Publicado 15 de Outubro de 2015 - 22h06

Estudantes exibem faixas em protesto realizado ontem com professores e movimentos sociais em Campinas

Leandro Ferreira

Estudantes exibem faixas em protesto realizado ontem com professores e movimentos sociais em Campinas

Quatro horas após o início de um protesto dos estudantes da rede pública de ensino paulista contra a reestruturação anunciada pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), mascarados tentaram derrubar nesta quinta-feira (15) o portão do Palácio dos Bandeirantes, na zona sul de São Paulo, e invadir o local pelo portão 2, destinado a visitantes. Eles subiram no muro do palácio e atiraram latas e garrafas. Também utilizaram um tronco.

A polícia, que estava posicionada atrás da guarita principal, reagiu e lançou bombas de gás. A Casa Militar disse ter encontrado dois explosivos não detonados no prédio.

Em Campinas, professores e estudantes também promoveram um protesto, mas pacífico, contra a reestruturação na rede. Desde que a reestruturação — que prevê a separação dos ciclos por escola (ensino fundamental 1, 2 e ensino médio) — foi anunciada pelo secretário de Educação, Hermann Voorwald, alunos, pais e professores começaram a temer o fechamento de diversas unidades no Estado.

Muitos disseram já ter recebido a confirmação por diretores de que as unidades se encerrariam, o que é negado pela secretaria.

Na Capital, a manifestação começou às 8h, no Largo da Batata, em Pinheiros, zona Oeste, com a intenção de caminhar até o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual.

Após se concentrarem, os alunos fizeram uma assembleia por volta das 9h30, em que foi aprovado o trajeto, passando pela Marginal Pinheiros.

Os estudantes começaram a caminhar às 10h e bloquearam totalmente o sentido Vila Olímpia da Avenida Brigadeiro Faria Lima. Depois, na Avenida Morumbi, o bloqueio aconteceu nos dois sentidos da via, que, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), registrou 1 quilômetro de congestionamento dos dois lados.

Chegando ao Palácio dos Bandeirantes, os alunos encontraram um outro grupo, formado por estudantes e professores. Ao longo do percurso, um dos gritos mais ouvidos foi: “Se a minha escola fechar / a cidade vai fechar / mas se os alunos se unirem / o Geraldo vai cair”. O protesto seguia tranquilamente até os mascarados aparecerem. A PM não divulgou o número de manifestantes.

A Secretaria da Casa Civil do Estado de São Paulo, em nota oficial, repudiou as ações violentas no final do ato, atribuídas pela polícia a black blocs.

“Após uma tentativa frustrada de invasão ao Palácio dos Bandeirantes, o grupo passou a depredar equipamentos públicos dos arredores e a arremessar pedras, rojões e bombas caseiras para o interior do prédio, gerando pânico entre os funcionários e as cerca de 70 crianças de quatro meses a 6 anos que ficam na creche do Palácio dos Bandeirantes”, destacou. Ainda não há um balanço dos prejuízos.

Reaproveitamento

De manhã, cumprindo agenda em São José do Barreiro, o governador confirmou os estudos para reaproveitar melhor as escolas do Estado, mas afirmou que não há definição sobre a reestruturação. “Não tem nenhuma decisão ainda. Nós temos capacidade para 6 milhões de alunos e temos 4 milhões. Nós temos 2.500 classes ociosas. Nosso objetivo, tendo espaço, é reorganizar para melhorar a qualidade da educação”, afirmou.

Estudantes, professores e diretores das 5 mil escolas estaduais se preparam para o processo de reorganização de toda a rede de ensino, prevista para ser aplicada no início do ano letivo de 2016. O plano é que seja reduzido o número de unidades escolares em que funcionem os três ciclos de ensino — 1° ao 5° do Fundamental; 6° ao 9° do Fundamental; Ensino Médio — e aumenta o número de escolas com apenas um ciclo por unidade, segundo a Secretaria de Estado da Educação. Atualmente, o Estado tem 5.108 escolas, sendo 479 com os três ciclos de ensino; 3.186 com dois ciclos; e 1.443 com um único ciclo.

As definições sobre quais escolas sofrerão alterações ou até fecharão as portas ficará por conta das delegacias regionais de ensino de cada região (em Campinas há duas). A Secretaria da Educação definiu para 14 de novembro um encontro entre as escolas, pais e responsáveis da rede estadual de ensino. A proposta do Dia "E" é explicar o novo processo de reorganização. 

Manifesto faz governador deixar palestra

Professores, estudantes e pais de alunos invadiram o auditório da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São José dos Campos, onde estava prevista uma palestra do governador Geraldo Alckmin, à tarde.

O grupo com cerca de 80 pessoas protestava contra o projeto do governo estadual de reorganizar as escolas estaduais por ciclos, conforme a faixa etária.

Faixas com os dizeres “Alckmin, não feche minha escola” e “Basta de fechamento de escolas e demissões”, foram estendidas à frente da mesa das autoridades. A participação no evento estava prevista na agenda oficial do governador.

Alckmin falaria no seminário sobre boas práticas na gestão pública para prefeitos e lideranças da região. Os manifestantes ocuparam o salão antes da entrada do governador.

Depois de meia hora, eles foram convencidos pela comandante da PM na região, Eliane Nikoluk, a deixar o recinto, mas o governador desistiu da palestra. De acordo com a assessoria da universidade, o evento prosseguiu sem a presença do governador. 

Moção

A Câmara de Vinhedo aprovou na última segunda-feira, por unanimidade, uma moção de autoria do vereador de Rodrigo Paixão (Rede) que solicita ao governador a suspensão da reorganização escolar. “Em Vinhedo temos três escolas estaduais. Se elas fecharem, será muito prejudicial a todos”, disse o vereador.

Campineiros se manifestam no Paço e na Catedral

Estudantes, professores e diretores das 5 mil escolas estaduais se preparam para um processo de reorganização de toda a rede de ensino, prevista para ser aplicada no início do ano letivo de 2016. O plano é que seja reduzido o número de unidades escolares em que funcionem os três ciclos de ensino - 1º ao 5º do Fundamental; 6º ao 9º do Fundamental; Ensino Médio - e aumente o número de escolas com apenas um ciclo por unidade, segundo informações da Secretaria de Estado da Educação.

Professores, alunos e representantes de movimentos sociais ligados aos partidos políticos PSOL e PSTU protestaram no Centro de Campinas contra a reorganização da rede estadual.

De acordo com a Guarda Municipal (GM), cerca de 150 manifestantes reuniram-se às 13h em frente ao Largo do Rosário.

Com cartazes e palavras de ordem, eles caminharam por ruas centrais e chegaram a bloquear parcialmente as avenidas Francisco Glicério e Moraes Salles. Por volta das 15h30, eles chegaram à Avenida Anchieta, em frente à Prefeitura e depois permaneceram nas escadarias do Paço. Às 8h, manifestantes também protestaram em frente à Catedral Metropolitana.

A notícia do fechamento de unidades de ensino é um dos pontos mais criticados.

“Estão pensando em corte de gastos e não na qualidade de ensino”, acredita o professor de filosofia e sociologia do Ensino Médio Rodolfo Soares, de 26 anos. “Estima-se que, a princípio, 120 escolas estaduais (das 5,1 mil) sejam fechadas. A longo prazo, há informações de 1.500”, disse.

O plano estabelece que a redistribuição dos alunos respeite o raio de 1,5 quilômetro. Se uma escola tiver mais de um ciclo de ensino e não houver outra unidade em um limite de 1,5 quilômetro de distância para transferir os alunos, ela continuará do jeito que está, segundo a secretaria.

“A quantidade de estudantes que estudam perto de casa e que, com a mudança, terão que se deslocar ainda mais para estudar é enorme”, afirma o professor.

Para a estudante do 8° ano da Escola Estadual Francisco Glicério, Juliana Beltramelli, de 15 anos, a mudança é ruim.

“Será difícil mudar de ambiente escolar pois não quero ter que me distanciar de alguns amigos que moram em bairros longe.”

A aluna Karina Faria Wolss, que mora no bairro Campo Grande, estuda na mesma escola de Juliana, no Centro. A opção seria pela melhor qualidade de ensino na unidade e ela disse ter medo de não poder continuar onde está.

Segundo o Estado, o estudante que desejar, poderá permanecer na unidade que está, desde que tenha seu ciclo. Para os alunos que estão matriculados na rede, a transferência ocorrerá automaticamente. A secretaria afirmou ainda que em casos específicos, como o de alunos que moram na zona rural, longe da escola, os jovens têm direito a transporte de graça.

Justificativa

A Secretaria de Educação informou que o Estado perdeu 2 milhões de alunos em 20 anos, segundo levantamento da Fundação Seade (órgão que elabora análises da realidade socioeconômica paulista). Em 1998 a rede estadual tinha 6 milhões de estudantes matriculados e em 2015 o número é de 4 milhões.

“A estrutura física que foi preparada há mais de 20 anos para receber 6 milhões de alunos e garantir no Estado que todas as crianças e jovens estivessem nas escolas, hoje, viabiliza que eu tenha escolas ociosas”, disse o secretário estadual Herman Voorwald.

A queda na taxa de natalidade no Estado, a municipalização da Educação Infantil e a ida de alunos para escolas particulares por causa de uma situação econômica melhor nos últimos 20 anos, possibilitaram a diminuição no número de matrículas na rede estadual, segundo a Fundação Seade.

O secretário de educação acredita que a ação de separar as escolas por seguimento (cliclos de ensino) é fundamental.

“O próprio Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) publicou um relatório em 2015 mostrando que quanto menos complexa a gestão da escola, melhor o resultado de aprendizagem.”

Segundo o governo, dados do Saresp e do Saeb (que é uma avaliação nacional) mostram que quanto menos ciclos na escola, melhor o resultado no aprendizagem, e que escolas com ciclo único abrigam alunos com rendimento 10% superior às unidades com três ciclos.