Publicado 10 de Outubro de 2015 - 18h50

Por João Nunes/Especial para o Correio Popular

Gaúcho de Porto Alegre, Werner Schünemann chegou aos 35 anos de carreira em 56 anos de idade com um currículo respeitável

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Gaúcho de Porto Alegre, Werner Schünemann chegou aos 35 anos de carreira em 56 anos de idade com um currículo respeitável

Gaúcho de Porto Alegre, Werner Schünemann chegou aos 35 anos de carreira em 56 anos de idade com um currículo respeitável: quase 70 trabalhos no cinema, no teatro e na TV. Muitos são histórias de época. “Fui aceitando os convites”, diz, mas concorda que se dá bem no gênero. Talvez porque seja formado em história (foi professor de sexta série ao Ensino Médio) cuja metodologia ele aplicou à atividade artística. Começou no teatro, mas garante que sempre sonhou fazer cinema. Werner foi membro do júri de longas-metragens do recém-encerrado 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. No debate do longa 'Um Filme de Cinema', que abriu o festival, o cineasta Walter Carvalho elogiou a beleza do ator. Este diz que não se acha bonito, mas valeu-se dela para o seu trabalho. “Foi bom”, declara. Leia trechos da entrevista.

Correio Popular — O que o estudo da história contribui para o ator Werner Schünemann?

Werner Schünemann — As metodologias históricas são válidas para quaisquer situações. Não consigo não associar a Constituição promulgada em 1988 sem pensar nos anos que a precederam. Interesso-me bastante por psiquiatria e psicologia. E tenho biblioteca razoável sobre esses assuntos, que me permitem compreender o processo interno das pessoas. Ouço sempre na preparação de algum trabalho que tal atitude não se espera de determinado personagem, ou que algo não condiz com o personagem, que ele não faria isso. Se ele não faria e fez, demonstra a contradição e idiossincrasias. O ator não pode ter medos da surpresa nem do inesperado. Nós costumamos nos assustar. Como fiz isso? Por que meu melhor amigo fez aquilo? Isso tem a ver com a metodologia da história.

Você também dirige, mas está há tempos longe do set. Por quê?

Era muito jovem (23 anos) quando dirigi 'Coisa na Roda' (1982), meu primeiro filme; com 24 fiz 'Me Beija', o segundo; com 27, 'O Mentiroso'; e em 2003 dirigi um filme de viagem não finalizado e o curta 'O Príncipe das Águas' (2002). Paulo José (ator e diretor) costuma dizer que diretor não se diverte. O ator termina o dia e vai pra casa ou sai com os amigos, o diretor segue para uma, duas, três reuniões a fim de resolver problemas. Isso parou de me seduzir, somado à insatisfação com o próprio trabalho. Não é falsa modéstia. Quando o filme ficava pronto o resultado deixava a desejar. Aquilo foi roendo dentro de mim e, um dia, decidi focar no trabalho de ator onde eu me sentia melhor.

Muitos títulos do seu currículo (cinema, teatro e TV) são histórias de época. Há alguma razão?

Fui aceitando convites, mas gosto. Em 'A Casa da Sete Mulheres' (minissérie da Globo, 2003), os fatos históricos são verídicos, mas há coisas que não são. Não aconteceram, mas fariam sentido se tivessem acontecido. A mistificação é uma das características da arte narrativa e das artes plásticas. Em 'Danton' (Andrzej Wajda, 1983), ele foi transformado num personagem. O mesmo posso falar de Bento Gonçalves no texto de Maria Adelaide Amaral. Foram acrescentados aspectos que não são verificáveis historicamente. Conversando com o maestro Ricardo Rocha, ele me falava do incômodo com biografias como as de Beethoven. Aquela menina que ajuda Beethoven nunca existiu, mas olha que forma legal de apresentar um personagem, achado poético, o filme ('O Segredo de Beethoven', Agnieszka Holland, 2006) é muito melhor que a vida dele.

E o público gosta.

É o que o público mais gosta, e são as mais vendidas no Exterior, mas não tem merchandising. É extraordinário que a Globo faça isso. Se temos no Brasil um pouco do imaginário do País isso é responsabilidade e mérito da Globo. Desde o início, o Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho) apostou na dramaturgia nacional. É um serviço prestado admirável; não ignoro os senões e as restrições da TV e das novelas, mas estou me valendo de um sentido histórico para analisar. Foi opção empresarial.

Você utiliza também o conhecimento histórico na criação dos personagens?

Claro, como conhecimento prévio da história o e da metodologia; o que eu não conheço, vou pesquisar e viro consultor. Estudei o personagem Schumann (na peça 'Querido Brahms', 2015) pelo lado histórico. Ele teve centenas de casos amorosos, mas isso não está registrado; deduz-se por meio de cartas e outras referências. A Clara Schumann também teve, mas isso não está nos registros; conhecer os bastidores ajuda a compreender certas coisas na história.

Walter Carvalho elogiou publicamente sua beleza no Festival de Brasília. Ser bonito ajudou ou atrapalhou na carreira?

Foi bom. Não me considero tão bonito assim. E tem o olhar do diretor. Eu como ator desenvolvi inconscientemente trabalhar com o olhar, que é o que importa. Isso me faz me preocupar menos com outros detalhes, como a troca de roupas. Para Thiago Lacerda e Leonardo DiCaprio a beleza atrapalha ao ponto de obstruir o trabalho deles. O Hamlet do Thiago é ótimo. E o Dicaprio é excelente ator. O Thiago tem encarado muitos desafios como ator por ser bonito; às vezes o convidam para determinado trabalho só pela beleza dele.

Mas você também fez personagens que não exploram a beleza.

Sim, gosto de personagens inteligentes, e quando não são, eu lhes acrescento algo, as sombras deles. E, ainda sobre a beleza, o Antonio Banderas disse algo muito importante: “Com o tempo, cai o cabelo e cresce a barriga; sobra o ator”. Nesse momento, estamos no auge do trabalho. Eu tive essa sensação quando fiz 'A Casa das Sete Mulheres'. Tinha as rédeas nas mãos, uma segurança que me deixou tranquilo, de alguém que já se acostumou com a perplexidade. Digo uma frase em 'Neto Perde sua Alma' (Tabajara Ruas, 2001) de que gosto muito. “Conheço o medo, eu o vi nas batalhas, nos soldados, nos cavalos, nos cães, mas quando o medo vira parceiro do homem, ele está no comando”.

Você participou de filmes gaúchos emblemáticos nos anos 1980. Qual a importância deles para sua carreira?

Quando 'Verdes Anos' (Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil, 1984) foi lançado, eu senti o impacto do que era ser público. Em Porto Alegre fez muito sucesso, comecei a dar autógrafos nas ruas e percebi o tamanho do trabalho e onde ele se legitima. Não sou ator porque atuo, mas porque alguém me vê. É o ator no sentido social da palavra, me legitimo no mundo no momento que chego ao público. 'Deu pra Ti Anos 70' (Giba Assis Brasil e Nelson Nadotti, 1981) foi coisa de turma, feito com câmera na mão, tempo em que aprendemos cinema fazendo e lendo sobre, época em que não havia produção no Rio Grande do Sul pós-Teixeirinha nem universidade de cinema. E decidimos criar um mercado e nasceu associação de produtores e, mais tarde, a Casa de Cinema.

Verdadeiro pioneirismo.

Fizemos o caminho por onde iríamos trilhar; não podíamos apenas fazer filmes, mas fazer cinema. Para isso, tínhamos de criar mercado e demanda para nossas produções. Contar essa história é um filme que eu gostaria de fazer. 'Coisa na Roda' e 'Inverno' (Carlos Gerbase, 1983) fez enorme sucesso; eram temporadas em teatro. 'Coisa na Roda' fez 120 mil espectadores; 'Inverno', 100 mil; 'Deu pra Ti Anos 70', 250 mil. Eu os assistia diariamente e via o que funcionava e o que não. A gente podia mexer ao longo da temporada a partir das críticas dos espectadores; era um modo de sermos humildes. Não ouvir o outro é sinal de arrogância. O Van Gogh provavelmente gostaria de mexer nas telas dele.

Você, que começou no teatro, sente falta dele?

Não. Sinto-me bem como ator fazendo cinema e TV. TV é o mais difícil e, se fizer no automático, entro no vazio. Mas me realizo fazendo TV; é muito gostoso. O cinema faz tudo pra você dar o máximo; a TV também, mas o volume e o ritmo de trabalho são diferentes. Uma cena que no cinema dura dois dias, na TV se faz a cena num dia junto com outras 24, mas eu quero fazer como se fizesse no cinema. Não é frequente, mas fico feliz quando ouço elogios de uma obra de entretenimento. Falando em beleza novamente, sempre quis fazer cinema e não teatro e o padrão era Marlon (Brando), belíssimo homem e grande ator.

Qual seu personagem inesquecível?

Bento Gonçalves e o Neto (de 'Neto Perde sua Alma'). Mas acabei de fazer Osvaldo, chefe do morro em 'Babilônia' (Globo, 2015). E cito porque não tenho físico com esta cara de alemão, mas o morro me aceitou. Diziam: “Tu é o cara”. Em 'Bens Confiscados' (Carlos Reichenbach, 2004), fiz um vilão debochado. As pessoas riam das maldades dele; na novela também. Não consigo compreender por que o público se sente atraído por personagens como o Coringa. Talvez para que nosso pavor se amenize ou porque nos identifiquemos e não nos levamos a sério. O personagem de 'Babilônia' tinha um bordão: “eu torço seu pescoço”, e as pessoas riam.

E qual você gostaria de fazer?

Macbeth, José Bonifácio de Andrada e Silva. Faria também Mario de Andrade e Maurício de Nassau. Tenho uma foto com cabelo comprido na qual sou igualzinho a ele.

E quando volta ao set como diretor?

Talvez com um documentário sobre Antonio Augusto Fagundes, que morreu em junho. Ele é conhecido como regionalista, mas escreveu 42 livros, foi mestre em antropologia, pesquisador de linguagem e apresentador do programa de TV 'Galpão Crioulo', de música de raiz. Ele assumiu posturas indefensáveis, mas é uma figura extraordinária. Tenho uma entrevista com ele na qual fiz uma provocação. No contexto dos anos 1950, eu lhe perguntei: e Elvis Presley? A resposta: “Nós nos enlouquecíamos com o Elvis, o tocávamos à tarde toda e dançávamos. E, à noite, íamos ao Centro de Tradições Gaúchas (CGT)”. Sensacional!

O JORNALISTA VIAJOU A CONVITE DO FESTIVAL

Escrito por:

João Nunes/Especial para o Correio Popular