Publicado 13 de Outubro de 2015 - 20h12

Por Marita Siqueira

A cantora Roberta Sá, que conta com participações de Chico Buarque e Martinho da Vila no novo trabalho

Daryan Dornelles/Divulgação

A cantora Roberta Sá, que conta com participações de Chico Buarque e Martinho da Vila no novo trabalho

Em busca de novos caminhos para a voz, a cantora Roberta Sá, de 34 anos, optou por um modo de feitura menos editado para o disco 'Delírio' (Som Livre), que, apesar do título e de algumas faixas mais ritmadas, remete à calmaria e à serenidade. Aliás, o bom gosto na escolha das canções, casado com produção coerente de Rodrigo Campello, só comprova a autenticidade da artista, apontada desde a estreia.

Em entrevista por telefone ao Caderno C, Roberta Sá afirma que o processo de gravação do disco — que também sai em vinil — está intimamente ligado à sua concepção. “Gravamos as bases todas juntas, para depois entrarem os instrumentos de solo e melódicos. Isso também é uma outra proposta de feitura e jeito de ouvir música. Esse disco tem uma proposta de fazer com que a gente se acalme um pouco; embora tenha uma pegada rítmica forte, ele é todo suingado, só 'Boca e Boca' e 'Delírio' que são mais para dançar.”

Onze anos atrás, a cantora, nascida no Rio Grande do Norte, lançou o primeiro CD, 'Braseiro', composto por canções como 'Valsa da Solidão', de Paulinho da Viola, 'Lavoura', de Teresa Cristina, e 'Pelas Tabelas', de Chico Buarque. Na ocasião, também ao lado de Campello, contou com a participação de Ney Matogrosso. Enfim, começou em grande estilo e assim se mantém, agora com mais técnica vocal e segurança. “Acho que esse disco é o começo da minha vida adulta porque as pessoas já sabem minha proposta, então a troca fica mais fácil e eu tenho mais segurança. A maturidade traz esses benefícios. Acho que estou conquistando isso agora”, afirma a cantora.

Com participações de Chico Buarque, Martinho da Vila, António Zambujo e Xande de Pilares, 'Delírio' tem oito inéditas. Algumas compostas especialmente para ela cantar, como 'Amanhã é Sábado', de Martinho da Vila, que remete ao clássico 'Disritmia', do próprio, mas agora abordando a visão da mulher na relação. Roberta ainda recebeu Martinho no estúdio para dividir com ele os vocais da faixa.

A cantora conta que pediu ao compositor carioca uma música que falasse do universo feminino, porém sem aquela tendência machista peculiar ao samba. “Pedi que falasse sobre a mulher que voltasse para casa, como ela chega, porque no samba tem muito o ‘vem logo, vem curar seu nego que chegou de porre lá da boemia’, e a mulher hoje também chega da boemia, cansada. Martinho fez uma coisa incrível, que foi descrever que ela queria colo, o quem tem muito a ver com a mulher contemporânea. A gente rala demais e quer um colinho. A fragilidade está em outro lugar.”

Outro presente chama-se 'Me Erra', dado por Adriana Calcanhotto. “Eu investi muito nessas relações. Montar um repertório é autoral porque as músicas nascem das minhas conversas com os compositores, muitas vezes. Com Adriana Calcanhotto, por exemplo, ficamos conversando sobre o que eu gostaria de cantar, de fazer, e ela fez essa pérola para mim, 'Me Erra', que é uma das músicas que eu mais gosto de cantar. Mas, isso veio de um entendimento nosso, como a do Martinho”, diz.

Os bons relacionamentos também levaram Chico Buarque ao estúdio para cantar com Roberta uma canção que não é de sua autoria, como raramente faz. A participação especialíssima está registrada em 'Se For pra Mentir', de Cézar Mendes e Arnaldo Antunes. Quem também participa, desta vez como compositor e intérprete é Xande de Pilares, parceiro de Roberta no samba festeiro que encerra o álbum, 'Boca em Boca'.

Roberta foi a Lisboa para fazer um show com o português António Zambujo e aproveitou para gravar com ele e músicos de lá a canção 'Covardia', de Ataulpho Alves e Mário Lago, transformada em fado. “Foi uma das primeiras músicas que gravamos para o disco e importante para entendermos (o Rodrigo Camppello estava comigo), que deveríamos gravar as bases juntos. Lá só tinha baixo, violão e guitarra portuguesa. Gravamos com o microfone no meio, em um estúdio maravilhoso e foi incrível. Eu queria fazer uma coisa menos editada para ter mais contato com minha voz. Desejo de experimentar e funcionou muito bem porque eu achei novos caminhos para minha voz”, avalia.

Faixa-título

Escolhida para batizar o disco, a canção 'Delírio', de Rafael Rocha (integrante da banda carioca Tono), é embalada por um ritmo pulsante, pilotado pelo baixo elétrico de Alberto Continentino, e poesia em palavras como “E por vezes não dou conta e o meu coração se queixa/ O horizonte a cavalo vindo como grande onda”. Segundo ela, o amor deixa a gente nesse estado. “Delírio é você começar a não enxergar algumas coisas, e a paixão deixa a gente assim. O disco fala muito disso, de paixão, de entrega. E pelo delírio também de fazer um disco menos acelerado; nos dias de hoje tem algo delirante no querer uma vida mais interiorizada”, diz.

Distante da atualidade também foi o retrato do videoclipe feito para a música, em preto e branco. “A ideia era fazer um Carnaval fora de época no Rio de Janeiro, que tem acontecido sim, tem pessoas que se vestem assim nos blocos alternativos e foram neles que a gente se inspirou. É uma coisa meio burlesca que eu acho interessante. E faz parte do meu delírio. Achamos que preto e branco ficaria interessante.”

No dia 21 novembro, Roberta Sá começa a turnê de 'Delírio', no Vivo Rio, no Rio de Janeiro. A agenda dos shows ainda está aberta e Roberta declara o desejo de levar o espetáculo para o Interior do Estado de São Paulo. “Eu adoraria fazer interior de São Paulo. Fiz muito pouco. Isso é algo que está nos meus planos eu e eu espero realizar neste disco.”

Escrito por:

Marita Siqueira