Publicado 15 de Outubro de 2015 - 5h00

Por Jorge Massarolo

Jorge Massarolo, editor

Cedoc/ RAC

Jorge Massarolo, editor

O “vecchio talian” não entendeu nada. Acordou na madrugada com o som do sino da igreja, mas como foi só uma badalada, achou que estava sonhando e voltou para debaixo das cobertas naquela noite gelada. Antes de dormir, ainda comentou com a mulher:

— Vecchia, tamo atrasado para a missa.

Ela não respondeu, pois estava dormindo, mas ele também não percebeu e caiu no sono profundo.

Algumas horas depois, antes de o galo cantar, o casal foi acordado com os gritos desesperados do padre. Assustados, pularam da cama, colocaram um agasalho e foram ver o que acontecia. Exasperado, o padre contou que o sino da capela, com exatos 305 quilos de bronze puro, havia desaparecido na madrugada. Logo a comunidade toda de Linha Tapir, uma colônia de italianos, comentava indignada o roubo.

Ninguém entendeu como os ladrões tiraram o pesado sino da torre de quatro metros, ao lado da igreja, sem causar barulho, afinal, o silêncio na comunidade é tão profundo que dá para ouvir a raposa comendo uva no parreiral.

Foi então que o “vecchio talian” percebeu que não havia sonhado.

— Porco cane, Dio Santo — blasfemou —, ouvi o sino tocar, mas achei que era sonho, disse. Irado, o padre pensou em dar um sermão no italianão por não ter olhado pela janela para ver o que acontecia, mas ficou quieto, pois ele mora ao lado da igreja e também deveria ter ouvido o badalar na madrugada. Por fim, foi chamado o delegado.

O policial ficou imaginando o esforço dos ladrões para carregar o sino, com todo o cuidado para que o badalo não tocasse. Vai que alguém acorda meio desorientado, coloca a gravata, o chapéu e sai para a missa em plena madrugada achando que é domingo cedo? Não conteve um pequeno riso ao imaginar a cena.

A princípio, pareceu uma brincadeira de um grupo de amigos, ou então, resultado de alguma aposta entre fanfarrões. Não foi. O sino sumiu e ninguém mais teve notícias. O que aconteceu em Tapir é um reflexo do lucrativo negócio de comercializar cobre. Aqui em Campinas, o roubo de fios elétricos e cabos telefônicos ou de TV a cabo tornou-se rotina. Bairros inteiros ficam sem energia elétrica ou comunicação devido a esse comércio ilegal.

Mas, voltando a Tapir, a comunidade ficou desconsolada, pois o sino é uma forte referência religiosa e de costumes. O badalar marca o tempo, encontros, orações, sagrações, festividades e também avisos de tragédias. É um aglutinador da comunidade.

E, agora que os ladrões descobriram que é fácil carregar sino de bronze nas igrejas das colônias, as demais paróquias da região redobraram o cuidado.

Diante da ousadia da malandragem, o “vecchio talian” resolveu dormir com um olho aberto, pois nem os santos conseguem proteger seus patrimônios.

Escrito por:

Jorge Massarolo