Publicado 09 de Setembro de 2015 - 21h14

Por Adagoberto F. Baptista

Foto: Cedoc/RAC

Eric Rocha

Cecília Polycarpo

A Justiça de Campinas ouviu ontem um dos réus no esquema de corrupção e pagamento de propinas que envolvia policiais e delegados da Delegacia de Narcóticos de São Paulo (Denarc) e traficantes da região do São Fernando. Ele assinou um acordo de delação premiada, confirmou e contou tudo que sabia sobre o esquema de extorsão. O homem atuaria como “ganso”, o que na gíria na policial define uma pessoa que ajuda informalmente os agentes em operações. O delator falou também sobre a possibilidade de um plano arquitetado pelos agentes para matar o promotor do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Amauri Silveira Filho, um dos responsáveis pela investigação da quadrilha (leia mais nesta página).

Durante o depoimento, que durou cerca de três horas, o réu colaborador citou o deputado estadual e delegado do Denarc à época, Antonio Assunção de Olim (PP). Segundo ele, o parlamentar sabia da existência de “gansos” que trabalhavam para o Denarc. Em entrevista ao Correio, Silveira Filho explicou que Olim não é reu no processo e não há provas de que o político sabia da existência do esquema. Ele, tampouco, é objeto de uma investigação. Segundo o promotor, só foi relatado que Olim foi visto em um almoço com outros delegados que trabalhavam na delegacia.

Na fala, o delator – que já foi alvo de um atentado e anda com escolta da Polícia Militar explicou que foi proprietário de uma loja de carros em Guarulhos, na Grande São Paulo, onde atuavam os policiais antes de migrarem para o Denarc, em 2011. Quando o negócio fechou, começou a ser chamado para alguns “serviços” e atuar como se fosse um policial civil: portava armas, colete à prova de balas, qualificava testemunhas, fazia intercepções telefônicas e utilizava viaturas da delegacia, onde tinha acesso livre até 2013, quando foram instaladas catracas no local.

O grupo no qual trabalhava era formado por sete pessoas, entre eles quatro policiais e mais quatro “gansos”. O quartel-general funcionava na garagem de um hotel em Guarulhos, onde eles se reuniam diariamente às 10h. No local, ficavam estacionadas as viaturas e os equipamentos guardados em uma sala. De lá, eram planejadas “operações” em diversas cidades do estado onde traficantes eram extorquidos. Drogas apreendidas nestas ações muitas vezes ficavam com os próprios policiais. No lugar, eram apresentadas à Polícia Civil uma menor quantidade ou entorpecente de má-qualidade. Todas as ocorrências eram fotografadas ou filmados pelo “ganso”, que depois entregou o material ao Ministério Público.

O alvo em Campinas era o Jardim São Fernando, onde todo dia 15 de janeiro de cada ano os traficantes eram obrigados a dar R$ 200 mil para se verem livres dos agentes. Também há informações de repasses mensais de R$ 30 mil. Em 2013, no entanto, o acerto annual não foi feito no prazo e os policiais começaram a pressionar o chefe e o gerente do tráfico no bairro. Por causa disso, duas mulheres foram sequestradas, agredidas e uma delas chegou a ser torturada com uma máquina de choque por cerca de dez minutos.

A quadrilha também passou a fazer visitas constantes ao bairro para forçar o pagamento, chegando até a se mobilizar para impedir temporariamente o trabalho em um dos pontos de venda de entorpecentes e sequestrar traficantes. Em 11 de abril daquele ano, uma operação ilegal foi montada para pôr fim à dívida e a equipe voltou novamente à Campinas. Traficantes, mulheres e duas crianças chegaram a ser levados para um chácara, em Monte Mor, onde foram mantidos em cárcere privado. Por fim, os agentes conseguiram receber o pagamento, feito em um posto de combustíveis da cidade. Segundo o delator, cerca de 40% de valores arrecadados ficavam com delegados – dois são réus no processo – e o restante era dividido com a equipe. “A verdade é que a prova que já existe nos autos é robusta, coerente e mais do que suficiente para sustentar a condenação de todos. O relato do agente colaborador trouxe ainda mais elementos do que já era de nosso conhecimento”, avaliou o promotor no fim da audiência, que contou com o depoimento de seis testemunhas de defesa. Silveira Filho disse também que as novas informações colhidas “serão objeto de apurações específicas”.

A prisão dos traficantes e dos agentes foi possível depois que os telefones deles foram grampeados e escutas telefônicas mostraram como funcionava a operação da quadrilha. Além do pagamento aos policiais da Capital, em Campinas, os traficantes ligados a quadrilha de Wanderson Nilton de Paula Lima – principal chefe do tráfico na cidade - também faziam um suposto "acordo" com dois investigadores do 10º Distrito Policial de Campinas, região que compreende os bairros próximos ao Jardim São Fernando. O objetivo é que a venda da droga fosse facilitada.

Ao todo, 23 pessoas são réus no processo. Entre eles, estão 12 policiais, 10 traficantes e o "ganso", delator do esquema. Todos respondem em liberdade, exceto os que estão presos por outros crimes. Quando a operação foi deflagrada pelo Gaeco, em julho de 2013, os promotores já investigavam a quadrilha há um ano. Procurada para falar sobre o caso, a Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP) afirmou que não iria se pronunciar pois ele já se encontra na Justiça.

Deputado

No depoimento à Justiça de Campinas, o delator chegou a citar o nome do deputado estadual e delegado do Denarc à época, Antonio Assunção de Olim (PP). Ele disse ter visto Olim em um almoço com delegados supostamente envolvidos no esquema. O parlamentar disse que desconhecia a presença de gansos na delegacia e que não sabe quem é o delator. Na época em que era delegado, segundo ele, era “apresentado a dezenas de pessoas toda semana”.

O deputado também afirmou que não tinha do que se queixar dos policiais réus do processo. “Sempre trabalharam direitinho. Faziam várias apreensões. Não sei o que faziam da delegacia para fora”, afirmou. O promotor Amauri Silveira Filho explicou que Olim não é réu do processo e que não há uma investigação contra ele até o momento. “Nem há elementos no momento para tanto. Se aparecer algo relacionado à pessoa com fatos que escapem da atribuição do Ministério Público em primeira instância, vai ser dado conhecimento às autoridades competentes. Mas não é o caso no momento”, explicou. Como tem foro priveligiado, o deputado estadual só poderia ser investigado pela Procuradoria Geral de Justiça.

Ameaças - Retranca

Os promotores do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado passaram a receber ameaças de morte após a prisão de 23 pessoas na operação em julho de 2013. Em uma correspondência endereçada ao promotor Amauri Silveira Filho, entregue em setembro do mesmo ano na sede do MP de Campinas, estavam fotos das fachadas de imóveis onde moram familiares dos promotores. Na audiência ontem, o delator contou que a quadrilha começou a receber informações de que haveria um promotor que tinha detalhes sobre a operação criminosa e que os telefones utilizados por eles estariam grampeados. Era Silveira Filho, que chegou a ser apelidado de “rambo” pelos acusados. A morte ou sequestro de Amauri, familiares dele, ou de membros do Gaeco chegou a ser ordenado, mas o tema foi objeto de discórdia na quadrilha e nenhuma ação foi arquitetada. “As ameaças foram constantes desde que a investigação se tornou de conhecimento deles. Foram cartas, telefones, a promotores do Gaeco e familiares. Desde então isso tem acontecido com uma certa frequência”, explicou o promotor. Segundo ele, cada ameaça é objeto de um procedimento de investigação específico. “É intuitivo concluir a quem interessava essas ameaças e quem participou da idealização delas. Mas quem fez a ligação telefônica ou enviou a correspondência é mais complicado chegar. Um dia esses fatos vêm à tona e vão ser esclarecidos de uma forma ou de outra”, avaliou.

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Adagoberto F. Baptista