Publicado 11 de Setembro de 2015 - 10h00

Por Adagoberto F. Baptista

Fotos: Dominique

Gustavo Abdel

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Quando Seo Manolo começa a falar em religião, e principalmente sobre os santos católicos que ele cultua, seus olhos se aprontam para receber as lágrimas. Não está chorando, garante, e diz que esse fenômeno acontece desde quando sonhou certa vez com Nossa Senhora Aparecida lhe dando um abraço. Foi desse dia em diante que Manolo confessa ter recebido o dom de benzer as pessoas, e também curá-las, segundo os próprios admiradores. Enquanto o assunto religião não muda seus olhos ficam nadando em lágrimas suspensas e refletidas nas lentes de seus óculos. Aos 89 anos, esse senhor nascido em Caculé, sul baiano, é tido como uma figura carismática, e por isso tratado com muito respeito e admiração, tanto em seu local de trabalho como no bairro Itatiaia, em Campinas, onde mora há muitos anos.

Seo Manolo é na verdade Jovelino José de Oliveira, um dos mais antigos funcionários do Tênis Clube de Campinas. Por lá é como Manolo que todos o conhecem. Já o Jovelino do número 69 da Rua da Tração, no Itatiaia, é o nome mais procurado por aqueles que precisam benzer de alguma agrura a vasta “clientela” de crianças, principalmente. Dom de benzedeiro não se cobra pela reza. “Oh moço, Deus já me dá a recompensa, que é minha vida e minha saúde”, ensina.

Há 24 anos no Tênis, Manolo é o “guru” da turma. Responsável pelo cuidado com o vestiário masculino há anos, o funcionário fez do local um pequeno santuário, com imagens de santos e livros bíblicos. Sua devoção é para Nossa Senhora Aparecida, mas Santo Expedido, Nossa Senhora de Fátima e São José compõe a fileira de adesivos dentro de seu armário. No meio de livros, toalhas e peças de roupa, o senhor sempre leva um CD ou outro, gravado com a voz dele, para entregar a algum associado que se interessa por religião. “Gravo passagens e ensinamentos para orientar as pessoas. Junto vão trechos de missas que acontecem no Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, celebrada pelo padre Robson de Oliveira”. Centenas de CDs, digitalizados por um dos quatro filhos (ele teve sete ao todo), já foram distribuídos ao longo dos últimos anos.

Apesar da fala baixinha, vagarosa, a agilidade desse senhor impressiona os demais colegas de clube. Todos os dias às 4h40 salta da cama e às 5h20 já está no ponto de ônibus. Desce a quatro quarteirões do Tênis 20 minutos após ter embarcado. Às 11h almoça e às 14h20 se despede do vestiário, carregando sua inseparável bolsa. “Às vezes até pedem para eu sair mais cedo se eu quiser, mas sou certinho e cumpro meu horário”, conta sorrindo. Quando chega em casa, o expediente é dado na varanda, onde também estão plantadas as ervas de Santa Bárbara, muito usada em suas benzeções.

Os braços fortes foram moldados quando trabalhou no garimpo de pedra ametista, no sul da Bahia. Anos e anos cumprindo diversas funções na capital nordestina das ametistas, em Brejinho. Era jovem e só parou quando decidiu se casar com Isabela.

Desde cedo aprendeu a dividir poucos alimentos com dez irmãos. Trabalho pesado foi sua sina: alambiqueiro, lavoura de arroz, tocador de boi, etc. Já casado, veio certa vez com a mãe Maria visitar três dos seus sete filhos que moravam em Campinas, e gostou da cidade. Chamou Isabela e vieram embora, há mais de 40 anos.

“O primeiro serviço foi como ‘calçadinha’, e ganhava muito mais do que na Bahia”. De reparador de pedras portuguesas Jovelino passou por diversos ramos, sempre transmitindo sua fé e bons ensinamentos por onde andou.

BOX

Mais histórias como a do Seo Manolo podem ser lidas no blog do repórter Gustavo Abdel (www.resenhaurbana.wordpress.com ), que faz parte do conjunto de blogs parceiros do Grupo RAC. Diariamente o repórter conta a história de vida de algum cidadão ou cidadã, anônimos ou nem tanto, encontrados nas ruas de Campinas e região.

Escrito por:

Adagoberto F. Baptista