Publicado 14 de Outubro de 2015 - 5h00

Por Gustavo Mazzola

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Quem vê a professora Regina, do Jardim II, sorridente, cheia de ternuras com seus pequenos alunos, talvez não avalie, à primeira vista, como é grande a responsabilidade que ela assume durante aquelas horas com os meninos dentro da escola. Em suas mãos estão criaturas mal saídas do colo materno, ainda inocentes e puras para a vida, cabendo-lhe direcioná-las para o ensino das primeiras letras, dos conceitos básicos de civilidade, de harmonia, de convivência dentro do universo escolar... chegando até mesmo à família dos próprios aprendizados.

Dia 15 de outubro, amanhã, é o Dia do Professor, data para ser comemorada com grande júbilo. E, agora, ainda mais, pois se acresce aos responsáveis pela educação infantil, como as “tias” Regina, Fabiana, Jú, Jujú, Flávia, Érica, Lili, Paula, Mari, Jéssica, a diretora Ivani e tantos outros, uma importante missão: a Inclusão, a mais verdadeira das lições, a lição de amor, que abre novos caminhos em suas atribuições de rotina, levando-os a se adaptarem a ela dentro do contexto de suas atividades.

Mas o que é, afinal, essa tal Inclusão? Na verdade, um movimento mundial de luta em favor de pessoas com necessidades especiais, não só na escola como no ambiente de trabalho, na vida, em busca de seus direitos e lugares no meio em que vivem.

Incluir, num modo de se entender atual e moderno, não é somente acolher a pessoa, mas cuidar da preparação de toda uma estratégia de operação para sua adequação às atividades do dia a dia, de modo a inseri-la socialmente e produtivamente. Como ressalta a fisioterapeuta Marilu Mourão Pereira, em um de seus interessantes textos, “a ideia da Inclusão se fundamenta numa filosofia de se reconhecer e valorizar a diversidade como característica inerente à constituição de qualquer sociedade, tendo como horizonte o cenário ético dos direitos humanos”. No caso do magistério, a Inclusão deve abranger maior dedicação aos jovens com problemas dessa ordem: às vezes, é difícil mudar um conceito, até porque a escola, até aqui, estava estruturada para trabalhos com homogeneidade, não com a adversidade.

Nem sempre foi assim: lembro-me, por exemplo, de algumas histórias de vidas que, se não fosse pelo próprio esforço de seus personagens, desafiando todas as vicissitudes a sua frente, teriam sucumbido em desastres e desilusões. Inclusão era, então, uma ilustre desconhecida.

A mãe de Wolfgang Sauer, quando menino, foi um dia procurada pelo diretor de sua escola, que a surpreendeu com uma fulminante informação:

— Senhora, não adianta fazer nada com seu filho, ele não vai adiante. Não presta para nada. Segundo as próprias palavras de Sauer no seu livro “O homem Volkswagen”, o diretor ainda disse: “só serve para limpar trilhos dos bondes”. Pois, esse pequeno grande alemão, adulto, tornou-se um dos maiores dirigentes da indústria automobilística na América Latina.

Aqui, perto de nós, conheci o Gaert, que começou conosco, bem jovem, na empresa. Atabalhoado, imprevisível, ele não se encaixava nos parâmetros habituais das rotinas da organização. Foi tido como um funcionário problema... e demitido. Tempos depois, ficamos sabendo que Gaert havia se empregado, no Brasil, na filial norte-americana de uma famosa organização de comunicação, exibidora de videoclipes e programas de entretenimento, logo se tornando seu Diretor Geral no país. Seus antigos colegas na empresa ainda estão lá no escritório cuidando da rotina das comunicações internas e reuniões intermináveis do dia a dia.

Assis Chateaubriand, magistralmente descrito por Fernando Morais no seu livro Chatô, o rei do Brasil conta: “o menino custou a falar e, depois, a dificuldade que tinha para pronunciar uma frase inteira provocava risos na escola. Demorou para a família descobrir que aquilo não era comum às crianças de sua idade: ele já estava beirando os três anos quando, só então, os pais entenderam que o menino era gago”. Pois bem, Chateaubriand, excluído do convívio escolar, reprimido pelos seus problemas não descobertos, tornou-se, mais tarde, o maior jornalista e dirigente de empresas de comunicação do país, assombrando figurões do seu tempo.

Assim, conclui-se: é preciso acreditar nas potencialidades, às vezes, ocultas de um ser humano. Com crianças, especialmente, isso está nas mãos de professoras, como Regina, sempre sorridente, cheia de ternura com seus pequenos alunos, mas que sabe avaliar a grandeza dessa novidade de imenso conteúdo humano, a Inclusão.

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Gustavo Mazzola