Publicado 11 de Setembro de 2015 - 12h02

Por Delminda Aparecida Medeiros

obs: as fotos trazidas por Alves de Lima, inclusive uma de Carlos Gomes em seu leito de morte, foram cedidas a ele pelo Centro de Memórias da Unicamp. acho que tem que constar : acervo do CMU. A exceção é o desenho que foi feito por Hércules Florence

Escritor resgata fim da vida de Carlos Gomes

Delma Medeiros

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Os últimos meses de vida do compositor e maestro Antônio Carlos Gomes, o campineiro que conquistou o mundo da ópera com seu talento, são o foco da pesquisa do advogado, historiador e escritor Jorge Alves de Lima, para seu próximo livro, Antônio Carlos Gomes: sou e sempre serei o Tonico de Campinas, com previsão de lançamento em 2016, quando se completa 180 anos de nascimento e 120 anos da morte do compositor. “Vou relatar o período em que Carlos Gomes regressou ao Brasil para dirigir o Conservatório Musical de Belém, a convite do governador do Pará, Lauro Sodré”, adianta Alves de Lima.

“Já fiz uma extensa pesquisa em Campinas, em livros, arquivos, documentos diversos, jornais, centros de memória e histórias familiares. Em outubro vou para Belém, para ver in loco o que aconteceu lá. Carlos Gomes, depois alcunhado Tonico de Campinas, viveu seu últimos meses lá. Ele chegou em Belém em maio de 1896, já gravemente abatido pelo câncer de boca, e morreu em 16 de setembro do mesmo ano”, informa Alves de Lima.

Pesquisador e historiador incansável, o escritor já encheu dois cadernos grandes de anotações manuscritas sobre a vida e obra de Carlos Gomes, mas vai centrar o foco nos últimos meses de vida, no enterro do compositor em Belém, seu traslado para Campinas e a comoção que causou ena cidade e nos locais por onde passou seu corpo até chegar à terra natal.

“Vou ser minucioso em contar essa história, atento ao menor detalhe. Vou detalhar, por exemplo, como estava a decoração interna e externa da Catedral Metropolitana de Campinas, onde o corpo foi velado, a decoração da máquina do trem que o trouxe a Campinas, do vagão em que veio o corpo”, explica Alves de Lima.

“O enterro dele foi uma consagração como nunca se viu em Campinas”, afirma.

Sobre a escolha do título, Jorginho, como é chamado pelos amigos, explica que quando estourou o sucesso da ópera O Guarani, correu uma boataria de que o maestro havia virado italiano, que não ligava mais para o povo de Campinas. Sua resposta foi essa: “diga ao povo de Campinas que sempre fui e serei o Tonico de Campinas”.

Alves de Lima conta que quando o compositor morreu, a Câmara de Vereadores pediu a Campos Salles, então governador de São Paulo, que solicitasse o traslado do corpo para Campinas.”O corpo, embalsamado, veio de navio até o Rio de Janeiro, onde ficou por 24 horas. De lá veio até Santos ainda de navio, depois de trem para São Paulo, sendo velado na Estação da Luz. O trem que o trouxe para Campinas saiu de São Paulo às 12h. Quando passou por Jundiaí, 3 mil pessoas estavam na estação ferroviária e não queriam deixar o trem seguir viagem. Em todos esses locais, ele foi aclamado pela população. Em Campinas foi velado na Catedral por 15 mil pessoas”, conta o escritor. De início Carlos Gomes foi enterrado no Cemitério da Saudade, chamado de Cemitério do Fundão. Apenas em 1905, seus restos mortais foram transferidos para o Monumento-Túmulo, na Praça Bento Quirino. Essa transferência, aliás, é o assunto do próximo livro do historiador.

Curiosidades

Em suas pesquisas, Jorge Alves de Lima fez descobertas inusitadas. Na missa de corpo presente realizada em Belém, no meio da celebração entrou na nave um rouxinol do Norte, que pousou na cruz do catafalco em que estava o caixão e trinou por 10 minutos e depois voou. “Quando o corpo foi enterrado no Cemitério do Fundão a cena se repetiu. No meio da cerimônia um canarinho da terra pousou no caixão e cantou. Uma feliz coincidência.”

Outra história comprova o caráter de Carlos Gomes. Mesmo em situação financeira precária, quando foi proclamada a República, ele foi convidado, mediante uma quantia polpuda, a compor o Hino da República. Mas, dizendo-se fiel ao imperador deposto e, sobretudo, monaquista, recusou-se e não recebeu o dinheiro.

Saiba mais

Jorge Alves de Lima é advogado, historiador, pesquisador e escritor. É presidente do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas, diretor do Centro de Ciências, Letras e Arte de Campinas (CCLA), membro da Academia Campinense de Letras (ACL) e do Conselho Científico da Unicamp e acaba de ser eleito para a Academia Paulista de História. É autor de três livros que resgatam a história de Campinas: Campinas dos séculos 19 e 20 (2011), de crônicas sobre fatos reais ocorridos na cidade; O Ovo da Serpente (2013), sobre a febre amarela que assolou a cidade entre 1889 e 1900; e O Retorno da Serpente (2014), em que revive o ano de 1890. (DM/AAN)

Escrito por:

Delminda Aparecida Medeiros