Publicado 15 de Outubro de 2015 - 22h09

Por João Nunes

Operações Especiais

João Nunes

Operações Especiais

Apesar de ser entretenimento, Operações Especiais (Brasil, 2015), escrito pelo diretor Tomás Portella, Martina Rupp e Mauro Lima, sinaliza dois debates: valorização da mulher (neste caso, como policial) e a tese de que há policiais honestos. Há um terceiro (a corrupção no Brasil é insolúvel) que trataremos depois.

Contudo, o roteiro reitera tanto os dois primeiros com diálogos fracos (alguns desastrados, como a referência feita ao presidente que era torneiro-mecânico) que parecem aulas. Em quinze minutos ouvimos umas cinco vezes algo sobre a protagonista Francis (Cléo Pires) ser mulher.

As imagens dispensam reiterações (as que envolvem preconceito até cabem), pois o inusitado (hoje, nem tanto) está diante de nós: mulher bonita mantém feminilidade e vaidade (vive no cabeleireiro) mesmo metida num trabalho até então reservado aos homens.

A tese de policiais honestos é mais complexa. Existem honestos e canalhas em qualquer profissão; somos humanos e nos cabe este peso. Difícil é imaginar uma trupe de soldados incorruptos que atua em conjunto sob o comando de delegado severo e correto (Marcos Caruso, bem no papel).

Parece mais um seriado, estilo “Justiceiros das Galáxias”, ou algo assim; quer dizer, mais desejo que realidade: gente de bem confrontando o mal. Seria ótimo se assim fosse. E, então, entramos no terceiro ponto.

Se existisse a tal trupe, os fatos se encarregariam de mostrar a realidade de que o Brasil parece não ter jeito. A história se passa na fictícia São Judas do Livramento, que representa o microcosmo do país, onde a corrupção arraigada envolve todo mundo numa rede cujos fios são tão fortes que impedem ações moralizadoras.

E o roteiro circular nos leva a crer que estamos mesmo num seriado sobre um grupo de policiais do bem que saem pelo país tentando resolver o drama da corrupção, mesmo sabendo que a rede composta de políticos, juízes, empreiteiros e traficantes são tão poderosos que não há saída. E concluímos que justiceiros só funcionam em seriados.

Cabem elogios à boa produção (elementar, se, como filme do gênero ação, quer concorrer com os americanos), às cenas bem filmadas de confronto entre policiais e bandidos e por tentar trazer à tona algumas discussões, mesmo que fiquem no plano raso de filme feito para entreter.

Cléo Pires tem o rosto forte que o papel exige, mas se mostra precária em traduzir emoções ao espectador. Ademais, a personagem dura expõe fragilidades ao pedir desculpas o tempo todo: para o delegado, para os colegas, para a mãe, como se sentisse culpada pela opção de, sendo mulher, optar pela carreira policial.

Isto poderia ser um arco dramático interessante, pois ela irá se fortalecer, mas soa tão lugar-comum que se perde naquilo a que se propõe: mulher frágil lutará contra o preconceito e prevalecerá. De novo didatismo duro de engolir. E, de novo, a ideia de que parece seriado.

Mas os americanos não fazem o mesmo com filmes de heróis verdadeiros ou ficcionais? Sim, o fazem com o intuito de entreter e, todas as vezes que tentam doutrinar, escorregam. O problema de Operações Especiais é não assumir que se trata de entretenimento, como fazem os americanos, e querer ir além.

O cinema, até onde meu entendimento alcança, costuma instigar. Na indefinição entre estimular o espectador a pensar sobre questões relevantes ou simplesmente entretê-lo, o filme de Portella fica no meio do caminho.

Escrito por:

João Nunes