Publicado 09 de Outubro de 2015 - 23h45

Por Delma Medeiros


Divulgação

A recepção não poderia ser mais representativa. Ao entrar na primeira sala expositiva de 'Frida Kahlo: Conexões entre Mulheres Surrealistas no México', em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, o visitante se depara com, senão a obra-prima da mostra, uma das mais representativas da artista mexicana: 'Autorretrato com Macacos', que traz Frida em trajes típicos rodeada de primatas, uma alusão ao erotismo em seu trabalho. Com curadoria da pesquisadora, historiadora de arte e mestre em Museologia e Gestão em Arte e Arte Cinematográfica, Teresa Arcq, a exposição, com cerca de 100 obras de 16 artistas — das quais 33 daquela que dá nome à mostra — revela como se formou uma intrincada rede de personagens tendo como eixo a figura de Frida Kahlo (1907-1954).

Pautada pelo prisma do feminino, o recorte apresenta artistas mulheres nascidas ou radicadas no México, protagonistas, ao lado de Frida, de produções potentes como da espanhola Remedios Varo, da mexicana Maria Izquierdo e da britânica Leonora Carrington, entre outras.

Em toda sua vida, Frida pintou apenas 143 telas. Esta exposição inédita reúne 20 delas, além de 13 obras sobre papel (nove desenhos, duas colagens e duas litografias), oferecendo ao público brasileiro um amplo panorama de seu pensamento plástico e de sua trajetória. A força de Frida está presente também em obras de outras artistas participantes, que retrataram a sua figura icônica, além de fotografias dela feitas por Nickolas Muray, Bernard Silberstein, Lola Álvarez Bravo, Lucienne Bloch, Kati Horna, Hector Garcia, Martim Munkácsi e em uma litografia de Diego Rivera, 'Nu' (Frida Kahlo 1930).

“Muitas mostras apresentaram o trabalho de Frida entre o de outras mulheres, mas esta é a primeira exposição que explora especificamente as conexões entre ela e outras artistas relacionadas ao movimento surrealista”, diz Teresa Arcq. Segundo a curadora, é possível fazer muitas associações entre Frida e as pintoras selecionadas para a mostra, como a tendência ao autorretrato. Ela cita que impressiona a quantidade de autorretratos que as mulheres produziram e que, regra geral, não as mostravam trabalhando nos estúdios, como os homens costumavam se retratar. No caso das mulheres, elas exploravam seus corpos e seus interiores.

Entre as 20 pinturas de Frida na exposição, seis são autorretratos. Seu rosto aparece ainda em mais duas de suas telas expostas: 'El Abrazo de Amor del Universo, la Terra' (México), 'Diego, Yo y el Senõr Xóloti' (1949), e 'Diego em mi Pensamiento' (1943), além de uma litografia, 'Frida y El Aborto' (1932), todas impressionantes. 'El Abrazo'... carrega nas tintas surrealistas e mostra a mulher como a figura que alimenta a vida, o homem com o terceiro olho da sabedoria e a dependência entre eles, além de elementos derivados da mitologia mexicana.

'Diego em mi Pensamiento' mostra Frida vestida de noiva, tendo na testa um pequeno retrato do marido, simbolizando seu amor obsessivo por ele, mas se mantendo no foco das atenções. Já na tocante litografia 'Frida y El Aborto', a artista se mostra em um corpo ferido, com lágrimas escorrendo pelo rosto e um terceiro braço segurando o coração longe de seu corpo, ao lado de um natimorto, em alusão a um aborto que sofreu. Se as obras de Frida encantam e impressionam pela força das cores e do olhar magnético reforçado pelas sobrancelhas espessas, as telas de Remedios Varo comovem, com suas figuras fluidas, mágicas e oníricas, muitas trazendo mulheres com traços semelhantes aos da artista, aliadas ao forte apelo surrealista que remete a símbolos, rituais e mitos da cultura mexicana, presente também em trajes típicos expostos. Para a curadora, com sua arte, Frida promove uma ruptura entre as esferas pública e privada, ao abrir o corpo e mostrar suas feridas. “Ela foi uma pioneira da representação feminina.” A mostra segue ainda para o Rio de Janeiro e Brasília.

AGENDE-SE

O quê: exposição 'Frida Kahlo - Conexões entre Mulheres Surrealistas no México'

Quando: até 10/1/2016, de terça a domingo, das 11h às 20h

Onde: Instituto Tomie Ohtake (Av. Faria Lima 201, entrada pela Rua Coropés, 88, Pinheiros, São Paulo, fone: 11 2245-1900. Metrô mais próximo, Estação Faria Lima/Linha 4 - amarela)

Quanto: R$ 10,00 e R$ 5,00 (até 10 anos grátis). Às terças, é de graça. (Compra de ingressos pelo ingresse.com, aplicativo do Instituto Tomie Ohtake, ou na bilheteria do Instituto de terça a domingo, das 10h às 19h)

Escrito por:

Delma Medeiros