Publicado 12 de Outubro de 2015 - 14h17

Por Mariane Mirandola

Mauro Braga e seu violoncelo incrível

LAURA FRANCOZO

Mauro Braga e seu violoncelo incrível

Com um violoncelo nas mãos, uma maquiagem que o permite se passar por um homem sujo, vestes sem marca e sem combinações, Mauro Braga se apresenta pelas ruas de Campinas como Casca Grossa. Com um banco pendurado na calça que se arrasta pelo chão, esse “morador de rua” toca o coração das pessoas com o som que sai de seu melhor amigo: o Bafo Quente.

Bacharel em música popular pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Braga compõe atualmente o quarteto musical de corda Carcoarco. Além da música, é colaborador ativo do teatro e do circo, e numa junção de tudo encontrou uma maneira de estar mais próximo do público, com aquela figura sem luxo, sem malícia, que ocupa espaços na rua para mostrar a sua arte.

Aos 34 anos, o músico não se intimida com o sol, com os olhares desatentos e nem com os perigos da vida na rua. Os mendigos ao redor tornam-se seus amigos, ou melhor, amigos do Casca Grossa. Quem passa perto do som que sai de Bafo Quente, seu violoncelo, acaba tirando os fones dos ouvidos para pendurá-los sobre os ombros. Rodas se formam em volta dele, e olhando olho no olho, a poesia sai, a música toca e novas histórias acontecem.

Histórias que permitem compartilhar momentos, como alguns goles de sua pinga, que foram bem aproveitados por Cláudio, um morador de rua que dorme do lado de fora do Terminal Central. Eles se encontraram na entrada da Rua José de Alencar. O banco pendurado em sua calça arrastou-se até próximo aos camelôs, eles trocaram olhares, Casca Grossa tocou um pouco e reuniu algumas pessoas em volta de si.

Mudou de posição, reuniu mais pessoas e, mesmo diante de tanta gente ao seu redor, não perdeu-se do olhar de Cláudio. Quando a música acabou, o banco arrastou novamente para o lugar onde começaram, Casca Grossa tirou do paletó uma garrafa com cachaça, deu um gole e compartilhou com seu novo amigo. Mauro, ou melhor, Casca Grossa, não se intimida em fazer aquilo que já é rotina de muitos moradores de rua.

Casca Grossa seguiu então o seu caminho, passando pelos ônibus, homens, mulheres, adolescentes, e até pessoas que faziam de tudo para aparecer. Mauro Braga apresentou-se essa semana como Casca Grossa pela primeira vez no Terminal Central e no camelódromo. Porém, teve quem garantisse que o personagem é real e que há 15 anos alimenta-se da solidariedade do dono de uma das bancas. Tem também quem garanta que Casca não é real e também quem tenha ficado bem em dúvida sobre sua real existência. Mas não teve ninguém que negou-se a olhar ou pelo menos ouvir o que aquela figura diferente tinha para oferecer.

Mauro Baga é um artista das ruas, do palco e dos estúdios. Já passou por grandes experiências. Já assinou trilha sonora de documentário, já se apresentou em concertos, peças e recebeu até prêmios. Casca Grossa é artista da vida. Nasceu no palco, em 2007, dentro do espetáculo Crossroad, assinado pela companhia ParaladosanjoS. É morador de rua e foi esculpido a partir do fascínio de Braga pela trajetória de Tom Waits, um músico e compositor norte-americano. Segundo o criador, o personagem é uma “lupa em sua personalidade”.

O artista nunca morou na rua. Casca Grossa vive nela e essa junção o permite realizar seu grande desejo: se comunicar com todas as pessoas e todas as pessoas se comunicarem com ele, se permitindo transformar através da sua arte.

Escrito por:

Mariane Mirandola