Publicado 10 de Outubro de 2015 - 5h30

Quando o irmão Ludvig, igualmente milionário, morreu durante uma temporada em Cannes, um jornal local sapecou a manchete: “O mercador da morte está morto”. Impressionado, o verdadeiro inventor e fabricante da dinamite, o sueco Alfred Nobel, imaginou que seria brindado com necrológios implicáveis, mais cruéis.

Sete anos depois (novembro de 1895), em Paris, redige um testamento legando o grosso da fortuna (cerca de 472 milhões de dólares em valores da época) para um fundo destinado a premiar anualmente cinco figuras de qualquer nacionalidade que ofereceram importantes contribuições à humanidade no campo da Química, Física, Medicina, Literatura e Paz.

A atribuição na última quinta-feira do Nobel de Literatura à jornalista bielo-russa Svetlana Alexievich (nascida na Ucrânia) está destinada a provocar um escarcéu local e internacional talvez superior às premiações de Boris Pasternak (1958 ) e Alexander Soljenitsin (1970). Ou da não premiação de Liev Tolstoy (1828-1910) por conta de um mal-entendido no regulamento. Previsto para obra comprometida com “uma direção ideal”, o júri entendeu-a como obra “idealista” assim eliminando o nome do barbudo conde e utopista (também do teatrólogo norueguês Henryk Ibsen).

Outro russo que causou enorme estrago na Cortina de Ferro embora não sendo escritor ou poeta, mas físico e pacifista, Andrei Sakharov ajudou a derrocada da imagem pacifista da União Soviética. Em 1975, ao ganhar o Nobel da Paz a despeito de sua contribuição no campo da física nuclear, consagrou-se como intransigente defensor da liberdade de pensamento e expressão. Seguindo Einstein comprovou algo extraordinariamente simples: ciência e humanismo podem ser convergentes.

Svetlana Alexievich é herdeira do celebrado fervor da “alma russa”, mas também da bravura das suas mulheres (homenageadas em uma das suas primeiras obras, “A guerra não tem rosto feminino” sobre as mulheres que combateram o inimigo nazifascista no período 1941-1945). Intensas, passionais, destemidas, prontas para o supremo sacrifício elas nos remetem tanto à sublime Anna Karenina como à indomável Anna Politkovskaya, jornalista dissidente, assassinada em 2006 pelo estado policial que o totalitário Vladimir Putin herdou do bolchevique Joseph Stalin.

A contundência da obra, as perseguições, mordaças e exílios impostos à autora e agora o reconhecimento mundial de ambos certamente ajudarão a implodir o universo de burlas, farsas, patranhas e canalhices montado a ferro e fogo pelos caudilhos Putin e o pupilo Alexander Lukashenko (presidente vitalício da Bielo-Rússia desde sua criação formal em 1994).

“Agora, eles terão que me ouvir”, disse Svetlana numa das primeiras entrevistas depois de anunciado o prêmio. Censurada, sobretudo banida do meio em que vive, Svetlana é uma não pessoa, proibida de ser, existir, manifestar-se. Não pode ser mencionada, citada, vaiada ou aplaudida. Escreve incessantemente, porém não se fala dela – a não ser no Exterior. A condição de morto-vivo é sustentada por um sutil conjunto de embargos destinado a perenizar os “marginais”. Não é invenção soviética, é um diabólico artifício dos sistemas autoritários e intolerantes facilmente encontrável nos quatro cantos do mundo.

A premiação da jornalista que escreve livros impedida de manifestar-se em jornais, revistas ou mesmo portais deve provocar outros benfazejos estrondos, explosões e estalos. As vozes que Svetlana Alexievich registra nas suas demoradas investigações assim como a força com que as transcreve é um ostensivo desafio — mais do que isso, um repúdio — ao mundanismo, superficialidade e simplificação que hoje parece dominar parte significativa dos veículos jornalísticos.

Svetlana devolve o jornalismo à sua gênese narrativa, genuinamente literária. Retira-o da contaminação dos emoticons e da tentação viral e restitui à humanidade algo mais duradouro e palpitante do que a destreza digital.

Graças à sua dinamite, Alfred Nobel nos propicia anualmente magníficos impactos e restaurações.