Publicado 11 de Outubro de 2015 - 10h49

Marcas de três balas em muro na Rua Luzitania Isabel Paes Segallio, a

Janaína Ribeiro/AAN

Marcas de três balas em muro na Rua Luzitania Isabel Paes Segallio, a "Rua da Chacina": medo impera

Três buracos de bala ainda estão no muro de uma das casas da Rua Luzitânia Isabel Paes Segallio, no bairro Vida Nova, periferia de Campinas. Uma mancha de sangue também persiste na calçada apesar das tentativas de limpeza. Escurece e pouca gente se aventura a ficar na rua até mais tarde. Quem volta da escola a pé aperta o passo com medo de um encontro indesejado numa esquina. A molecada “vida loka” voa em cima de motos barulhentas pela região. O tráfico já recrutou muitos jovens do lugar. De seu quintal, uma mãe indignada se nega a ficar calada, quer respostas das autoridades, chora, segura uma camisa com a foto do filho morto aos 20 anos de idade. O rapaz deixou duas crianças pequenas; a menor nem conheceu o pai.

Essas são algumas das cicatrizes da maior chacina da história de Campinas. Entre a tarde do dia 12 e a madrugada de 13 de janeiro de 2014, doze pessoas foram executadas por assassinos encapuzados em bairros das regiões do Ouro Verde e Campo Grande.

O recente assassinato de 19 pessoas em Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, apontado como uma ação de um grupo de extermínio envolvendo policiais, trouxe lembranças amargas para aquela comunidade campineira. “Quando vi a história na TV, lembrei de tudo o que aconteceu aqui. Ninguém chamou a gente para dar qualquer satisfação até agora. Queremos uma resposta. Não é justo matarem um filho da gente e depois ficar tudo quieto. Parece que, para eles (as autoridades), mataram um monte de cachorros, mas essas pessoas tinham famílias. Meu filho não tinha passagem policial”, protesta Juventina da Conceição Manuel Mota, mãe de José Ricardo Grilo, de 20 anos, uma das vítimas da chacina. “É difícil você sair para trabalhar, voltar para casa e ver o quarto vazio. A cada momento que passa, a dor aperta mais. Quero justiça. Não é possível que fiquem matando e nada aconteça”, desabafa.

Com dez filhos, Juventina enfrentou a maior dor do mundo em dobro. Depois de sepultar José Ricardo, o Kal, no começo de 2014, ela teve que dar adeus a outro filho, César, de 19 anos, no fim do mesmo ano. O assassinato ocorreu no dia 15 de dezembro. Juventina acusa policiais pelos dois crimes. “Eu não vou ficar calada. Já não importa mais se acontecer alguma coisa comigo. Eles não tinham o direito de tirar a vida dos meus filhos”, diz a mulher, chorando de raiva. Como tantas outras mães em luto permanente, ela fez camisetas para homenagear quem partiu. No seu caso, é preciso carregar uma em cada ombro. Como se não bastasse tanta dor, ainda existe uma lembrança mórbida na casa da família. Logo após a morte de José Ricardo, César pintou a mensagem “Paz, Ricardo” na parede do quarto do irmão. Meses depois, ele também seria morto de forma violenta.

Juventina perdeu os filhos José Ricardo na chacina de janeiro de 2014 e César, no fim do mesmo ano: "Parece que mataram cachorros"

Dor

A dona de casa que se identifica apenas como mãe de Daniel Vitor da Silva, de 19 anos, executado na chacina, tem medo de falar, mas a dor faz com que ela também proteste. Seu filho era deficiente visual e morreu de mãos dadas com José Ricardo, que costumava guiá-lo pelo bairro. “Minha vida acabou, lembro dele todo dia, toda hora. Tenho oito filhos, mas me tiraram a vida de um e isso acabou com a família toda. É uma coisa que não tem mais volta. Está nas mãos de Deus”, lamenta. “Meu sentimento é de perda total, não tenho mais ânimo para nada. Foi tirado um pedaço de mim. A sensação é a de que entraram em casa e mataram todos nós. Acabou”, explica a mãe.

Na Rua Luzitânia Isabel Paes Segallio, a tia de Diego Dias Coelho, de 24 anos, também morto pelo grupo encapuzado no ano passado, não esquece aquele dia. “Era final da noite e eu acordei com uns barulhos, achei que fosse rojão. Mas era tiro mesmo. Saí correndo e o meu sobrinho estava caído na calçada com outros dois rapazes. Só via sangue. Foi o maior desespero. Estava tudo escuro, as lâmpadas dos postes estavam queimadas”, lembra. “Ainda me assusto com os barulhos da rua. A gente vê na TV que essas coisas acontecem direto por aí. Não temos mais sossego”, comenta.

Medo

A irmã de Diego, que não terá o nome mencionado, acredita que não está ao seu lado na sepultura do Cemitério dos Amarais por uma questão de segundos. “Eu tinha acabado de entrar em casa, o portão estava até aberto. Se não tivesse entrado, estaria nessa também. Só pouparam o cunhado do meu irmão, que é pequeno. Falaram para ele entrar e foi o menino virar as costas... Começaram a atirar”, relembra. “Eu não fico mais na rua de noite. Passei um bom tempo fora de casa, morando com uma amiga. Dá medo de morar aqui. Às vezes, passam uns carros estranhos. Fora as ameaças... Falam para os moleques daqui que os próximos serão eles. A gente fica com receio, sinto isso até hoje. Tenho medo de ser mais uma vítima”, diz a garota, lembrando que alguns curiosos passam perguntando sobre o local exato de um dos pontos das execuções. O lugar perdeu a sua identidade. Virou a “rua da chacina”.

Suspeita recai sobre retaliação

Duas mortes violentas em pontos diferentes de Campinas e a pressão de comerciantes que costumam pagar por proteção a policiais militares que fazem “bicos” podem ser a chave para explicar a sequência de assassinatos da maior chacina da história de Campinas. De folga e desarmado, o policial Arides Luís dos Santos foi assassinado com um tiro na cabeça no dia 12 de janeiro do ano passado, durante uma tentativa de assalto a um posto de combustível no Jardim Planalto de Viracopos. No mesmo dia, o adolescente Joab Gama das Neves, de 17 anos, foi morto após ter supostamente participado de um roubo a outro posto, no Distrito Industrial.

O caso, aparentemente isolado, é considerado o primeiro ato dos atiradores que fizeram 12 vítimas na chacina. As investigações levantaram suspeitas sobre seis PMs. Desse grupo, cinco tiveram prisão determinada. Um deles colaborou com informações e está em liberdade. Do grupo, quatro policiais eram integrantes do 47º Batalhão — o mesmo do PM Arides dos Santos — e costumavam atuar nas regiões onde ocorreu a série de mortes.

Tudo se conectou quando uma testemunha reconheceu um PM desse mesmo grupo e disse que ele teria estado na cena do crime que vitimou Joab. Na ocasião, uma das vertentes da investigação era que o adolescente teria sido morto como uma “resposta” dos policiais que fazem bico aos comerciantes insatisfeitos com os assaltos. Os seis PMs foram expulsos da corporação em dezembro do ano passado. O MP denunciou o grupo à Justiça por homicídio duplamente qualificado.

Três mortes

Recentemente, além da morte de Joab, surgiu a informação de que dois dos ex-PMs presos são suspeitos de participação em mais dois homicídios da chacina. Assim, seriam três mortos e uma ligação concreta entre o Joab e os outros 11. Em nota, a Secretaria de Estado da Segurança Pública informou que “foram instaurados oito inquéritos policiais para apurar os crimes, dos quais quatro foram relatados à Justiça com as respectivas autorias apontadas. Os cinco ex-policiais militares suspeitos por três homicídios permanecem presos em São Paulo. As investigações continuam.” 

Advogado diz que não há provas

José Tavares Pais Filho, advogado dos seis ex-policiais militares suspeitos de participação na morte do adolescente Joab Gama das Neves, de 17 anos, em janeiro do ano passado, afirma que não há provas contra os seus clientes e que eles foram injustamente expulsos da corporação. O mesmo ele diz sobre a informação de que dois desses ex-PMs também teriam participação na morte de outras duas pessoas das 12 vítimas da chacina.

“Investigaram dois dos PMs supondo que eles poderiam ter alguma participação (nos outros dois casos, além de Joab), mas não se comprovou nada. Não existe processo nenhum nesse sentido”, diz. “A polícia acredita que eles poderiam estar no meio devido a circunstâncias”, insiste o advogado.

Questionado sobre o fato da expulsão da PM ser um indício de que há realmente algo que ligue seus clientes aos crimes, o defensor rebate. “A PM tem regras lá dentro, né? De repente, um crime de repercussão desse... Acabam expulsando. Primeiro temos que julgar para depois expulsar, mas é aquela história... Expulsam antes”, comenta.

Sobre o fato de algumas testemunhas afirmarem que os atiradores estariam fardados, Pais Filho afirma que não tem conhecimento disso. “Cada um fala o que quer. Na cabeça da população, se lá (na chacina de Osasco e Barueri) foram policiais, vai ser em todo lugar. Tem que investigar para ver. Pode ser que em um lugar foi PM e no outro, não. Pode ser briga de facção criminosa, essas coisas acontecem muito...”, responde. “Lá na Grande São Paulo também teve a morte de um policial (antes dos crimes em série) e isso traz, entre os colegas de farda, uma revolta. Agora, dizer que foram policiais os autores das duas chacinas tem um caminho a percorrer”, ressalta.

Prisões

Em Campinas, dos seis ex-PMs, cinco estão presos. Na semana passada, nove pessoas suspeitas de participação na chacina da Grande São Paulo foram detidas. Oito PMs e um guarda municipal.

Foto: Janaína Ribeiro/AAN

Padre Osmar: ele celebrou três missas de 7º dia por causa da chacina

Padre Osmar: ele celebrou três missas de 7º dia por causa da chacina

Padre vê ‘barbaridade’ contra as famílias

O padre Osmar Hércules Padovan, da Paróquia Dom Bosco, no bairro Vida Nova, vivenciou de perto os momentos após a chacina de janeiro do ano passado. Ele celebrou três missas de sétimo dia na ocasião. Uma delas ocorreu na Rua Luzitânia Isabel Paes Segallio, palco da morte de algumas das vítimas. “Eu me recordo que estava chegando de uma missão que fizemos com os jovens em outra cidade. Justamente naquela noite que chegamos, recebemos a notícia de que várias famílias haviam perdido seus filhos”, conta. “Logo pela manhã, uma das famílias pediu para que eu fosse até a casa de uma paroquiana muito frequentadora da igreja e lá fiquei sabendo que um dos seus filhos (Gustavo de Souza Moura da Silva, 21 anos) havia sido assassinado”, lamenta.

Padre Osmar recorda também que o clima na região era de espanto e desespero. Ninguém esperava que fosse acontecer novamente o que já havia ocorrido em outubro de 1999 — quando a área da Escola Estadual Núcleo Habitacional Vida Nova foi palco de uma chacina, com três mortos e mais oito baleados. “Foi mais um fato doloroso aqui na nossa região, um grande golpe para a comunidade. O bairro como um todo sentiu”, comenta o religioso.

Logo após as mortes, a revolta explodiu nos bairros afetados do Ouro Verde e Campo Grande. No mesmo dia 13 de janeiro, três ônibus do transporte coletivo urbano de Campinas foram incendiados e outros cinco acabaram apedrejados por manifestantes no Vida Nova.

“O povo que vive aqui é formado por famílias pobres, que estão lutando para organizar a estrutura de suas casas, para desenvolver um processo de educação dos jovens, seus filhos. Os pais se esforçam para dar a eles uma perspectiva de vida. E aí, de repente, acabam atingidos por uma barbaridade. Sem saber, praticamente até hoje, de onde veio isso. Ficou um clima ainda mais assustador porque todos sentiram a dor das famílias. Assim como foram atingidos aqueles jovens poderiam ter sido outros também”, afirma Padovan.

Carinho

O pároco acredita que a tragédia também fez surgir ações positivas. Ele aponta que o crime despertou no poder público uma atenção com mais carinho para a realidade do bairro Vida Nova. Recentemente, o Parque Ecológico Dom Bosco — uma área verde com opções de lazer — foi inaugurado ali. “Posso dizer que essa nova área também é consequência daquilo que aconteceu há quase dois anos. Creio que houve uma mobilização e uma reação da comunidade para que, de fato, existisse ali um espaço para o lazer. Há 20 anos, esse mesmo local era um ponto onde pessoas assassinadas eram jogadas. Hoje, o parque é uma área onde a comunidade pode se relacionar, fazer atividades e onde o próprio Município dá um exemplo de que é possível, nessas regiões, desenvolver locais de convivência. Também podemos dizer que esse parque é o fruto de vidas ceifadas de jovens”, define o religioso. A Paróquia Dom Bosco atende cerca de 40 mil pessoas em sua região.