamos levar uma vida de alegria. Mesmo as lutas, que vão continuar, se tornarão mais leves porque vamos tê-los ao nosso lado.” Ela acrescenta ainda que a mãe biológica teve, além de um gesto de amor, muita coragem de voltar atrás. “Ela mesma fez justiça para os filhos, dando um futuro a eles”, contou.

As quatro crianças que retornaram já estão com as três famílias afetivas de Campinas e Indaiatuba. A primeira das irmãs, uma menina de 4 anos, veio em junho. O segundo, um garotinho, de 5 anos, foi entregue pela mãe biológica na semana passada. Nesta quinta-feira chegaram os dois outros irmãos. As crianças foram entregues por desejo da mãe biológica, que oficializou a entrega da guarda para as famílias de São Paulo. Uma criança ainda permanece na Bahia sob a guarda da família biológica.

A advogada Lenora Thais Steffen Todt Panzetti diz que a volta dos meninos representa o fim de um ciclo. “A reação das crianças ao encontrar seus lares aguardando seu retorno para as famílias afetivas é a clara demonstração da manutenção dos vínculos afetivos, mesmo após quase três anos de discussão judicial. Meu coração está em paz e a justiça dos homens e a de Deus começam a trilhar o mesmo caminho: a felicidade e o futuro brilhante que aguarda por essas crianças. O amor venceu”, completou.

O processo de adoção dos irmãos baianos continua em andamento.