Publicado 11 de Outubro de 2015 - 16h13

Renata Passos, especialista em coaching

AAN

Renata Passos, especialista em coaching

Observando a rotina das crianças de hoje, tenho duas emoções: tristeza e incompetência!

O período da vida dedicado ao tempo livre e as brincadeiras, foi tomado por uma agenda repleta de atividades, parte delas bastante competitivas.

Elas nem precisam de adversários: estão aprendendo a competir desde cedo, com o adversário mais violento de todos: elas mesmas!

Seja por melhores notas, pelo ranqueamento, pelos primeiros lugares, pela primeira fileira no ballet, pela faixa de tal cor....Tudo em nome do estímulo ao esforço e ao reforço à meritocracia.

Resultado e consequência triste da sociedade que nos tornamos.

Outro dia ouvi uma frase de uma mãe que me deixou perplexa:

- Precisamos prepará-los para o mercado de trabalho!

E várias que estavam ao lado concordaram. Fiquei tão assustada que nem consegui me posicionar!

Estávamos falando do que mesmo? Filhos ou produtos?

Claro que minhas filhas fazem atividades extras, mas cada vez em menor quantidade. Teve uma fase que diminuímos mais ainda, para que tivessem mais tempo para brincar. A questão é que criança quer criança e todos os seus colegas estavam em alguma atividade.

Daí a minha sensação de incompetência! Não basta seu filho ter tempo e espaço seguro. Ele não terá com quer dividir uma brincadeira.

Sei que não somos referência, mas criamos um indicador em casa que tem nos deixado mais tranquilos.

Qualquer atividade será um estímulo. Mas qual a atividade que elas realmente irão se divertir?

Quais estimulam seus verdadeiros talentos?

Quais reforçam suas melhores características e comportamentos?

Quais trabalham suas fraquezas de forma que não só as estimule a superá-las, mas a aprender a lidar da melhor maneira com elas de maneira agradável e lúdica?

Até as atividades que deveriam divertir, chegam com uma quantidade de exigências, horários, ensaios e demandas que viram mais uma fonte de estresse.

O resultado de tudo isso, já estamos observando na prática.

Atendo jovens formados em excelentes universidades que tem pânico na hora de uma entrevista e simplesmente não conseguem ir adiante.

Estagiários que choram sobre pressão para entrega de um projeto. Alguns foram os primeiros colocados em todas as inúmeras seleções.

Receberam tanto estímulos e responsabilidades antes de estarem preparados emocionalmente que chegam ao mercado de trabalho exaustos, cansados e sem habilidade para gerenciar suas emoções.

São competentes, responsáveis, cheios de informação, mas muito, muito frágeis emocionalmente.

Alguns de tão frágeis se tornam agressivos com os outros e mais ainda, com eles mesmos. Passam o tempo se mutilando, se sabotando.

Não suportam ser contrariados e gritam aos quatro cantos que não precisam passar por aquilo.

Conviver e aprender com outras gerações então?

Podem até ser como alguns dizem, a geração mais inteligente e com maior conhecimento que já existiu, mas é também a que mais sofre nos dias de hoje.

Não quero criar minhas filhas para o mercado, muito menos para o mundo!

A responsabilidade que me foi confiada é grande demais e creio que irei prestar contas disso algum dia.

Neste dia quero ter a plena consciência que fiz a minha parte em formar e educar mulheres responsáveis, ponderadas, que se colocam no lugar do outro, que se preocupam com o que existe ao redor delas, sensíveis aos problemas de um vizinho e também de alguém que não conhecem.

Mulheres que se importarão de verdade em viver uma vida que faça diferença.

Sou da geração que cantava "a gente somos inútil", mas quero viver e ensinar minhas crianças que isso era só uma música. Nada mais.

Simples assim, só isso e muita diversão pra todos!