Publicado 08 de Setembro de 2015 - 18h35

Por Bruno Bacchetti

Bruno Bacchetti

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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A Polícia Federal (PF) está investigando a ligação de apoiadores da rede terrorista Estado Islâmico (EI) com empresas fantasmas em Indaiatuba e São Paulo, utilizadas para enviar dinheiro ao Líbano a fim de financiar ações terroristas. No dia 28 de agosto, a Operação Mendaz da PF cumpriu 18 mandados judiciais de busca e apreensão nas duas cidades. Na ocasião, a Polícia Federal realizou ação sigilosa e não deu detalhes da operação, limitando-se a informar que tinha o objetivo de combater uma quadrilha responsável por evasão de divisas. Os policiais recolheram notas fiscais, computadores e contratos. Reportagem da revista Época, publicada no último final de semana, revelou que a operação teve o objetivo de investigar um grupo suspeito de movimentar ilegalmente mais de R$ 50 milhões em cinco anos para apoiar o terrorismo, O líder da organização criminosa seria o libanês Firas Allameddin.

A PF não revelou os endereços e os nomes dos investigados em Indaiatuba, porque as informações são sigilosas. Foi citado apenas que a operação teria desbaratado uma rede de empresas e CPFs falsos, montada para enviar dinheiro para fora do País sem identificar quem recebe. A reportagem do Correio apurou que empresas de Indaiatuba do ramo de importação estão entre as investigadas pela Polícia Federal. Uma casa de câmbio de São Paulo, cujo proprietário reside em Indaiatuba, também está na mira da PF.

De acordo com a reportagem da revista Época, a Operação Mendaz foi conduzida pela Diretoria de Inteligência da Polícia Federal e acompanhada pela Embaixada dos Estados Unidos. A Embaixada de Israel também foi avisada pela PF sobre a ação. O ponto de partida da investigação começou com o egípcio Hesham Eltrabily, acusado pelo governo egípcio de ter praticado ação terrorista em 1997 e residente no Brasil desde meados de 2000. O egípcio foi sócio de Allameddin em um comércio de roupas na capital, que está fechado.

Segundo as investigações, o grupo de Allameddin utilizava empresas de fachada e nomes falsos para repassar valores ao Líbano. A PF suspeita que o dinheiro tenha origem em estelionato, cheques sem fundo e empréstimos fraudados. O grupo usava uma corretora especializada em transferências de dinheiro e fazia repasses de baixo valor, sem a necessidade de conta bancária. Em cerca de 300 operações realizadas em menos de dois anos, foram enviados cerca de R$ 2,5 milhões ao Líbano. Uma casa de câmbio clandestina localizada na rua Frei Caneca, na Consolação, em São Paulo, transferia o dinheiro para a corretora, que por sua vez remetia ao exterior, dificultando o rastreamento do dinheiro. A Polícia Federal apurou que o dono da casa de câmbio é morador de Indaiatuba.

"Foram colhidos indícios da existência de uma quadrilha que se dedica à prática de crime de falso, remessa de divisas à margem do controle cambial (...) bem como lavagem de ativos. Tal rede se utilizaria de informações falsas para a obtenção de documentos que propiciaria a criação de pessoas físicas e jurídicas fantasmas", afirmou a decisão da 10ª Vara Criminal da Justiça Federal de São Paulo, que autorizou as investigações.

Além de Firas Allameddin, a tarefa de enviar dinheiro ao Líbano para financiar o Estado Islâmico caberia a seus dois irmãos - Toufic e Fadi, através de empresas de fachada e pagamento da fatura de cartões de crédito com valores acima do total, para o excedente ser sacado no Líbano. O trio publicava na internet imagens e mensagens de apoio ao Estado Islâmico, incluindo a execução de prisioneiros pela organização.

O que é o Estado Islâmico?

A organização terrorista Estado Islâmico (EI) é o principal grupo jihadista do mundo. No ano passado o grupo declarou oficialmente a criação de um califado na Síria e no Iraque - reunindo todos os muçulmanos do mundo sob a liderança de Abu Bakr al-Baghdadi. Considerado um dos grupos mais perigosos do mundo, Estado Islâmico segue uma interpretação anti-ocidental extrema do Islã e considera aqueles que não concordam com a sua interpretação como infiéis e apóstatas. A organização utiliza de violência contra os considerados inimigos e usa a publicidade para divulgar as atrocidades cometidas (decapitações e fuzilamentos de prisioneiros) e arregimentar simpatizantes.

Como funciona o esquema

A Polícia Federal suspeita que o dinheiro tenha origem em estelionatos, cheques sem fundo e empréstimos fraudados. O grupo usava uma corretora especializada em transferências de dinheiro e fazia repasses de baixo valor, sem a necessidade de conta bancária. Em cerca de 300 operações realizadas em menos de dois anos, foram enviados cerca de R$ 2,5 milhões ao Líbano. Uma casa de câmbio clandestina de São Paulo transferia o dinheiro para a corretora, que por sua vez remetia ao exterior, dificultando o rastreamento do dinheiro.

Quem participava

O grupo criminoso, formado especialmente por estrangeiros, tinha como objetivo o envio de remessas ao exterior e para isso usavam empresas fantasmas que, formalmente, exerceriam atividades diversas, desde o ramo de confecções até a compra e venda de materiais.

Crimes cometidos

O Brasil não possui uma legislação específica a atentados terrorista ou apoio a células terroristas. Por isso, as pessoas envolvidas responderão criminalmente por crimes financeiros (lavagem de dinheiro, evasão de divisas), uso de documento falso perante órgão federal, estelionato e associação criminosa.

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Bruno Bacchetti